A idade do ‘juventismo’

le_bel_age_01Numa entrevista recente, a pretexto da publicação em França do seu mais recente ensaio, intitulado Le bel âge, Régis Debray afirmou – ao arrepio dos que modernamente olham para a História da Humanidade como unicamente feita de presente – que vivemos uma época marcada pela “crise da transmissão”. Referia-se o autor à perda dos elos de ligação entre o passado e o presente, com consequências, designadamente, para a sobrevivência das identidades culturais dos povos, sobre quem se lançou o sortilégio tecnológico da globalização uniformizadora do Mundo. E no entanto, “o que distingue um homem de uma abelha ou de um urso é que um homem ergue monumentos, guarda a memória dos avós. Mas hoje instalam-nos num universo desligado do passado, embora conectado no espaço. Contudo, o elo de ligação profundo da Humanidade reside no tempo e não no espaço.”

Lamentando que a cultura histórica esteja cada vez mais ausente da formação dos mais novos, o autor pensa que “esta onmipresença do presente” forma pessoas ignorantes do passado, e portanto inaptas para preservar a memória, e logo incapazes de reacção àquilo que considera ser a “americanização dos espíritos europeus”. A adulação prestada aos adolescentes, diz, ilustra o domínio do capitalismo nas nossas sociedades, pois os mercados precisam dos jovens, essa camada da população a quem conseguem impingir todo o tipo de necessidades de consumo (mas também todos os automatismos e os clichés que os impedem de pensar o Mundo e o sentido da sua própria existência).

Trata-se na verdade, segundo o filósofo, de uma aparente vitalidade, aquela que as modernas sociedades se esforçam por exibir, exortando todos a esse juventismo (jeunisme, chama-lhe o autor). Sociedades que Debray considera gravemente infantilizadas, e nas quais as crianças e os jovens são tratados com privilégios inversamente proporcionais aos que são outorgados aos séniores. Designadamente na escola, onde é “um erro”, diz, “pôr a criança no centro, pois o centro da escola é o conhecimento, e vamos à escola justamente para crescer através do conhecimento”, património de sabedoria, erudição e experiência que os mais novos recebem dos mais velhos. “A aprendizagem pressupõe a compreensão plena de que somos herdeiros de um passado, mas presentemente assistimos a uma desistoricização da sociedade, como se não tivéssemos História.”

Aquilo a que chama “a cultura jovem nascida nos anos 60”, fez-nos reféns de uma imagem de juventude que hoje em dia exige o apagamento dos cabelos brancos e das rugas, fazendo tábua raza do património de conhecimento, de experiência, e também “da força moral, que cresce com a idade. A curva do corpo é descendente, mas as energias espirituais e morais tendem a aumentar com a idade”, lembrou Debray. Idade que inexoravelmente caminha de par com uma degradação do corpo que “esta sociedade conservadora”, acusa o autor, se recusa a aceitar, mediante um culto absurdo da juventude – da juventude do corpo, note-se, já que para o filósofo “conforme vamos envelhecendo tornamo-nos na realidade mais jovens”, ‘despreocupando-nos’ com muito do que condiciona a maior parte da nossa existência, caso do que os outros pensam sobre nós.

Imagem imperfeita de uma ideia de imortalidade dos Homens, a idade de que fala este livro é a um tempo a das actuais sociedades globais (marcadas pela emergência de uma civilização dominante no Mundo, por via de um inédito imperialismo tecnológico à escala planetária), a desta nova belle époque decadente europeia, e ainda a da única camada de população que nela cresce – dedicando-lhes o autor o olhar irónico que apenas a luz (e não disse a chama) da sageza pode iluminar. Em França, onde desde há muito as políticas de fomento à natalidade tentam fazer inverter a curva do envelhecimento, os menos de vinte anos representavam 42% da população em 1750, 31% em 1920 e 24% actualmente. Portugal segue de perto essa tendência: em 1960 havia 708.569 portugueses com mais de 65 anos, em 1991 eram já 1.342.744, e em 2011 os últimos Censos contabilizaram 2.010.064 (Fonte: PORDATA).

RÉGIS DEBRAY | “Velho republicano de esquerda” (assim se define), nascido em Paris em 1940, este professor de Filosofia, antigo companheiro dos movimentos revolucionários latino-americanos (acusado de participar nas actividades de guerrilha lideradas por Che Guevara, seria detido e condenado à pena de morte, vindo a ser libertado graças a uma campanha internacional promovida por Jean-Paul Sartre), ex-conselheiro de François Mitterrand, ex-conselheiro de Estado, ex-presidente do Instituto Europeu das Ciências das Religiões, e, desde 2011, membro da prestigiada Academia Goncourt, tem-se sobretudo dedicado à escrita ensaística. Autor de várias dezenas de livros, publica incessantemente desde 1967, abordando sobretudo temas de leitura crítica das actuais sociedades.

Le bel âge | Flammarion, colecção Café Voltaire, Março 2013 | 110 págs.

Comments

  1. Helena says:

    Excelente reflexão.


  2. O ensaio parece-me interessante e a tese dele é algo com que eu, apesar de ter 28 anos, concordo. O nosso mundo dá demasiada atenção aos jovens e não o suficiente à história, ao conhecimento, ao pensamento crítico.

    Só gostava era que houvesse uma tradução portuguesa.

  3. Sarah Adamopoulos says:

    E no entanto essa ‘atenção’ demasiada aos jovens tem mais que se lhe diga. Quanto à tradução de pensamento crítico em Portugal nem vale a pena falar.

Trackbacks


  1. […] da razão que apenas o tempo gera, a força da sabedoria, a força dos silenciados pela sociedade do juventismo, a força dos abandonados pelos poderes, a força dos que sabem que não existe a segurança, que […]


  2. […] é um problema, porque remete as pessoas para um juventismo totalmente absurdo e gerador de grande disforia (que é o contrário da euforia, e portanto […]

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