Mostruário dos tiques anti-professor (3)

Os professores não são diferentes dos outros trabalhadores

A claque anti-professor e alérgica aos funcionários públicos, de uma maneira geral, parte deste princípio para criticar qualquer reivindicação. Para a referida claque, se a maioria das pessoas tem 40 horas no contrato de trabalho, a que propósito é que outros reclamam contra a inclusão do mesmo número de horas no seu contrato.

É claro que os decisores políticos pretendem passar a ideia de que estão a realizar uma reforma do Estado, espalhando a ideia de que é preciso acabar com as diferenças entre privado e público. Os professores, essa manada de privilegiados, têm de aceitar que terão de ser iguais a outros, embora se descubram excepções com demasiada frequência, pelo que os professores vão perdendo direitos, à medida que outros os vão mantendo.

Em princípio, ainda assim, não custa concordar com a frase: os professores não são diferentes dos outros trabalhadores, porque são trabalhadores como os outros. É certo que há muitos elementos da claque que, na realidade, pensam que os professores não são sequer trabalhadores, pela simples razão de que aquilo que fazem é tão pouco ou tão insignificante que não pode ser considerado trabalho.

Por outro lado, também é verdade que os professores são diferentes dos outros trabalhadores, até porque, continuando a explorar truísmos, é fácil descobrir especificidades que tornam as profissões incomparáveis, no sentido mais neutro de que não é possível compará-las.

Na realidade, faz algum sentido comparar um médico com um polícia ou um mineiro com um amanuense? No que se refere aos professores, entre outras especificidades, e já que falamos de horários de trabalho, vale sempre a pena lembrar a importância do tempo individual de trabalho, factor cuja erosão se vem acentuado, com o aumento do número de alunos por turma e com o previsível aumento da componente lectiva do horário dos professores.

A expressão que estamos a analisar explora ou resulta da inveja portuguesinha, esse sentimento que leva os que estão mal a só ficarem satisfeitos quando os que estão melhor ficarem igualmente mal. No dia em que um grupo profissional for obrigado a trabalhar 50 horas por semana, os seus membros lutarão para que todos os outros tenham o mesmo horário.

Esta expressão, aliás, é prima de um certo conformismo muito catolicozinho que dita que devemos aguentar e que há quem esteja pior e que os sacrifícios são necessários e tudo.

Comments


  1. Infelizmente há muitos a pensar assim: são os que nunca souberam o que era dar aulas…e tudo o ue daí decorre….
    Entristeço.
    Entristece o País….
    http://omocho.info/mocho4/?p=9058

  2. António Rato says:

    Claro que para justificar o injustificável se tinha que apelar à veia poética. Que previsível…


    • A diferença entre um professor e um não professor, na análise das problemáticas e especificidades da profissão docente, é que o professor argumenta com factos e o não professor, porque os desconhece ou quer desvalorizar a qualquer preço, chama-lhes apenas “veia poética”, sem nada contrapor de injustificável.
      Assim o debate fica mais conclusivo.

    • Maria Borges says:

      Claro que se trata de divagações, mas a verdade é que todos ficam radiantes quando descobrem que os filhos têm bons professores. Caro senhor prosaico, já alguma vez refletiu sobre aquilo que faz um bom professor?
      Acho que já tem idade para o fazer sozinho, sem necessitar de um bom professor.

  3. Patolas says:

    António (c)Rato?!


  4. “No dia em que um grupo profissional for obrigado a trabalhar 50 horas por semana, os seus membros lutarão para que todos os outros tenham o mesmo horário.”
    Exemplo clássico de “negative solidariety” , parte integrante da cartilha neo-liberal mais recente e que começou com Blair.
    Esse é realmente o problema, muita gente com pouca inteligência a abordar este assunto ao nível de conversa de café ou palhaço de bancada. Não sabem do que dizem, mas dizem porque pensam que sabem quando não sabem nada.
    Em Engenharia Industrial, estuda-se medida do trabalho e define-se o tempo de trabalho baseado nas tarefas singulares de cada trabalhador e com complementos específicos para cada profissão(há generalizações para a manufactura mas mesmo aí, só se generaliza a 80% no máximo). Em serviços ainda é mais complexo e mais problemático quando se tenta colocar a solução”turnkey” para tudo.
    Se existe uma falência na Educação, é demonstrada quando se discutem estes assuntos com inferioridade intelectual por parte da grande maioria.
    E o grande problema é que se quer manter este status quo. Quanto maior a ignorância maior a plutocracia.


  5. Quantos já leram este poster? Quantos já pensaram que se o leram é porque tiveram um professor que os ensinou a ler, então se o professor os ensinou a ler porque os atacam tanto? Deveriam era estar agradecidos por os professores os terem ensinado a ler a escrever. Ao invés depois de terem aprendido a ler e a escrever “esqueceram-se que oram eles os professores que lhes ensinaram tudo isso.

  6. eyelash says:

    … do rato


  7. PERGUNTA
    “se a maioria das pessoas tem 40 horas no contrato de trabalho, a que propósito é que outros reclamam contra a inclusão do mesmo número de horas no seu contrato.”
    RESPOSTA = Igualdade

    Se existe “inveja portuguesinha” é porque alguém beneficia de condições invejáveis. A afirmação confirma a existência de desigualdades.
    “claque anti-professor e alérgica aos funcionários públicos” — Os professores (e funcionários públicos não aceitam ser criticados pelos contribuintes daí “carimbarem” quem põe em questão as suas reivindicações. Sintoma: défice democrático.


    • Bom, tenho muito que fazer e como trabalhador independente que trabalha mais de 50 horas por semana, não considero “invejável” um horário de 35 horas. Horários diferentes não são desigualdades, são espeficidades das profissões.
      Vou ser rápido. 40 horas no privado tem uma razão histórica proveniente dos turnos de 8 horas, os mais optimizados para a produção em manufactura. Qualquer programação em ambiente industrial induz 3 turnos a full-time(24/7) e para mantê-los há que ter horários de 8 horas(1 hora para repouso, 7 h para laboração continua).
      As 35 horas surgiram por razões de serviço e de produtividade. Isto é, os trabalhadores nessas funções poderiam fazer o mesmo que em 40 horas, passando para 35 aumentando a produtividade horária. A França fez isso, a Alemanha fez isso etc etc, ganhando assim os ganhos de produtividade. Pergunta, então se houve aumento da produtividade na FP porque razão não se fez o mesmo no privado? Porque a produção industrial não deve constar das funções do Estado. E porque as produtividades em funções e tarefas diferentes nem sempre são mensuráveis e/ou comparáveis. Repito, para discutir isto sem preconceitos e com rigor, tem que se abordar a sério e acabar com adjectivações ridículas e hipócritas.

    • António Fernando Nabais says:

      Pois, Luís, mas aquilo que não é igual não pode ser tratado de maneira igual.
      A inveja portuguesinha é um sinal de conforrmismo. Quem não estiver satisfeito com aquilo que tem e quem sentir que é alvo de injustiça deve protestar e não limitar-se a exigir que os outros percam direitos.
      Os professores não aceitam ser criticados? Onde é que isso se viu? Já alguma vez leu que alguém deva ser impedido de dar a sua opinião? O que se passa é exactamente o contrário: a sociedade deseja domesticar os professores, calar os professores. O Luís, submergido em preconceitos, tem défice de compreensão.


      • Aprendi que “quem não estiver satisfeito com aquilo que tem”, muda, procura alternativas… Quanto a “preconceitos”, todos os temos… O busílis é tentar poderá-los com sensatez e espírito aberto.
        Prefiro ser acusado de ter “défice de compreensão” (e eu próprio amiúde duvidar das minhas “certezas”) do que impor sofismas a outros. A situação actual apenas demonstra que é necessária uma nova ética em matéria de “servidores públicos”, com muito mais respeito por quem lhes paga: o cidadão contribuinte.

        • António Fernando Nabais says:

          Protestar é procurar alternativas. O problema das condições de trabalho não é pessoal, é profissional e, portanto, não se pode reduzir à ideia de que deve procurar outra actividade quem não estiver satisfeito com as decisões tomadas pelos governos. O que estão a fazer aos professores é negativo para o exercício da profissão e, portanto, para a sociedade. Enquanto não perceber isso, continua a não perceber nada.
          Sofismas? Se um médico lhe disser que não pode, em consciência, prever o tempo de duração de uma cirurgia e, que, portanto, não pode nem deve ser pressionado para realizar mais cirurgias no mesmo tempo, isso é sofisma ou experiência profissional? Se um professor lhe disser que não lhe podem continuar a tirar tempo individual de trabalho ou a aumentar o número de alunos por turma ou a obrigá-lo a desempenhar tarefas que não são docentes, isso é sofisma? Já lhe disse e repito: você escreve sobre o que não sabe e esse é direito que lhe assiste, como me assiste a mim o de lhe dizer que você escreve sobre o que não sabe.
          Uma nova ética? Respeito por quem nos paga? Você deve pensar que os funcionários públicos não pagam impostos. Os governos desonestos, amparados por uma opinião pública preconceituosa, andam, há anos, a gastar em negociatas as contribuições dos trabalhadores; depois, diante das facturas, hipotecam o desenvolvimento do país e obrigam os trabalhadores a pagar a dívida que não contraíram; a seguir, inventam, sem estudos, que há funcionários públicos a mais (a mentira de que há professores a mais faz parte do lote). É essa gente toda que não tem respeito pelo contribuinte. No fundo, no fundo, as várias revoltas, incluindo a dos professores, vão todas a entroncar ao mesmo: somos contribuintes desrespeitados. Os preconceituosos ou os ingénuos, coitados, limitam-se a engolir as papas e os bolos que a comunicação social debita. É isso, Luís: feche os olhos e engula.

          • António Fernando Nabais says:

            O problema do “não iluminado” é o de que, na realidade, se julga iluminado. Embirro e embirrarei com quem me queira explicar a mim como é e como deveria ser a minha vida profissional, quando vejo que não tem pergaminhos para isso. Isso não quer dizer que não reconheça aos outros esse direito ou que esteja interessado em lhos retirar. Entretanto, exercerei o meu direito a declarar que embirro.
            Ideias claras? Então já não leu que as turmas deviam ser mais pequenas? Já não leu sobre os malefícios dos mega-agrupamentos (enquanto, na Finlândia, referência costumeira, são raras as escolas que têm mais de 600 alunos)? Não leu sobre o tempo individual de trabalho? Mais claro e simples do que isto?
            Mais simples do que aquilo que está, pelo menos, em duas hiperligações para textos meus em que se faz a pergunta mais simples do mundo: de quanto tempo extra-lectivo precisará um professor para preparar um tempo lectivo? E é uma pergunta tão simplista que só faz sentido fazê-la a partir do momento em que o governo anda obcecado por definir horários de trabalho que, na realidade, não é possível definir, tal como não é possível definir quanto tempo demora uma operação.
            Não sou sindicalista e as críticas que faço aos sindicatos é a da “moleza”, a de nem sempre serem suficientemente assertivos na defesa dos direitos da classe. Bem sempre professores e sindicatos coincidem. Este é um daqueles momentos em que isso acontece: por isso, não está só a criticar a “frente corporativa”.


  8. Caro António, a base da sua argumentação passeia-se quase sempre pela arrogância de afirmar que “o outro” não sabe do que fala, não conhece os detalhes, etc. E se explicasse? Argumentos, homem!… Coisas claras, simples, ao alcance do “não iluminado”. E já agora soluções…. Por exemplo, como melhorar a produtividade na educação. Por exemplo, como ampliar o alcance do professor por forma a permitir com menos fazer mais… Eliminar tarefas “parasitas”, simplificar, optimizar…
    Quem se outorga a competência (quase exclusiva) de conhecer o sistema de educação deve ter boas ideias (muito superiores às dos pobres mortais, presos na sua imaginação de gafanhoto, e aos seus pequenos dramas de ver os filhos dependentes duma luta de interesses corporativos sem fim à vista).
    Mas deixe-me dizer-lhe que quanto mais se prendem de unhas e dentes às fraldas no estado mais rapidamente darão a vitória aos que atentam contra a escola pública. A tal “opinião publica preconceituosa” começa a não os levar a sério…
    [NOTA: o tom crítico deste comentário – e anteriores – visa apenas a frente corporativa que domina a luta sindical dos professores, e de jeito algum abrange todos os outros que honestamente dão o seu melhor nas salas de aula deste país].

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.