Chega de manifestações e de pequenas greves

Viver em democracia implica o esforço desumano de aceitar as diferenças. Nenhum governo governará exactamente como penso que deveria governar e ainda bem, porque confesso que não gostaria de viver num país governado por mim. De qualquer modo, não gosto de ser governado por gente muito pior do que eu, o que não é dizer pouco.

Assim, é natural que, havendo tantas opiniões como pessoas (com tendência para o número de opiniões se sobrepor, sabendo-se que as pessoas podem mudar de opinião), haja conflitos sociais, com os governos a serem confrontados com posições contrárias oposições, sindicatos ou tribunais. Aceitando, ainda assim, que os governos possuam legitimidade para escolher o seu caminho por entre opiniões contrárias, pode dar-se o caso de que, por várias razões, essa legitimidade, mesmo que se mantenha de direito, acabe por morrer, de facto.

Passos Coelho chegou ao poder depois de se enganar ou de mentir, como atesta um certo vídeo que nunca será demasiado (re)visto. A partir desse momento, a legitimidade do governo ficou irremediavelmente ferida. Hoje, tendo em conta o desastre social e, portanto, económico a que nos conduziu, ao arrepio de avisos chegados de todo o lado, este governo continua o seu trabalho de destruição de um país.

Está visto que o governo não irá mudar de políticas, o que quer dizer que não se tornará legítimo.

Tenho muito respeito por quem se manifesta contra aquilo que considera estar errado. Entre publicação de opiniões, manifestações, greves e outras formas de expressão de crítica e de descontentamento, não têm faltado ao governo oportunidades de perceber o mundo, de ouvir a voz do país e de, no mínimo, moderar opções que, objectivamente, estão a prejudicar os cidadãos em nome de pressões externas.

O governo não quer ouvir. Dentro das minhas parcas possibilidades, tenho participado na propagação de críticas, abstendo-me, no entanto, de participar em greves, na minha opinião, inconsequentes.

Já falámos, já gritámos, já avisámos. Tudo o que esteja abaixo da desobediência civil ou de uma paralisação geral já é pouco. Sem necessidade (embora com vontade) de recorrer à violência, os descontentes devem procurar unir-se e, sem ser preciso abusar da imaginação, descobrir formas de luta que sejam suficientemente corrosivas para que o governo possa, finalmente, cair. Os professores, finalmente, estão a pensar em fazer greve aos exames. Imaginem, por exemplo, que um grande número de cidadãos decide deixar de pagar portagens nas SCUT.

Ideias? Acções?

Comments


  1. Estupidez, a Sua!!!! Onde esteve nos últimos 20 anos? Viveu em comunhão de mesa e cama com a irresponsabilidade de quem mandatamos para governar a Causa Pública? Ainda acha que há DINHEIRO? Sabe quantas empresas “passaram a existir” a partir do momento em que começamos a pedir fatura? Sabe quando custa, ao dinheiro dos contribuintes, os senhores presidentes da república, e em particular o que tem uma Fundação? Qual é a Sua revolução? Talvez a dos “Triunfos dos Porcos”, Não?!?!’

  2. José Lopes says:

    Democracia é ter o direito de expressar a opinião e depositar a confiança em representantes dos nossos interesses, mas é também aceitar a opinião de terceiros e que todos os outros podem depositar a sua confiança numa escolha diferente da do António Nabais.

    Nas últimas eleições legislativas os partidos que suportam o governo foram os mais votados. Os respectivos deputados assumem os seus postos na assembleia da república, proporcionalmente aos votos que os portugueses depositaram e assim escolhidos para nos próximos anos defender os seus interesses. O voto do António Nabais foi contado, juntamente com o voto de todos os portugueses que quiseram expressar a sua vontade. Mais gente depositou o seu voto numa escolha diferente da do António Nabais. Desta forma elegeram em maior número representantes que tem uma posição política diferente da do António Nabais. A maioria dos representantes dos interesses dos portugueses nomearam para primeiro-ministro de Portugal uma pessoa de acordo com a escolha que reflecte a vontade de mais de metade dos portugueses.

    Se queremos fazer-nos passar por democratas então temos de reconhecer e aceitar a legitimidade de todo o processo, sobretudo quando o resultado final não está de acordo com a nossa vontade. Se não estamos de acordo com este facto então estamos a defender algo que não é a democracia. Estamos a defender um estado que não é democrático. Nem livre. Nem de direito. É outra coisa mas não isso.

    • Louvor ao Relvas says:

      Que absurdo.
      Mais de metade dos portugueses?
      Deveria saber ao menos com quantos votos foi eleito o atual PM.

      O atual sistema eleitoral está esgotado. Exige-se uma rotunda mudança. Só assim se pode afirmar que quem é eleito é-o por vontade direta dos eleitores.
      Enquanto se continuar a votar em listas, pré fabricadas, que colocam no topo os lambe cus e promiscuos que se perpetuam na politica, a democracia vai continuar a definhar, aos poucos. Chegará um dia que deixará de existir. E aí, teremos sangue.

      A história repete-se. E na generalidade das vezes, pelas piores razões.

      Quem defende uma verdadeira democracia, não pode defender o atual sistema em vigor.

      • Hugo says:

        Então qual era a alternativa? Candidaturas independentes? Espero que esteja preparado para um parlamento com 17 Valentins Loureiros, 22 Fátimas Felgueiras, 13 Avelinos e 25 Isaltinos.

      • João Oliveira says:

        As eleições são livres. Vota quem quer, e todos os cidadãos registados podem votar. Ninguém impede ninguém de votar. Quem quer, vota. Quem tem opinião, vota. Quem tem vontade, vota. Será mentira?

        Mais, esse argumento é idiota por um motivo: se a percentagem de abstenção é alta ao ponto de reduzir a representatividade daqueles que exerceram os eu direito ao voto então essa redução de representatividade tanto afecta os partidos mais votados como aqueles menos votados. Se querem usar esse argumento para tentar queixarem-se que a legitimidade de um voto é menor então tem de reconhecer que a legitimidade da vossa vontade é proporcionalmente mais insignificante. Logo, por muito ruído que sejam capazes de gerar, pelo vosso argumento a vossa opinião passa a ser ainda mais insignificante, não menos.

        Por fim, se não houvesse gente a mentir e aldrabar em relação à suposta vontade popular então como é que justificam o facto de que ainda agora as sondagens apontam o PSD como o partido que recebe a maioria das intenções de voto? E como é que explicam que 57% dos inquiridos não apoiam a chamada oposição?

        http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/psd_recupera_nas_sondagens.html

        O nosso sistema de governação é democrático, por muito que custe engolir a muitas pessoas.

  3. José António says:

    Este governo apresentou um projecto a sufrágio, antes de ser governo, e foi nesse que eu votei. Todos os governos que não cumprem o que prometem, deveriam ser demitidos e proibidos de se recandidatarem no prazo de 10 anos. Como temos um merd@s como presidente, que vem pactuando com todo o tipo de cretinices, eu gostaria de ter o direito de cancelar o meu voto, pois fui enganado. Aí sim, teríamos verdadeira democracia.
    Salazar também governou o país com cortes generalizados e Estado mínimo, nessa altura sim, tínhamos um país com muita qualidade de vida!!Talvez andem por aqui saudosistas, mas esses deveriam pertencer à classe privilegiada, que era ínfima.
    Afinal digam-me lá oh senhores José Lopes e almaiacorreia, onde está a legitimidade destes palhaços que se guindaram ao poder na base numa eleição fraudulenta, ou não será disso que setrata?
    No meio de tudo isto legalidade ainda lhes pode assistir alguma, mas legitimidade não lhes sobra pinga.
    António Fernando Nabais, o seu texto é límpido, não deixa margem para dúvidas, apesar da esperteza saloia de alguns comentadores. Os meus parabéns.

    • MAGRIÇO says:

      Absolutamente de acordo! Esse é o cerne da questão! Até que ponto se deve respeitar o resultado das urnas quando se chega à conclusão que os mais votados recorreram à mentira e à demagogia para enganar o eleitorado? Não me parece legítimo estar-se sempre a usar esse argumento quando se conclui que isso foi conseguido através do embuste, para não falar nas sucessivas provas de imaturidade política que este elenco governativo tem dado. Ser bom em exercícios académicos não é o mesmo que ser bom estadista.


  4. Isto só lá vai com uma REVOLUÇÃO TOTAL , em que todas as pessoas estejam
    unidas , independentemente da ideologia de cada um , para correr com estes
    políticos aldrabões e constituir de seguida uma VERDADEIRA DEMOCRACIA ,
    que retire imediatamente as cordas a todos os GOLPISTAS e CORRUPTOS ,
    sobretudo relacinados com a FAMIGERADA BANCA , que nos explora à esquerda
    e à direita . Mas devemos continuar sempre a MANIFESTAR , nunca pararando ,
    sem lhes darmos folgo , até que os ponhamos na ordem e os responsabilizemos
    criminalmente.

  5. Hugo says:

    As regras de funcionamento da nossa república são claras. Há eleições, às quais só podem candidatar-se cidadãos inseridos em listas partidárias. Contabilizam-se os votos segundo o método de Hondt e distribuem-se os lugares no parlamento. Por norma, o PR atribui o governo ao partido mais votado, embora não seja a isso obrigado. Podemos gostar ou não gostar, mas são as regras. Isto é como um jogador de futebol ver um golo anulado por fora-de-jogo e depois queixar-se que a regra não devia existir. Talvez, mas existe. Se não gostarmos da actuação dum determinado governo, as manifestações e as greves são legítimas à luz da lei, muito embora sejam pouco eficazes para derrubar o executivo. A melhor maneira ainda é o voto do cidadão, que, se for inteligente, não escolhe de novo o(s) partido(s) que esteve/estiveram no governo no(s) último(s) mandato(s).

    Em relação ao mentir na campanha, obviamente que devia ser ilegítimo, mas por outro lado um político que só diga verdades nunca será eleito. Entre dizer verdades e não chegar ao poder e dizer mentiras para ter possibilidade de aplicar parte do seu programa político, a escolha é óbvia. Para quem vota em partidos, isto é indiferente. O partido é como um clube desportivo e como tal vota-se nele por clubismo. Para quem vota é programas aquela situação é mais injusta. Cabe-nos tentar comparar a retórica da campanha com a realidade e aferir se o programa é verdadeiro ou um chorrilho de mentiras. E ver também se essas mentiras são por sede de poder ou para evitar divulgar um programa impopular, mas inevitável.

    P,S.: Não concordo com uma greve aos exames seja uma forma de luta suficientemente corrosiva para deitar abaixo o governo. Quem sofrerá mais com essa medida? Os ministros ou os estudantes e seus encarregados de educação?


  6. Tens toda a legitimidade para pensares que é errado fazer greve, ou melhor, estás-te a contradizer até ai. Porque o que queres é uma grave geral/paralisação total e foi para isso que a greve foi criada. Se as pessoas estão comodamente à espera que os outros façam tudo, ou têm medo, ou não querem saber é uma coisa que tem que ser discutida, e combatida. Quanto à desobediência civil, não estás a pedir demais? Vivemos em Portugal, um país que teve um ditador que provocou o comodismo, e a falta de luta, e que Soares e companhia limitada se têm aproveitado indecentemente.

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  1. […] já houve greves inofensivas e há manifestações todas as semanas. Com todo o respeito por quem se manifesta com a consciência de que fazê-lo é importante, […]


  2. […] Participei nas greves do final do ano lectivo e senti orgulho em pertencer a uma escola em que foi possível, efectivamente, paralisar a realização de reuniões de avaliação e, antes disso, critiquei a minha classe, quando se colocou a hipótese de não se realizar essa greve. É com a mesma veemência que continuarei a recusar-me a participar em coreografias previsíveis e inúteis. […]

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