A idade dos processos

Sabem como é a idade dos casamentos? Quando todos os nossos amigos se casam? Depois há a idade dos baptizados, a idade dos divórcios e a idade dos funerais. Mas eu acho que existe uma outra idade, a dos processos na justiça. Antes de a ela chegarmos é como se fossemos seres sem freio a navegar no mar dos decretos, sem atender às ondas das alíneas nem aos furacões dos regulamentos. É um tempo de liberdade onde pequenos nadas se vão depositando num dos pratos da balança até que um dia alguém solta o fiel e o braço tomba para um lado. É o momento onde se constata que o outro prato poderá vir a ser equilibrado pela lei mas que isso só acontecerá em pequenas prestações a chegarem durante vários anos. E quando os anos trouxerem esse último quinhão, descobre-se que a ferrugem já colou o eixo, impedindo a balança de alguma vez voltar a ter equilíbrio. Até tremo por pensar que um dia chegará a minha idade dos processos.

11 de Março de 1975

Muito bem explicado a quem não sabe.

Futebol, PREC e as voltas da vida

(na morte de João Rocha)

Em 1975 Portugal era um manicómio sem gerência: cada qual agia como lhe dava na gana. O PC, que sobre ser ditatorial e estalinista, não tem senso de humor nem graça nenhuma, gastava as 24 horas do dia a fazer ensaios, mais ou menos violentos, da revolução bolchevique (com que ainda sonha). Levava a coisa tão à séria que até Cunhal, quando desembarcou em Lisboa, se empoleirou numa chaimite com um um soldado de dum lado, um marinheiro do outro, à Lenine. Transposto no tempo e em Portugal, ficou um quadro de revista a que não faltava o folclore, entre colorido e foleiro, daquele colar de missangas a que se convencionou chamar de extrema esquerda.  O país não comunista, que era a maior parte, gastava as mesmas 24 horas do dia a trocar as voltas aos de obediência soviética e a inventar tudo quando os pudesse avacalhar. A resistência foi sofrida e dura, mas feita com ar de riso e cantigas (como agora). [Read more…]

Que partidos?

A crise que temos vindo a sentir na pele tem servido para quase tudo – ainda vamos ouvir que os dinossauros e o meteorito e tal…

Uma das coisas que está mais clara para mim foi escrita por José Adelino Maltez no seu facebook  e refere-se à dificuldade sentida pelos partidos “não-centrais” em conseguir capitalizar a alternativa à desgraça da troika. O CDS é sempre central quando cheira a taxo e por isso não conta – discordo de Adelino neste ponto.

No entanto, já estou mais tentado a concordar no caso do BE e do PCP  – parecem dois putos na noite de  S. João à procura do martelo de plástico do pai, isto é, andam completamente perdidos.

Se esticam a corda para capitalizar descontentamentos correm o risco de extremar posições e, com isso, afastam os eleitores mais moderados.

Se ficam calminhos no seu canto, deixam de fazer sentido porque não se distinguem dos partidos do centro.

A mudança, real, a acontecer só poderá vir de dentro do PS ou do PSD.

Estamos perdidos?

Croniquetas de Maputo: o lixo e a chuva

Uma das primeiras coisas que nos assalta os sentidos, em Maputo, é o lixo. A visão do lixo, o cheiro do lixo, o cuidado com o lugar onde se põe o pé. A cidade não está preparada para lidar com o lixo que produz, a política de recolha e transformação é quase inexistente, os raros contentores parecem ter sobrevivido em mau estado a campanhas sucessivas no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, nos campos de treino de uma escola para bombistas, amolgados, retorcidos, a tombar para os lados. Servem como mera indicação de uma zona geográfica em volta da qual se acumulam quantidades enormes de lixo. Não é raro, de dia ou de noite, encontrar lixo a arder, contentores em chamas, fumo negro toldando pequenas zonas da cidade. Outras vezes sentimo-lo à distância pelo cheiro de mil e uma coisas diferentes em combustão simultânea.

Em alguns locais, em algumas ruas, o lixo vai-se acumulando sobre o lixo, pessoas e automóveis pisam-no e compactam-no, nivelam-no, entupindo escoadores e valetas, tapando buracos aqui e ali. Os pobres dos pouquíssimos trabalhadores dos serviços de recolha, desprovidos de meios, acompanham camiões de lixo que há muito deixaram de ser basculantes, colocam um lençol de plástico no chão e vão empilhando lixo sobre ele, depois levantam-no, balançam-no uma, duas, três vezes e upa,  [Read more…]

A Economia Portuguesa tratada com ‘Brufen’ e ‘Melhoral’

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Atribuímos diversas alcunhas a políticos cá em casa – algumas de uso reservado, para evitar riscos de processos judiciais. Limito-me à divulgação de dois cognomes, por entender serem pacíficos. Ao Gaspar chamamos-lhe ‘O Brufen’; em alternativa, o Álvaro é o ‘Melhoral’.

Esta condensação do pensamento ‘farmacológico-político’ deriva da avaliação da eficácia dos ministros, entendidos como meios terapêuticos dos males e da crise que coloca Portugal no estado de dor e de pranto que sabemos.

Do ‘Melhoral’ a justificação é de dedução simples e facilitada pelo popular slogan ‘Melhoral!, não faz bem nem faz mal’. Este é, de facto, o juízo formulado por muitos portugueses sobre o inócuo governante – creio que até Passos Coelho cultiva a opinião. [Read more…]

O Grande Morto de Cera (II)

Um boneco para Belém. Ninguém notaria a diferença.

Indignação

Imagem roubada do Facebook

Imagem roubada do Facebook

Ando, desde que li sobre a última «pérola» eructada por antónio broche,s para escrever algo sobre o assunto.
Furiosa, danada, revoltada, usei a minha página pessoal do Facebook para o insultar livremente e sem qualquer tipo de pudor, mesmo sabendo que alguns dos meus «amigos» são meus antigos alunos e actuais formandas ou familiares já com alguma idade e pouco habituados a palavrões.
Mas até agora não encontrei palavras para mostrar a minha indignação aqui. Sei que o assunto já foi por cá abordado, mas preciso, ainda assim, de reflectir sobre isto. Sobre o significado de tamanha pouca vergonha.
Sendo, desde que me conheço, defensora dos direitos de todos (ou de quase todos, que neste momento não reconheço grandes direitos a certas «mentes-com-quantos-dentes-tens brilhantes»), as declarações do dito cujo, de quem não se espera nada de útil, calaram fundo na minha alma. Senti ondas de revolta, senti uma fúria pouco habitual. Se aquele ser ignominioso estivesse perto de mim, acho que seria desta que eu, uma pessoa pacífica, pacifista e pacificadora, apertaria o gasganete a alguém, tirando-lhe a tosse sem dó nem piedade.
Pensar sequer na hipótese de cortar no salário de quem ganha a côdea de 485 euros mensais com o pretexto de que assim se diminuiria o desemprego é uma ideia tão absurda que, sinceramente, não sei como a apelidar. E isto vindo de quem ganha o que ganha por ser Conselheiro do Governo.
Cada vez são maiores e mais frequentes os insultos que estes fulanos fazem ao povo que lhes paga os salários, as casas, os carros, as mordomias. Já não há decoro ou respeito. Acham-se no direito de tudo dizer, de verbalizar todo o lixo que lhes passa pelas mentes enegrecidas com tanto pensamento inútil. [Read more…]

O Grande Morto de Cera

«A revelação bombástica é que o corpo exibido, cheio de sigilo e segurança, em um super-caixão lacrado, não é de um ser humano normal, deformado por um terrível câncer. O cadáver seria um boneco de cera. O simulacro de um Chávez “embalsamado”.» Alerta Total

Cinza da brasa

Cumpri recentemente sete anos sem fumar e avisaram-me que a data costuma vir acompanhada, tal como acontece nos casamentos, de uma crise a que nem todos sobrevivem. Admito que tenho saudades dos cigarros, já não direi todos os dias, que seria um exagero, mas todas as semanas. Sim, a saúde, a carteira. Escusam de dizer-me quanto ganho todos os dias, ou pelo menos quanto deixo de perder.

Sete anos sem fumar fazem lembrar os sete anos que Jacob de pastor serviu Labão, pai de Raquel, serrana bela. Sete anos de penitência para alcançar a recompensa final, tão almejada. E a minha recompensa, qual será? Dizem-me que ter deixado o tabaco me trará meses de vida, umas quantas páginas em branco a adicionar ao meu livro de bordo. É bom, mas é incerto. Acidentes, meteoritos, governos catastróficos, sabe-se lá o que me espera, que isto é tudo uma questão de probabilidades, tudo é acaso e sorte. Congratulam-me porque pouparei recursos ao depauperado SNS, coisa que me apoquentaria pouco, porque os impostos pagos pelos fumadores cobrem amplamente os seus hipotéticos enfisemas. E é certo que agora subo escadas que é uma beleza, e que o meu coração deve estar afinadíssimo, e as minhas artérias mais desimpedidas que uma antiga scut. [Read more…]

Uma perguntinha

Estava eu aqui, sossegadinha, a escrever um post e fui repentinamente assolada por uma dúvida. Será que o António passa factura pelos broches que faz ao governo? Suspeito que não, já que o trabalho sexual não é legalizado…

Postalinho de Barcelos (2)

Onde Pára a Protecção de Menores?

É a pergunta que me faço