Com o acordo ortográfico há mamas até ao tecto

tetosPara que não me acusem de só ver defeitos no chamado acordo ortográfico (AO90), quero hoje manifestar o meu regozijo, como mamífero masculino, pelo facto de, com o AO90, a língua portuguesa poder contar com mais mamas, devido à criação de mais um par homográfico: tecto transforma-se em teto, passando a escrever-se da mesma maneira que uma das muitas palavras que servem para designar a glândula mamária.

Não vou tão longe que acredite que tal alteração poderá levar a que se confunda o peito feminino com a cobertura de uma casa, embora possa ter alguma piada imaginar uma empresa de material de construção civil a tentar vender telhas a uma loja de lingerie.

O que verdadeiramente me desgosta neste delírio é confirmar o aumento de palavras homógrafas, sempre geradoras de ruído. Para além disso, a supressão do “c” afasta a palavra de outras cuja raiz partilha e que se referem a uma mesma noção de cobertura, como é o caso de “tectriz”, “tegme”, “tégula” ou “tegumento”.

Alguns alegarão que a etimologia é uma ciência relegada para uma torre de marfim ou que se trata de palavras pouco utilizadas, como se não fosse possível explicar a raiz das palavras a qualquer pessoa e como se essa explicação não ajudasse ao entendimento do significado das palavras e à apreensão das relações entre palavras, independentemente da idade ou das habilitações literárias de quem queira ou precise de aprender.

É claro que haverá quem diga que já existiam palavras homógrafas e que as anteriores reformas ortográficas também desvalorizaram a etimologia. A sabedoria popular, no entanto, diz “À primeira, qualquer cai. À segunda, cai quem quer”, lição ignorada pelos acordistas, que insistem, alegremente, em cair, insensíveis às equimoses que acrescentam aos corpos já mutilados da pobre ortografia portuguesa e da aprendizagem da língua.

Agradeço à Madalena Homem Cardoso o envio da extraordinária imagem.

Comments


  1. Os desacordos…


  2. Por mim até se acabavam com os acentos e C cedilhados! Os ingleses não têm essas mariquices e sabem que T em “Timber” e T em “Action” se pronunciam de maneira diferente sem necessidade de um T cedilhado, e também não se afligem com todas as ambiguidades da língua, bem pelo contrário, tiram partido delas…


    • Já viu? Mesmo assim não alteram a escrita só porque tal letra não se lê ou lê-se de maneira diferente… Para quê tirarmos o C em “acção” se sabemos perfeitamente que “não” se lê?


    • Os ingleses são os maiores. Embora até deixar de falar português e falar a língua deles. Porque eles é que sabem!


  3. Ainda bem que, apesar da transformação e por muito que os tetos nos atraiam, este local único do Palácio do Alvor continuará perpetuado como “Sala do Tecto Pintado”. Noblesse oblige!


  4. Horror, o horror, isto vai de mau a pior, então não vi os desacordistas levantarem-se contra o “tomar” do Viegas, e até ainda os vejo a repetir “tomar” como se estivessem a falar a língua do Camões, não é preciso ser-se Camilo Lourenço para se saber o que sucederá dentro de 15 ou 20 anos. As crianças que estão a aprender a língua do Camões, quando chegarem à idade de, não quererão apanhar ou levar como seus pais, preferirão tomar, e depois é o ó tio ó tio, contestação, novo Acordo Ortográfico para adequar a língua, protestos contra o lóbi brasileiro e separatismo do Centro Cultural de Belém. bfds


  5. Este fim de semana estava a pensar ir ao salão erótico, mas agora estou mais inclinado para a arte nos tetos pintados, em vez de nus.

  6. jorgegalego says:

    Afinal é “Teto”, “Tecto” ou “Teta”€€€….( das editorazinhas!).

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