Cartoline d’Italia (8) (da Capri)

Elisabete Figueiredo

«Una giornata al mare / tanto per non morire/ nelle ombre di un sogno / o forse di una fotografia lontani dal mare/ con solo un geranio e un balcone …»* (Paolo Conte)

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Um dia no mar, o bastante para não morrer na sombra de um sonho… pode dizer-se assim. O mar aqui é o mediterrâneo absurdamente azul que nas mil grutas formadas na rocha toma, por vezes a cor das esmeraldas. Ou de um sonho. É uma água quente, de muitas maneiras. Uma terra quente. 42 graus. Ouço dizer no autocarro e acredito. Encho-me de protetor 50+ mas escapam-me uns bocadinhos de pele nas costas que estão agora da cor das lagostas. Uns quadradinhos vermelhos, nas costas e no meio de dois deles o risco formado pelas alças da blusa a que o senhor do barco chamou ‘una bella gonnina bianca’. 

Somos talvez uns dez no barco que faz a volta completa da ilha, com paragem na Grotta Azurra. Do barco, vejo as atrações todas de Capri, a partir do mar. A Grotta Bianca, a Grotta Verde, os farilhões, a Marina Grande, a Marina Piccola, a Villa Jovis… as praias de cimento ou rochas. Não há praias de areia aqui. O terreno é rugoso, como a pronúncia napolitana. Rugosos e belos, ambos. No barco vai uma família mexicana, mãe e dois filhos. Outra família italiana. Um casal idoso, brasileiro. Um casal coreano, aparentemente muito jovem, uns três ou quatro ingleses, branquinhos como eu, embora sem quadradinhos vermelhos nas costas.
Quando paramos na Grotta Azzurra, supostamente a maior atração da ilha, temos de mudar para um barquinho minúsculo a remos. Alguns de nós decidem não ir. A mim ‘la barca troppo piccola’ confesso que me assusta. Isso e a entrada da Grotta… mínima. O homem do barco, diante da minha recusa em passar para a ‘barca piccola’ e da explicação que o tamanho do barquito me stressa, oferece-se brincalhão para me fazer uma massagem. Eu digo que como não vou no barco não preciso da massagem, ‘però, grazie mille’ e que, de qualquer modo, o que eu apreciaria era fumar um cigarro, se for possível. É. Improviso um cinzeiro com um garrafa de água quase vazia e fumamos, eu e ele e uma ou duas pessoas que ficaram. Vamos conversando, enquanto os outros divididos por dois ou três barquinhos esperam para entrar pela abertura pequeníssima, na gruta.
O homem do barco, falador, já se percebeu, tendo-me ouvido falar espanhol com a família mexicana, inglês com os coreanos, português com os brasileiros e italiano com ele próprio e com uma das raparigas que agora fuma também, pergunta-me quantas línguas falo. Cinco, digo eu (embora acrescente que só falo uma delas corretamente). Uma senhora que ficou no barco, embora não fume connosco, olha para mim e diz: ‘ma cinque lingue … è sufficiente per andare a girare il mondo!’**. Sim, mais ou menos suficiente, para ‘andare a girare il mondo’. E ‘per andare una giornata al mare, tanto per non morire nell’ombre d’un sogno o forse d’una fotografia’… o resto da tarde passo-a entre as ruas estreitinhas de Capri e um livro do Juan Marsé no terraço, com vasos sem gerânios, mas sardinheiras. E ‘il mondo continua a girare senza di me, che faccio una pausa’***.

* “um dia no mar/ o bastante para não morrer/ na sombra de um sonho/ ou talvez de uma fotografia longe do mar/ com apenas um gerânio e uma varanda…”

** «mas cinco línguas… é suficiente para correr o mundo»

*** «o mundo continua a girar sem mim, que faço um intervalo».

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