Quem anda a fazer mal aos alunos?

Lobo_Mau-263x300Peço ao leitor que imagine um aluno. Dê-lhe um nome, escolha-lhe o sexo, invente-lhe dificuldades. Pense, ainda, que essas dificuldades podem resultar de vários factores mais ou menos malignos: violência doméstica, bairro complicado, pais ausentes, dificuldade de acesso a bens materiais e/ou bens culturais, ausência de estímulos intelectuais, o que quiser.

Dê a mão ao seu aluno imaginário e leve-o até à Escola do Primeiro Ciclo do Ensino Básico (se, com o fecho de centenas de escolas, ficar muito longe, vai ter de lhe dar boleia). A turma tem trinta alunos, todos eles numa idade em que a energia parece ser inesgotável. O seu aluno, devido às referidas dificuldades, precisa de um acompanhamento próximo, o que se torna impossível, porque o professor (pode imaginar uma professora, se preferir) não tem tempo para atender a todos os problemas de cada uma daquelas trinta crianças, trinta universos únicos.

É claro que a Escola sempre teve e continuará a ter dificuldade em resolver os problemas cuja origem esteja a montante ou ao lado, mas cabe a uma sociedade civilizada criar as condições para que, pelo menos, se aproxime, o mais possível, de um ideal. Aumentar o número de alunos por turma é escolher o caminho oposto ao do ideal.

O seu aluno, melhor ou pior, chegará ao final do Primeiro Ciclo com muitas das mesmas dificuldades que já trazia, porque, entretanto, os problemas pessoais, sociais e familiares, provavelmente, não terão desaparecido. No meio dos trinta alunos, ao longo dos quatro anos de escolaridade, a Escola dificilmente terá contribuído para minorar, o mais possível, as referidas dificuldades. Os exames impostos pelo antigo crítico do eduquês servirão para fingir uma exigência que não foi possível praticar e ensinar poderá ser substituído, facilmente, pelo treino para o exame.

O seu aluno irá prosseguir a vida escolar, muitas vezes acompanhado por vinte e nove colegas na mesma sala de aula, com professores a quem continuará a ser retirado o tempo necessário para preparar aulas ou corrigir testes, com currículos empobrecidos. As dificuldades avolumam-se, a desmotivação aumentará. Os que tiverem possibilidade, poderão frequentar explicadores. Os outros, face à crescente dificuldade em criar apoios nas escolas, terão de ser reprovados ou encaminhados para um ensino profissionalizante transformado em recurso, o que, perversamente, é a prova de que a sociedade não se preocupou em transformar verdadeiramente a Escola numa entidade que pudesse recuperar, compensar, o mais possível, os problemas de cada aluno.

Até 2005, a Educação, em Portugal, nem sempre soube escolher os melhores caminhos, mas, a pouco e pouco, com demasiados erros, é certo, era possível verificar melhorias. A partir de 2005, desde Maria de Lurdes Rodrigues até hoje, o edifício em mau estado tem vindo a ser demolido, metodicamente. Se os alunos têm aprendido, se têm evoluído, o mérito deve-se, apenas, aos profissionais do ensino, malabaristas que são obrigados a suportar os dislates que o Ministério da Educação lança, quotidiamente, sobre as escolas, ao mesmo tempo que vão, com crescentes dificuldades, fazendo o melhor possível.

Os professores, a várias vozes, andam, há anos, a tentar explicar aos sucessivos governos que as políticas estão erradas: com Sócrates, era o marketing dos relatórios da OCDE, os computadores e a festa da Parque Escolar; com Coelho, confirmou-se o despedimento de professores preparado pelos anteriores governos e o aumento do número de alunos por turma. E estou a ser escandalosamente sintético, porque há mais problemas.

Como já escrevi anteriormente – sem grande originalidade, de resto –, se uma pessoa qualificada numa determinada área fala, repete, aconselha, insiste e não é ouvida, o que lhe resta senão gritar? Depois de todo este tempo, os professores são obrigados, então, a recorrer a uma greve duríssima, porque o que está em causa é demasiado grave, também, para a vida dos próprios professores, profissionais que, por estranho que possa parecer, são pessoas.

Já se sabe que haverá quem se indigne, lembrando que há outros que estão piores e aguentam. Reconheço que vivemos numa sociedade em que o esboroamento dos direitos laborais retira a muitos a possibilidade de reivindicar. Espero, assim, que esta luta dos professores sirva de exemplo e possa arrastar todos aqueles que não estejam dispostos a aguentar, esse verbo tão da preferência de banqueiros.

Os governantes e respectivos satélites amestrados, todos responsáveis pela agressão quotidiana aos jovens, todos participantes nas mesmas políticas que retiram à Escola a possibilidade de ser melhor, andam pelos jornais e pelas televisões a derramar lágrimas hipócritas, procurando convencer a opinião pública de que os professores estão a prejudicar os alunos, ao decidir fazer uma greve que, afinal, está a ter efeitos. O desnorte é tal que Passos Coelho, coitado, dá por si a aconselhar os professores a fazer greve a outro exame.

Se o leitor for um cidadão responsável e informado, mesmo que não tenha filhos ou mesmo que o aluno imaginário não corresponda à situação do seu filho, deve tomar como lição o adágio que lembra que a educação de uma criança é da responsabilidade da aldeia toda. As agressões a que o governo sujeita os alunos não constituem um problema exclusivo dos pais: são um problema do país.

Seria importante que os sindicatos incluíssem esses problemas na lista de reivindicações? Com certeza que sim, mas é importante que os professores tenham a companhia de muitos outros.

Comments

  1. maria says:

    excelente análise!!

  2. Amélia says:

    Talvez a questão seja a informação.Não quero fazer greve, não sou contra a mobilidade porque aceito para onde me mandarem (e ninguém me obriga).Não vejo onde está a luta por uma escola melhor, só vejo profs contra corte no ordenado e não quererem as 40 horas.O problema é que vejo profs que fazem o mesmo que eu (às vezes menos) e ganham quase o dobro do que eu.Onde está a luta?? Começo a achar os sindicatos obscenos e parecem mais uma seita que outra coisa.A minha mãe tinha de caminhar a pé para a escola, uns bons kilómetros, nem tinha sapatos decentes.Não havia transportes, fizesse chuva ou sol.Fez exame no 4ºano. Trabalhou depois.Depois, lá conseguiu tirar um curso, nem sei como.Fez exames,não havia greves.Os profs eram sérios.Naquele tempo, nem ganhavam muito.Só mais tarde começaram a ser mal habituados. A voz dos profs deve ser ouvida, mas apenas daqueles que realmente levam a sério o seu trabalho.Não daqueles que tanto lhes dá fazer ou não fazer, não se sentem mal se fizeram mal, porque têm sempre os seus “direitos adquiridos”. Talvez se se reduzisse o salários de alguns, pudesse haver mais profs.Exemplo: eu faço o mesmo ou mais com 1000 euros que outro prof que faz exatamente o mesmo, mas com direitos adquiridos e faz por 1500 ou mais. E são valores médios e reais.Quem devia ganhar mais seriam quem tem cargos de maior responsabilidade.Agora, é tudo no mesmo saco, independentemente se trabalha 20h ou 40h.Há muita desigualdade no sistema e nem a avaliação docente vai distrinçar as coisas. Só gente séria que trabalhe. Defendo que exista apenas um sindicato, não um exagero de tantos que não nos deixam trabalhar.Quantos sindicatos de professores existem? O que defendem??

    • António Fernando Nabais says:

      Se vai para onde a mandarem e se considera que as decisões do governo estão correctas, é evidente que não deve fazer greve. Pelos vistos, também pensa que não há problema nenhum em viver numa escola ou numa sociedade em que os alunos tenham de ir a pé para a escola, faça chuva ou faça sol.
      Os professores estão mal habituados, porque não ganhavam muito e passaram a ganhar mais? Fantástico! Reduzir os salários para poder haver mais professores, com base na ideia de que há professores incompetentes (que existem, com certeza)? Brilhante! Temos de ficar à espera de distinguir os melhores dos piores para que os professores possam exprimir? Genial!
      Entretanto, Amélia, explique lá por que usa nomes e endereços electrónicos diferentes em vários comentários, sempre com o mesmo IP. Curioso, não é?


      • A Amélia só vai ficar contente quando os alunos sairem mesmo burros de todo da escola. E quando as escolas não tiverem quase professores nenhuns.


      • Os clones do “sistema” são sempre muito limitados. eu falo pela experiência com os jotas cá da terra, são tão previsíveis… pelo menos sempre nos vão divertindo com uma porradita ou outra de vez em quando!


    • Você é tanto professora como eu sou guarda nocturno. Você, a Amélia, que também se chama AA e antes Ana, e assina No meu Tempo. Vá vigarizar o raio que a parta, sua mentirosa, vígara de trazer por casa, sabe o que é um IP? é o seu BI neste blogue.

    • Margarida T says:

      Percebe–se que Amélia será mais uma tia com desejo de viajar do que exercer com profissionalismo a função que falsamente diz possuir!


    • Bom, se vamos reduzir os salários dos maus professores, podemos começar pelos mais incultos. Por exemplo, aqueles que não sabem que depois de um sinal de pontuação se deixa um espaço.

      • ferpin says:

        Você concordou com as aleivosias da senhora Amélia (ou pseudo senhora). Se depois de ler tudo só contesta o espaço que faltou após o sinal de pontuação!!!!

        Você deve ser do tipo que se assistisse ao extermínio de judeus com a orquestra a tocar Wagner, vinha criticar veementemente a partitura escolhida.

        Acresce que este site dá aviso de erro na situação que você disse, pelo que nem sequer há grande mérito em não errar, basta olhar os sublinhados a vermelho.

        Quanto ao Nabais, brilhante como sempre.


        • Não concordei com as aleivosias, esteja descansado. Exprimi-me no modo condicional e não no modo indicativo. Só quis usar alguma ironia para levar ao absurdo o argumento da senhora.

    • Laura Martins says:

      A Amélia só fala em direitos e está a esquecer-se dos deveres! Recordo-lhe, por isso, alguns dos deveres específicos dos professores relativamente aos seus alunos: respeitar a dignidade pessoal e as diferenças culturais dos alunos, valorizando os diferentes saberes e culturas, prevenindo processos de exclusão e discriminação; promover a formação e realização integral dos alunos, estimulando o desenvolvimento das suas capacidades, a sua autonomia e criatividade; promover o desenvolvimento do rendimento escolar dos alunos e a qualidade das aprendizagens, de acordo com os respectivos programas curriculares e atendendo à diversidade dos seus conhecimentos e aptidões; organizar e gerir o processo de ensino-aprendizagem, adoptando estratégias de diferenciação pedagógica susceptíveis de responder às necessidades individuais dos alunos; cooperar na promoção do bem-estar dos alunos,
      protegendo-os de situações de violência física ou psicológica; colaborar na prevenção e detecção de situações de risco social, se necessário participando-as às entidades
      competentes. É natural que a Amélia desconheça muitos destes deveres, pois se os conhecesse não faria as afirmações que fez. Teria consciência de que para cumprir estes deveres é fundamental que os professores vejam respeitados os seus direitos. Como pode um professor promover o desenvolvimento do rendimento escolar dos seus alunos, estimular o desenvolvimento das suas capacidades, adoptar estratégias de diferenciação pedagógica e responder às necessidades individuais dos alunos em turmas com 30 alunos? Como pode um professor exercer com dignidade e qualidade a sua profissão em escolas degradas, sem condições, onde, nos dias frios de inverno, se está melhor na rua do que dentro da sala de aula? Como pode um professor dar resposta às necessidades dos seus alunos se, em vez de estar a preparar materiais, a fazer pesquisas, a trabalhar com os que revelam maiores dificuldades, perde o seu precioso tempo em tarefas burocráticas e administrativas que em nada contribuem para o enriquecimento e desenvolvimento dos seus alunos? Quanto à avaliação, acredite que poderia ajudar a distinguir o “trigo do joio”, mas, para isso, não poderia nem deveria estar associada à progressão na carreira. Quanto à sua disposição de ir «para onde a mandarem», apenas lhe respondo «Só sei que não vou por aí»!

    • Paulo A. says:

      O testemunho da profª(?) Amélia revela bem a atitude fracturante que tem dividido a nossa classe. A colega Amélia apenas parece preocupada com o seu baixo salário, face ao dos outros, para o nível de empenho e qualidade com que julga cumprir as suas atribuições. Não deixa de ser curioso que esta mesma professora venha lamentar a existência de uma multiplicidade de sindicatos que contribuem para a divisão na classe pois a sua opinião também não revela espírito de corpo. Por outro lado, é extraordinário que a Amélia pense que devemos todos nos congratularmos com o facto de já não termos de imitar a sua mãe nessas caminhadas e/ ou termos sapatos para usar. Enfim, trata-se do testemunho de alguém que parou no tempo e que, enquanto outros preparam as suas actividades docentes, delineando estratégias pedagógicas e buscando o tão desejado sucesso escolar, a inefável stora Amélia ocupa o seu tempo pensando que está sendo mal paga e olhando por cima do ombro, com desdém, para os seus pares que, segundo ela, pouco fazem e muito são gratificados. A isto se chama pura inveja. Aliás tenho a agradecer-lhe ter feito a sua intervenção nos moldes que fez pois deu a todos a oportunidade de conhecermos uma pessoa que, em termos dos valores que revelou, deve ser prontamente colocada numa situação de mobilidade. Para onde? Para fora desta nobre profissão que não merece ser enxovalhada (uma vez mais) por quem pouco ou nada entende de educação.


  3. A minha companhia têm de certeza. Um governo que lança no desemprego centenas de milhares, na pobreza ilimitado número de famílias e na fome milhares de jovens em idade escolar, só por descarada hipocrisia pode afirmar-se preocupado com a má sorte dos discentes em dia de greve justificada dos professores. E quem diz o governo, diz a figura circense do alto da magistratura em que se exibe.
    Um abraço


  4. A melhor forma de mostrar o valor de um professor é ir além dos objectivos traçados pelos ministérios/governos, que se prove com resultados, este é um ciclo viciado, professores geram alunos, alunos geram professores… oiço poucos a discutir formas e ideias de se superar como professores e passar aos seus alunos brio, infelizmente a maioria dos professores sentem-se donos do saber, então debitam nos alunos o seu saber, contudo um verdadeiro professor deve entrar na sala como participante e guia para os seus alunos para que juntos possam aprender mais e melhor, pois só assim os seus jovens alunos o verão como mestre/professor. Quem é o professor que nos recordamos quando em adultos nos vem à memória saudades do nosso tempo de estudante??? recordem-se que os alunos passam a sua ‘vida’ de pelo menos 12 anos na escola (+- 6 horas/dia = tempo digamos do trabalho diário…). A escola não se deve substituir à família, contudo recai sobre ela um importante e precioso papel para a formação da nossa sociedade, por isso antes das reevindicações laborais (que sei que estão certas e concordo) devem antes olhar a sua função, coisa que nas últimas décadas não tem acontecido, a função da classe docente está num patamar muito diferente da pessoa que se encontra numa secretária a atender cidadãos nos demais serviços da função pública. Professores valorizem-se em primeiro pela vossa função e só depois pensem na valorização monetária e de carreira.

  5. antonio cristovao says:

    A democracia faz-se exercendo; inclui ouvir as criticas e não se defender com ilegitimas; só quem tem uma visao que o mundo gira a volta do seu umbigo(pelos vistos ate pessoas bem letradas o fazem) não consegue ver o que os outros argumentam, e raciocinar com logica. Importantes somos todos incluindo o milhao de desempregados. Podemos e devemos fazer greve. Agora por alguma razao a Alemanha tem anos seguidos sem greves e a produtividade é o que se sabe e a Grecia ou o Egipto tem greves diarias e a produtividade é o que se sabe. Para quem pode beneficiar duma formaçao superior eu diria: Tenham vergonha porque tem muito boa obrigaçao de entenderem que os direitos não sao umas regras escritas mas o resultado dos nossos actos diarios,é isso que faz um país bom ou mao. E não vai ser a merkl ou o painatal que nos vem pagar o almoço.

    • nightwishpt says:

      Pois tem, e os ordenados e perda de liberdade correspondentes à falta de greve também.

    • adelinoferreira says:

      Ó Cristovão, sobre a sua querida Alemanha
      fixe só este número: 8.000.000 de trabalha-
      dores ganham mensalmente 350 euros SEM
      DIREITOS! Utilize os meios que julgue neces-
      sários para confirmar o que digo acima e de-
      pois comente em função dessa realidade.

  6. ferpin says:

    Falhou redondamente. Ou acertou sem querer.

    Como o Nabais diz, os professores não são ouvidos pelos MECos que tudo decidem, muda o ministro, muda tudo, até o eduquês muda. O crato não acabou com o eduquês e seus palavrões, apenas os substitui por outros. O que está a dar agora é METAS.

    Na Alemanha, os trabalhadores têm acento na Administração. Se calhar nas reuniões de Administração da VW tomam-se decisões no interesse da empresa. Em Portugal, decide-se os prémios, a marca dos carros e quem é que se vai despedir para haver massa para tudo

    Acha que se professores tivessem acento no Conselho de Administração da Empresa MEC, se podia estar sempre a mudar tudo, para tornar tudo pior?

  7. Natália Cardoso says:

    ESTA “professora AMÉLIA” não existe.

  8. Elisabete Vaz says:

    Excelente post Snr. João Cardoso. Parabéns. No que diz respeito à Amélia, acho que estão a dar-lhe muita importância.

  9. Maria João says:

    Alguém sabe quanto ganha no privado, neste momento, um professor com 20 anos de serviço e quanto ganha alguém com o mesmo tempo no público? Ambos correm o risco de despedimento…

    • ferpin says:

      Se ambos do quadro, mais ou menos o mesmo. Com os cortes até 10% e do 13º e 14º acho que ganha mais o da privada.

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