Antes que a voz me doa

Se a intenção era, apenas, marcar uma posição pessoal e subir um ou dois degraus na hierarquia da coligação governamental que nos põe a cabeça em água e a bolsa em fanicos (para já não falar da dignidade atraiçoada), não havia mesmo necessidade de o Dr. Paulo Portas, na consumação da sua birra, por muitos e por mim também considerada infantil, quiçá irresponsável, nos ter feito pagar mais uns milhões de juros àqueles que teimam em espremer-nos até só sair sangue, que o suor e as lágrimas já se foram, de tão gastos.

É por isso que me concedi o prazer da fuga, não por cobardia, mas porque sentia que estava a perder a serenidade, a lucidez e outras coisas a que comummente chamamos valores (sociais, pessoais, morais, epistemológicos…).

Regressei ao cimento, calcinado por vários dias de temperaturas a rondar os 40 graus Celsius, muito porque confesso que me custa não poder exercer o meu direito à indignação, e lá, onde estava antes de escrever estas linhas, a internet é quase inexistente e as comunicações perdem-se em ruídos estranhos e quedas de sinal.

Por aqui e por ali, apetece-me, então, destilar algum do fel que me obrigam a suportar.

É o mínimo!

130613-1554(001)Depois, espero voltar ao meu refúgio, adormecido e acordado por rãs, saboreando alface com sabor a alface, batata com sabor a batata, legumes com sabor a legumes…

A carne, como a política, cada vez menos saborosa e, por via disso, mais distante. Não por dieta, que o vinho com sabor a vinho ou o bagaço sem as malhas da ASAE dilataram algumas partes do meu corpo e recauchutaram pneus que haviam desaparecido nos últimos quatro anos.

Nos entreactos, vou recuperando algumas velhas leituras.

Que se lixe!

Não é qualquer governo que vai calar-me ou tirar-me o apetite. Nem que todos os ministros se mordam antes de serem remodelados ou de pedirem a demissão, daquelas demissões irreversíveis ontem, esquecidas hoje.

Entretanto, vou escrever umas coisas por aí, nem que seja só para bater nos transportes urbanos da terceira outra cidade do País, onde se perdem litros de água e outros componentes biológicos, de tanto exsudar.

De facto, não cabe na cabeça de ninguém que, em Braga, uma cidade que é tão estupidamente fria como execravelmente quente, eu tenha de arrostar com temperaturas corrosivas dentro de autocarros dos TUB.

Mas isto sou só eu a falar, já que a “minha” viagem, quando a faço, demora vinte / trinta minutos. Aqueles que, por dever de ofício, esvaziam estoicamente garrafas de litro e meio de água nas paragens de escala e têm que aguentar todo o horário nestas condições desumanas e sem caracterização três anos após o início do segundo decénio do século XXI, esses limitam-se a dizer que é uma violência, mas que, pelo menos, têm sauna sem terem que pagar a avença do ginásio.

Salve-nos o humor, que o resto, não vejo jeitos! Efectivamente, pelo que vejo e oiço na pré-campanha para as autárquicas, vai continuar mais do mesmo. Ainda que algumas moscas tenham de ir locupletar-se ou, simplesmente, chafurdar na merda de outros negócios. Ou dos mesmos, só que por interposta pessoa.

Comments

  1. edgar says:

    Ao contrário do que tem sido divulgado as empresas não perderam os tais milhões tão badalados. Uma empresa pode ver as suas acções subir ou baixar na Bolsa por razões muito diversas, na maior parte dos casos sem ligação à evolução dos seus negócios.
    Ainda há quem se lembre sobre o “gato por lebre” de que falou Cavaco Silva quando Primeiro-Ministro e que provocou a queda das acções? Ainda se lembram das garantias (de boca) do Presidente do BCE que provocou a baixa das taxas de juros.
    Este drama à volta das reacções à demissão (irrevogável) de Paulo Portas e a chantagem dos perigos para Portugal fazem parte, na minha opinião, desta grande encenação que esconde o evidente: as políticas de austeridade falharam, a situação de Portugal é muito pior do que era antes da assinatura do memorando pelas troikas (estrangeira e interna), o segundo resgate está a ser negociado, perdemos cada vez mais a nossa independência e soberania e o descrédito do Governo e dos nossos órgãos de soberania é de tal ordem que, como anuncia o DN, até a Alemanha se atreveu a dar deu luz verde ao governo, com total desrespeito pelo nosso Presidente e pela Assembleia da República.
    Isto é absolutamente inaceitável e envergonha-nos (aos que ainda sentem vergonha)!
    Parece que há quem se esqueça que somos um país com 900 anos de história, com muitos acontecimentos dos quais nos orgulhamos, e que as marcas da nossa história estão espalhadas pelos 4 cantos do mundo.
    O pior de toda esta encenação é que o povo está a sofrer cada vez mais e a miséria alastra.

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