Incultura

Imagine-se que se perguntava a dois mil alunos do secundário em Portugal quem foi Luís de Camões e que boa parte deles respondia que teria sido um apresentador de televisão.

Imagine-se que outros tantos responderiam que Eusébio foi primeiro-ministro durante a segunda guerra mundial, que Amália Rodrigues foi mulher de D. Dinis, que Florbela Espanca foi cantora de rock ou que Fernando Pessoa foi atleta olímpico.

Imagine-se ainda que, postos perante um mapa, não saberiam apontar a localização aproximada de Lisboa.

É precisa muita imaginação para conceber tal cenário? Talvez não, pelo menos a julgar pelos resultados obtidos num inquérito realizado em Inglaterra.

A incultura galopante nos países “cultos” e civilizados é um fenómeno preocupante que se estende a diversas classes, faixas etárias e grupos “alfabetizados”. O abandono da leitura formal (livros), o desinteresse pelos clássicos, a depreciação de áreas como a filosofia ou as “humanidades” dão nisto, gente muito ágil a teclar, a manifestar-se, a postar, a partilhar, a frequentar redes sociais, mas deprimentemente inculta.

Alguma deste gente obterá canudos, fará mestrados, concluirá doutoramentos e será eficaz nas suas áreas tecnocráticas. Faltar-lhes-á cultura e, consequentemente, compreensão do mundo, da história humana e das implicações inerentes às suas acções mas, pelos vistos, isso pouco importa.

Alguns chegarão a governantes – já chegaram – e governarão sem conhecerem sequer o povo que governam, as vidas a que o condenam, as especificidades culturais que delapidam, mesmo que sejam considerados muito bons especialistas nas suas áreas de (de)formação.

Ainda bem – apetece-me fantasiar – que nos governos da Europa e de Portugal não temos ninguém nessas condições.

Comments

  1. José Rodrigues says:

    Mas temos um Camili Lourenço…!!!!

    • Hugo says:

      O Camilo Lourenço diz e bem que existem demasiados licenciados e demasiada oferta formativa no campo das humanidades. Que vão fazer profissionalmente as centenas de alunos que se vão licenciar este Verão nas faculdades de ciências sociais e humanas em Portugal? Além disso, não é por termos muitos licenciados em Filosofia que a sociedade portuguesa é mais culta.

  2. Nacionalista says:

    E tudo isto será ainda mais fácil de alcançar assim que os cursos superiores (que há muito tempo não significam cultura) passem a ser mais rapidinhos – só 2 aninhos para não cansar…

  3. nightwishpt says:

    Isso é a teoria de que no meu tempo isto era tudo muito melhor.

    “The world is passing through troublous times. The young people of today think of nothing but themselves. They have no reverence for parents or old age. They are impatient of all restraint. They talk as if they knew everything, and what passes for wisdom with us is foolishness with them. As for the girls, they are forward, immodest and unladylike in speech, behavior and dress.”
    – Peter the Hermit in A.D. 1274

    “The children now love luxury; they have bad manners, contempt for authority; they show disrespect for elders and love chatter in place of exercise. Children are now tyrants, not the servants of their households. They no longer rise when elders enter the room. They contradict their parents, chatter before company, gobble up dainties at the table, cross their legs, and tyrannize their teachers.”

    – Sócrates (de acordo com Plato)

    Acabei por encontrar uma citação maravilhosa para concluir.

    “I believe what really happens in history is this: the old man is
    always wrong; and the young people are always wrong about what is wrong with him. The practical form it takes is this: that, while the old man may stand by some stupid custom, the young man always attacks it with some theory that turns out to be equally stupid.”

    – G. K. Chesterton

    • nightwishpt says:

      Isto no sentido de que sempre se disse mal dos jovens, não é de hoje, porque se tem sempre uma mítica visão de que os jovens no nosso tempo eram todos aquilo que somos agora.


    • Antes de mais, obrigado pelas citações, verdadeiramente bem escolhidas.
      Também pensei nisso quando estava a escrever, na teoria “no meu tempo era muito melhor”. Ainda não sou um homem velho, jovem já fui. Por outro lado, o artigo não nos elucida sobre números e percentagens.
      Persisti em escrever o post porque, hoje em dia, com todos os meios à disposição, seria de esperar maior conhecimento cultural por parte das pessoas em geral. No entanto o imediatismo vigente e a “cultura da contemporaneidade” parece “impedir” o conhecimento dos clássicos e o aprofundamento dos conhecimentos. Um paradoxo ou, pelo menos, um quase-paradoxo.
      De qualquer modo, obrigado pelo comentário, valeu.


    • Uma citação de Chesterton é sempre um remate excelente para qualquer coisa!


  4. Conhecem o sistema educativo inglês?As crianças não reprovam, é traumatizante. Nem as das turmas B (aquelas que são escolhidas logo na primária para integrar turmas de gente com poucas capacidades), nem as das turmas A. Passam sempre. isto nas escolas públicas, onde anda quase toda a gente.

  5. celesteramos.36@gmail.com, says:

    Interessantes estas observações – como interessante ter estado com duas amigas esta tarde – uma com menos 10 anos do que eu e outra 20 anos – afinal comportaram-se ambas (uma profª de história e outra de creche), como diz um dos jovens que afirma que os “elder” nunca perceberam os “jovens avançados” eu diria que sendo o mais importante que seja EU a perceber, o facto é que só da história longínqua sabem porque basta desempinar e recordar, mas pouco ou nada da história deste país desde há 20 anos quando se pretendia aumentar a cultura lendo os clássicos ou tanto faz, mas ler para saber e não odiar
    álgebra (a melhor ginástica para a massa cinzenta) tendo-se chegado apesar de 1974, a uma iliteracia e mesmo indiferença o que “sucedeu com seus pais mas sobretudo avós” ++ etc – não há mais amor ao saber nem é incutido – temos o tweeter e as observações de tantos que só têm direitos, têm cursos em 3 anos e doutoramentos em 2 MESES (ouvi ontem na informação) e não esquecendo que foi a UE que abreviou o tempo de estudar (acabaram as licenciaturas de 5 anos que passaram a dois anos + Bolonhas) e ensinar para fazer intelectuais e ministeriáveis como quem enche chouriços (de carne de cavalo)

  6. celesteramos.36@gmail.com, says:

    Inglaterra é o berço dos hooligans – que se espalham por toda a europa para não falar nos universitários dos USA que matam familiares colegas e pais – como nunca aconteceu excepto depois da década de 80 (que eu saiba) mas sempre houve cowboys que são os que fizeram esse país tão admirado, afinal


  7. Portugal é opaís em que os pais nao tem nada a ver com a educaçao dos filhos. os grandes garantes do funcionamento do ensino sao os trabalhadores do ensino e com bons resultados.
    A avaliaçao essa enorme ameaça ao regime democratico nao passará nunca. E acredito que os eleitores estejam de acordo pelos que vejo a afiar os dentes para completarem mais uma ronda gastar as verbas hoje que vão ser pagas so depois.

  8. Hugo says:

    Mas também há o inverso: pessoas extraordinariamente cultas e extraordinariamente bem formadas que não sabem fazer mais nada e por isso não arranjam emprego. Não arranjando emprego, ficam mal vistas (as pessoas e respectivas áreas) socialmente. Nestas condições, não é de estranhar que alguns jovens se concentrem mais numa educação tecnológica e menos na cultura, ficando, contudo, com uma formação desequilibrada, sem dúvida.

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