É isso

Pedro Passos Coelho chamou hoje à indignação de um país inteiro “ansiedade e impaciência de alguma gente que vai em modas passageiras”. Diz-se nada preocupado com “o que vai na alma dos portugueses” (ao contrário de muitos outros, “que estão em casa” (a fazer nenhum) “preocupados em sintonizar com as espumas dos dias” – Boris Vian odiaria esta imagem e este plural desqualificador. Mais disse, sempre muito aprumado e aparentemente convicto: que quem está em casa vai ser informado sobre o futuro que o Governo está a preparar para os portugueses. Ouvido assim lembra um conciliábulo de malfeitores, reunidos numa cimeira de mágicos-maus empenhados em lixar a vida às pessoas – e a malta a vê-los naquilo pela televisão, os truques à vista de todos. Reformar o Estado sem levá-lo a escrutínio popular é isso.  

É humanamente incompreensível o tom altaneiro e desafiador com que Pedro Passos Coelho enfrenta a realidade de uma população em crescente protesto contra o seu Governo. Como pode Pedro Passos Coelho repetida e provocatoriamente dizer que dorme bem? Por que o faz? E mesmo que dormisse: é possível conceber que durma bem enquanto tanta gente, a quem as políticas do seu Governo tiraram o sono (o trabalho, a casa, os filhos que emigram, a esperança, o futuro, a vida) por causa dele não dorme? É aceitável pensar que dorme bem? Um dirigente político não diz isso jamais – e não dorme bem. A política tira-lhe o sono, as responsabilidades geram insónias, por vezes é preciso tomar comprimidos, mas sobretudo ser conciliador, dialogante, ouvir os outros, ser capaz de introspecção, de humildade, de análise, e nunca perder de vista a razão de ser da política numa República: ser político é isso.

De entre as grandes missões de um homem numa sociedade, ser político será (apesar dos tempos, ou por causa dos tempos) das mais nobres. Ser primeiro-ministro não é ter um emprego importante temporário, e nem sequer é cumprir uma missão pública a termo (ao termo de um ciclo político): é servir os outros – quantos mais (dos vivos, atenção, que a política, mesmo se justamente encarada numa visão prospectiva, é o que o homem político faz hoje) melhor, para não se perder, com o sono, a legitimidade também. A democracia é isso.

Comments


  1. O sr. Coelho ainda tem muito que aprender. Não foi Ghandi que disse “primeiro ignoram-te, depois riem-se de ti, depois combatem-te e depois tu vences”?

  2. Nacionalista says:

    O Estado são eles, não é?
    Somos apenas bestas de carga que carregam e levam porrada sem queixume.
    Pois até as bestas se revoltam um dia. E espero que as bestas que colaboram e validam esses curruptos que controlam o poder acordem antes de se deixarem matar de fome.
    Espero que dia 2 seja o dia. Mas a sério. Porque com cantorias também não se resolve nada.

  3. samoia says:

    artigo um pouco insosso

  4. Paula Sofia Luz says:

    Só que ele não sabe.


  5. É preciso tirar-lhe o sono! Continuemos a contestação.

  6. Luís says:

    Aquilo que mais me enoja neste farsola é o estar a lembrar sempre aos portugueses que somos um povo cobarde!

Trackbacks


  1. […] Pedro Passos Coelho chamou hoje à indignação de um país inteiro “ansiedade e impaciência de alguma gente que vai em modas passageiras”. Diz-se nada preocupado com “o que vai na alma dos portugueses” (ao contrário de muitos outros, “que estão em casa” (a fazer nenhum) “preocupados em sintonizar com as espumas dos dias” – Boris Vian odiaria esta imagem e este plural desqualificador. Mais aqui. […]

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