A vida é bela

E é um grande filme. Seja o que passou na tela, com aquela beleza assombrosa mais ou menos triste de Nicoletta Braschi; seja a nossa, fora da sétima arte. E a nossa vida é arte, pois claro, que não é fácil conseguir viver por cá. Aliás, não se vive, sobrevive-se. Hoje mesmo, ficámos a saber que, em Portugal, as troikas, a de fora e a de cá, trouxeram desemprego como nunca antes visto e, a par disso, emprego pago até 310 euros, de acordo com Jornal de Notícias de hoje.

Trezentos e dez euros. Há pelo menos 21.000 pessoas que trabalham e ganham até 310 euros. Quem é que consegue viver tendo disponível, para um mês, aquilo que quem nos governa gasta numa gravata? Curiosamente, esta análise sai um dia depois de um banqueiro, Nuno Amado, presidente do BCP, ter defendido que mais vale ter mais emprego com “um bocadinho menos de salário” do que ter muito desemprego.

Pela lógica desta coisa, o emprego é uma dádiva e não um direito. E quanto menor for a parte que o trabalhador recebe pelo o valor que o seu trabalho cria, melhor. E a vida é mesmo bela para esta gente, que tem palco para dizer tudo o que quer. Também a besta Ulrich já veio afirmar que o modelo cipriota de taxação dos depósitos pode ser uma boa solução. No caso dele, terei todo o prazer em que os seus depósitos – se os tiver em Portugal – sejam usados para pagar os erros que ele e as marionetas que coloca nos governos e secretarias de Estado paguem um bocadinho da crise, como nós pagamos todos os dias.

Ou seja, tudo é uma boa solução desde que a vida continue a ser bela para eles. Sim, eles. Neste momento, o país está dividido entre o “eles” e o “nós”. E nós, os que recebem coisa nenhuma, os dos 240, dos 310, dos 465, dos 500, dos 600 euros, temos de fazer-lhes frente, de todas as formas necessárias.

A nossa vida também há-de ser bela, basta querermos; que na vida só há uma coisa inevitável e é o seu antónimo. Até lá, percebamos que sobreviver não é viver. Nós merecemos mais, queremos mais e vamos ter mais. Como o Benigni, que quis mais para o filho, fez do coração tripas e transformou os horrores do nazismo num jogo. Ele acabou vencido pelo antónimo, mas deu a vida ao filho.

Vamos nós também a jogo e acabemos com o terrorismo das inevitabilidades. E vamos todos.

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