Série Maridos (I)

SPYROS

O meu marido era o magnata de uma aldeia em Creta. O restaurante onde eu comia todos os dias era dele, e também a agência de viagens, e o hotel, e a loja de aluguer de bicicletas, e o rent-a-car, e o supermercado, e a loja de souvenirs, e os táxis, e a transportadora. A ilha era longínqua, a aldeia distante, plantada na costa sul. Era bom ter maneiras de sair dali. Quando eu olhava o mar, parecia-me ver o fim, juraria que depois do horizonte havia uma montanha (ou talvez um Deus-muro, enorme como um King-Kong) que separava dois mundos – e por isso aquele mar era de certa forma o último. A história daquela ilha, cheia de mitologia, tornava tudo impreciso, fazendo esbater as fronteiras entre a realidade e a ficção. Um véu de incerteza pairava no ar da praia, nas conversas dos naturais sobre o labirinto de Knossos ou os restantes lugares arqueológicos da ilha, transportando todos para uma dimensão simbólica cheia de fatalidade. Sentia-me circunscrita – sobretudo pela acção do meu marido.

O meu marido chamava-se Spyros. Tinha um bigode e uma barba, e umas bochechas proeminentes. Deslocava-se de Mercedes pela aldeia e aparecia por todo o lado, a todo o instante, sem se fazer anunciar. Cortejava-me sem constrangimentos, sentava-se à mesa sem ser convidado, impunha-se com a naturalidade de um príncipe, determinado a fazer de mim a sua princesa. Expliquei-lhe que não podia ser sua mulher, porque já tinha um marido, que aliás viajava comigo, e a quem embora divertissem os arremessos arrebatados de Spyros, começou a dar mostras de alguma irritação. Mas o meu marido agia como se nada fosse, sorrindo sempre muito. Vi-me cheia de filhos com bochechas iguais às do pai, demasiado bem nutridos, a andar de Mercedes pela rua principal da aldeia – e os meus filhos bochechudos não falavam português.

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