Maria de Lurdes Rodrigues: in memoriam

zombies-620x412José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues são, para mim, dois cadáveres políticos. O problema é que Portugal é o reino dos mortos-vivos, em que zombies destes se alimentam do cérebro dos portugueses. Ora, sem cérebro é natural que não haja memória ou conhecimentos.

Como qualquer pessoa normal, assusto-me com vozes do Além e com seres putrefactos, mesmo que politicamente, ainda mais se encaram a minha triste massa cinzenta como comida. Aliás, o regresso de José Sócrates como comentador não é mais do que uma tentativa de nos comer por estúpidos, à semelhança, aliás, do que acontece em todos os canais televisivos que dão vida a políticos disfarçados de cronistas.

Percebo os argumentos do João Paulo e ele sabe muito bem que não o tenho na conta de alguém desprovido cerebralmente, nem sequer desmemoriado. Muito pelo contrário. No entanto, confesso que o facto de ter citado Maria de Lurdes Rodrigues, como suporte das suas críticas a Nuno Crato, me deu vontade de deixar aqui uma nota de desagrado.

Até 2005, a Educação, na história do Portugal democrático, foi um estaleiro de construção civil, um estaleiro muito desorganizado, mesmo caótico, o que, é certo, não abona muito a favor dos vários governos. Desde a chegada de José Sócrates ao poder, passou a ser um estaleiro de demolição, com Maria de Lurdes Rodrigues a desempenhar, com grande competência, o papel de capataz, tendo tido como continuadores igualmente competentes Isabel Alçada e, agora, Nuno Crato.

Foi a partir de 2005 que se deu início à pulverização do estatuto da carreira docente, retirando tempo de trabalho aos professores. Maria de Lurdes Rodrigues critica a intenção do actual governo de despedir os funcionários menos qualificados, porque todos são necessários. Os mais distraídos não se lembrarão de que, graças a estratagemas como as aulas de substituição, foi aí que se começou a obrigar os professores a desempenhar tarefas que, não sendo evidentemente indignas, não tinham relação nenhuma com aquilo que deve ser a actividade docente. Graças a esses e outros truques foi possível fazer com as escolas deixassem de contratar funcionários não-docentes, o que continuará a ser feito pelo actual governo.

Não vou perder tempo a comentar exaustivamente o resto da entrevista desta senhora de tão triste memória, até porque reaparecem elogios ao regabofe da Parque Escolar e das Novas Oportunidades, fontes de urticária e outras alergias incómodas.

Esta gente faz parte de uma subespécie da humanidade que ou não tem consciência dos erros ou não tem vergonha na cara. Em qualquer dos casos, é natural que continuem a falar, como é próprio dos pobres de espírito ou dos que são incapazes de sentir peso na consciência. Enfim, serão patologias diferentes que dão origem à mesmo verborreia.

De qualquer modo, seria importante para o país que estes mortos descansassem em paz, condição essencial para que pudéssemos trabalhar em sossego.

Comments

  1. A.M. Pinto says:

    De uns guardaremos memória, claro que sim, pelo que fizeram e deixaram. Das canalhices de outros, das suas análises meramente adjetivas nada ficará. A história não regista feitos tão canalhas. A bem de todos.

  2. Lidia Sousa says:

    No dia 21 de Maro de 2013 28 18:00, Aventar escreveu:

    > ** > Antnio Fernando Nabais posted: “Jos Scrates e Maria de Lurdes > Rodrigues so, para mim, dois cadveres polticos. O problema que > Portugal o reino dos mortos-vivos, em que zombies destes se alimentam do > crebro dos portugueses. Ora, sem crebro natural que no haja memria ou > conh”

  3. maria celeste ramos says:

    Mas não foram para ali morrer para longe para o cemitério europeu onde – é bruxelas – ou outro lugar não recordo e com tanto gêlo o mau cheiro fica disfarçado – este senhor que reaparece como recente politólogo sic (coelho com “o” porque guardo o “u” para o 1º ministro, confundo-o com marques mendes – será ?’ só os distingo pela gravata – é mais fácil e agor5a vou ver a quadratura do circulo que está a arredondar muito – isto é tudo muito elástico e plástico
    Gostava de ver como novo politólogo Mario Linp + Ferreira do Amaral (ambos od !dois”) + Freitas (do Amaral também) + (Portas ai que esse já se repete demais) ++ sei lá – talvez Jaime Silva o coveiro da PAC + todod os que foram chutados para bruxelas – quantos serão ?’ bem vou ouvir o “escurinho” antónio costa e companheiros de desdita e tenho muita sorete e assim não tenho de ver os futebolistas que estão nas CM e ainda lá querem ficar como se fosserm monárquicos de mandado até morrer mas já são mortos-vivos cum raio e cheiram – não foram crio-preservados

  4. João Paulo says:

    Meu caro amigo, grato pelos teus escritos sempre (MESMO!) de grande qualidade. Sabemos, claro, que Maria de Lurdes foi o que foi – não quero, de todo, fazer a defesa da senhora! Não me esqueço do que passei, do que passamos, do que sofremos. E tu colocas os pontos certos, que reduzo, de forma simplista à mudança de paradigma do professor como intelectual para o professor funcionário. Agora, não misturo isso com Crato. São coisas completamente diferentes – podemos ter opiniões diferentes sobre as coisas, mas os magalhães, a parque escolar, as AEC’s, as novas oportunidades não foram despedimentos. Não foram escola pública a menos! Foram Escola Pública a mais. Houve exageros? Houve erros? Houve coisas mal feitas?
    SIM!
    Mas, comparar essas coisas (que cito!) e NUNO CRATO é comparar o que não tem comparação.
    Repito – Maria de Lurdes Rodrigues teria uma visão de escola pública diferente da nossa. Mas não a queria destruir.
    Nuno Crato não! Quer MESMO acabar com a Escola Pública.
    Eu sei que isto não é pacífico, mas…
    JP

    • António Fernando Nabais says:

      Espero que tenhas percebido que não te critiquei por teres citado a Maria de Lurdes Rodrigues. O meu desagrado está todo reservado para ela. É claro que, por outro lado, se te tivesse criticado, eras menino para aguentar e responder-me com a elevação que é teu apanágio.
      De qualquer modo, discordo de ti: na minha opinião, MLR iniciou um processo de destruição, mesmo que não tenha despedido ninguém. Por um lado, retirou condições de trabalho aos professores; por outro, transformou boas ideias em propaganda vazia (recuperação dos edifícios, magalhães, AEC, etc.).
      Se quiseres uma imagem, a única diferença entre MLR e Crato esteve na aparência: a primeira manteve a fachada do edifício, enquanto o esvaziava por dentro; o actual já nem com a fachada se preocupa.
      Espero que a mulher nunca mais volte e que o homem se vá embora muito depressa. E já vai tarde.


  5. Na realidade a escrita do Sr.( Engº) Nabais é de uma qualidade ímpar. Digo-o sem uma pontinha de ironia. Mas – há sempre um mas – é um pouco como o “capilé morno”: bonito à vista mas desajustado no sabor. No pormenor é lisa no conjunto faz-me lembrar aquilo que os brasileiros chamam, UMA LAMBANÇA. Uma tentativa teimosa e obsessiva de ajustar contas com o passado. Uma espécie de trauma….

    Assisti ontem na RTP a uma entrevista da ex Ministra da Educação Mª de Lurdes Rodrigues e não ouvi nada, absolutamente nada que pudesse discordar. Desde o programa “Novas Oportunidades” até ao plano para mitigar o abandono escolar, até à defesa da necessidade de mais professores para superar o atraso estrural…

    Costumo render me aos numeros e embora me declarando de esquerda – logo NÃO pactuando com a direita – mantenho me independente de TODOS os partidos declarando ter já votado em todos eles. Dito isto…

    Considero que com “processo de avaliação” do anterior governo os professores sabiam ao menos com aquilo que poderiam ou não contar. Bem ou mal desenhado nasceu claro e quiseram os politicos que acabasse. E acabou.
    Com Nuno Crato ex escrevinhador de artigos em “eduquês” foi hoje o que TODOS assistimos: o dito por não dito, o que ontem não era passa a ser. Uma autentica trafulhice (mais uma) com que este governo diariamente nos “brinda”. Os professores foram enganados. Diz o povo que sempre é sábio: “atras de mim virá quem bom de mim fará….”
    Lamento que mais familias vão perder o seu sustento. Lamento mesmo. São gente que nasceu na minha terra e fala a minha língua, são gente que luta a quem é preciso dar força para correr de vez com TODOS aqueles que só nos trouxeram e continuam a trazer DIARIAMENTE miséria e desolação. Chega de discutir o passado! Em democracia há SEMPRE solução. SEMPRE!

    • António Fernando Nabais says:

      Enquanto o Zé Maria assistiu a uma entrevista, eu dou aulas desde 1986, o que não fazendo de mim o maior especialista português em Educação, dá-me, pelo menos, um conhecimento aprofundado do que é a vida nas e das escolas. Se assim não fosse, talvez também eu pudesse ficar iludido com as declarações de Maria de Lurdes Rodrigues, bonitas à vista (como os meus textos, na sua opinião, que agradeço), mas completamente vazias de conteúdo. Muita gente muito melhor do que eu, como o Paulo Guinote ou o Paulo Prudêncio, escreveu sobre as políticas educativas da referida senhora: também o fiz aqui no Aventar e em http://osdiasdopisco.wordpress.com/.
      Não quero ajustar contas com o passado, até porque Maria de Lurdes Rodrigues não é passado. Com o possível regresso do PS ao poder ou com a continuação do PSD, aquilo que MLR iniciou terá continuação. Maria de Lurdes Rodrigues é presente. A forma dos discursos poderá mudar, mas, com mais ou menos eduquês, a destruição da Educação continuará. É por isso que, sempre que esta gente reapareça, terei sempre vontade de escrever.
      Numa coisa concordamos: Nuno Crato é um trafulha. De qualquer modo, não está no governo à custa do meu voto, como não esteve MLR.

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