Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico

Vogais 2

João Pereira Coutinho leu o livro de Pedro Correia (“Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico”, Guerra & Paz, 159 págs) — cujo lançamento foi aqui anunciado pelo Fernando Moreira de Sá e cujo título foi brutalmente estropiado por Francisco José Viegas — e descreve, na Folha de S. Paulo de hoje, o resultado da aplicação do AO90:

Depois do acordo, surgiram três “escolas” de pensamento.

Existem aqueles que respeitam o novo acordo. Existem aqueles que não respeitam o novo acordo e permanecem fiéis à antiga ortografia.

E depois existem aqueles que estão de acordo com o acordo e em desacordo com o acordo, escrevendo a mesma palavra de duas formas distintas, consoante o estado de espírito –e às vezes na mesma página.

Disse três “escolas”? Peço desculpa. Pensando melhor, existem quatro. Nos últimos tempos, tenho notado que também existem portugueses que escrevem de acordo com um acordo imaginário, que obviamente só existe na cabeça deles

Acrescenta Pereira Coutinho que

Uma deficiente interpretação do que significam essas “facultatividades”, conta o autor [Pedro Correia], levou o governo português, no seu Orçamento do Estado para 2012 (o documento central da política lusa), a escrever a mesma palavra de formas diferentes: “ópticas” e “óticas”; “efectiva” e “efetiva”; “protecção” e “proteção”; e etc. etc.

Pedro Correia denuncia esta situação na página 78, remetendo para aquilo que escrevi no Aventar, em 16 de Outubro de 2012.

No ILTEC, apesar de me darem o benefício da dúvida, sobre as considerações tecidas acerca do caos, da anarquia e da disformidade, ou seja,  acerca da adopção do AO90 no Diário da República (“[t]al não invalida, é claro, que sejam legítimas as preocupações que o autor expressa no seu trabalho”), pede-se aos “órgãos oficiais” que se esforcem por dar o exemplo e que “evitem erros”.

Ninguém pode ficar descansado, nem à espera do “esforço” dos “órgãos oficiais”, nem à espera de que os erros sejam evitados, pois o AO90 consagra, como António Emiliano, João Roque Dias, eu próprio e Maria do Carmo Vieira recordámos há dois anos, a ” introdução generalizada e irrestrita de facultatividades ortográficas”, e os responsáveis políticos por este dossier são os primeiros a dar os maus exemplos.

A única solução é aquela que Pedro Correia propõe nos dois primeiros pontos do Plano de Acção (p. 153):

1. Suspensão imediata do AOLP nos organismos da administração pública.

2. Revogação automática e prioritária das disposições do AOLP que mereceram reprovação mais generalizada.

Tertium non datur.

Comments

  1. Ze de Fare says:

    O acordo está aprovado, o resto é treta.

  2. quantos acordos says:

    Pelo que se vai vendo,lendo,a aprovação foi uma treta,nem o Brasil o pratica e por cá é um ver-se-te-avias de acordos personalizados.O Viegas “acordou” com reservas e agora voltar atrás é tramado.


  3. Permitam-me uma correcção. Existem cinco escolas, pois falta referir um grupo que vive em permanente liberdade condicional: os professores de Português, profissionalmente em Acordo e pessoalmente em desAcordo, que vivem constantemente em esforço para não integrar uma sexta escola, ou seja, a daqueles que escrevem de acordo com um desacordo, consoante o cabeçalho, o papel, a linha, o momento, a hora do dia…
    Confesso que integro esse quinto grupo e travo uma luta tremenda desde 1 de Setembro de 2011 para ser fiel ao acordo e ao desacordo, sem discordar descaradamente em lado nenhum, promovendo e despromovendo os meses do ano, por exemplo, de acordo com as horas de expediente.
    Resta-me a consolação de saber que combater as rotinas é uma boa estratégia para a prevenção da doença de Alzheimer..

  4. quantos acordos says:

    E houve gente responsável por esta treta infindável.Era mais prático optar pelo inglês,que não muda.

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