Menos turmas com os mesmos alunos

Trabalhar numa escola não pode ser fácil, porque implica lidar com muitos e variados domínios do ser humano. Como se isso não bastasse, para se trabalhar numa escola, em Portugal, é-se obrigado a lidar com uma opinião pública frequentemente hostil ou indiferente e com sucessivos governos que, relativamente à Educação, baseiam as suas decisões numa mistura de incompetência, insensibilidade e ignorância que se parece demasiado com má-fé.

Uma das actividades a que as escolas se dedicam, no final do ano lectivo, apesar do mito de que está toda a gente de férias, consiste na criação de turmas. Trata-se de um serviço que envolve membros das direcções, funcionários administrativos e muitos professores. Antes disso, com a maior antecedência possível, cada escola divulga a sua oferta formativa. Graças a todo este processo trabalhoso, os alunos matriculam-se no ano e/ou nos cursos que pretendem frequentar. Assim, a pouco e pouco, é com base em matrículas e inscrições que se vão criando turmas, de cada vez que se atinge o número mínimo de alunos exigido por lei.

Entretanto, a definição da rede escolar deveria ter sido feita até 30 de Junho, o que não aconteceu. Quando alguém, no Ministério, se lembrou de a divulgar, as escolas ficaram surpreendidas com uma redução do número de turmas imposta com a habitual negligência de quem não perde tempo a estudar o terreno. De qualquer modo, quem trabalha nas escolas, já sabe que é em Julho e em Agosto que os ministros ditos da Educação tomam decisões que – das duas uma – ou não deviam tomar ou já deviam ter tomado.

Assim, para não destoar, nos últimos dias, há escolas que, tendo conseguido abrir turmas, por terem alunos suficientes para isso, foram impedidas de o fazer, criando incertezas, ainda, aos alunos e aos encarregados de educação. Incerteza, de resto, é o estado natural de todos os que trabalham nas escolas, especialmente numa época em que deveriam estar a gozar umas merecidas férias.

É claro que já ninguém acredita em incompetência. Tudo isto faz parte do mesmo plano de desinvestimento em Educação: entre a desorçamentação cega do ministério por implodir e a tentativa pouco subtil de empurrar alunos para o ensino privado, será possível encontrar razões que expliquem mais esta decisão.

A situação, dizem, está a ser corrigida, o que diz bem da leviandade com que o Ministério da Educação é gerido. Em Portugal, o Ministério da Educação serve, exactamente, para atrapalhar a vida das escolas.

 

Comments

  1. Bufarinheiro says:

    A baixa produtividade portuguesa tem origem, não na falta de empenho dos trabalhadores (que como se sabe são sempre bons “lá fora”) mas na incompetência dos patrões associada à sua prepotência e falta de lucidez.
    Acontece o mesmo com o patrão Estado cujos capatazes, em tudo o que fazem destroem os serviços que deviam acarinhar. Isto inclui o capataz Crato, um dos expoentes da política irresponsável e sacana deste governo.


  2. felizmente que temos empregados muito mais cultos que os patrões; o grave é não conseguirem criar empregos nem bons nem maus!! porque aí é que as manifestações na av se transformavam de um passeio pelos”nossos” direitos num exercicio de realização cidadâ consequente!
    confundir os direitos e condições de trabalho duma parte importante da trabalhadores do estado (que como se tem visto) com um poder de reivindicação nas maquinas partidárias que levou a uma manta de retalhos na educação comausencia da mais que importante definição da educação (eficiente claro!) em Portugal ,só pode ser uma brincadeira ou visão exagerada. conheço pessoas que tendem a centrar a sua visão do mundo no umbigo (espero que não seja o caso). Desilusão é que um cientista tenha uma visão de educação que se resume a negociar com sindicatos! triste!! pior também que os pais estejam ausentes do assunto mais importante para a sua vida familiar = a escolha que faz para o seu filho!! obrigado a por naquela escola (porque os interesses particulares se opoem a outro modelo), obrigado a uma ausencia completa de avaliação de que quem orienta o filho sabe o que está a fazer!! obrigado a que os indices da escola pública a que é obrigada a por o filho estejam em queda desde o fim do Salazarismo sem (se não for rico) poder escolher um colegio privado que têm subido ano apos ano (tudo por interesses privados legitimos) mas travestidos de “defesa da escola pública”.
    Eleitores tenham juizo e se possivel estudem antes de votar!! tenham fé no clube e na santa de devoção mas em politica usem essa cachimonia!!

    • Fernando says:

      Este tipo de opiniões ignorantes e tendenciosas ajudaram imenso os cratos e afins a levarem a cois até onde está.

Trackbacks


  1. […] ou talvez não, esta medida surge pouco depois de o Ministério ter proibido a criação de turmas nas escolas, o que servirá para criar a ideia, mais uma vez artificial, de que há funcionários a mais: na […]


  2. […] Como se tudo isso não bastasse, Nuno Crato resolveu apimentar um pouco mais a sua actuação desastrosa, ao injectar mais caos no sistema, deixando escolas, pais e alunos na incerteza quanto à abertura de turmas. […]

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