Cartoline d’Italia (12) (da Napoli)

Elisabete Figueiredo

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‘Lei è francese?’ Ou uma comédia romântica que podia ter começado se a vida fosse como nos filmes.

De manhã apanho o funicular central, perto da Piazza Municipio para ir à Certosa S. Martino. Resolvo atravessar todo o Quartieri Spagnoli, apesar da insistência do senhor do hotel em que tome, em vez, a Via Toledo. Insisto eu que quero atravessar o bairro espanhol e ele diz-me que me vou perder. Penso que o receio dele seria outro. Apesar de o Hotel estar situado na entrada do bairro espanhol, o meu guia (antigo, de 2003) assim como os comentários que li acerca do hotel, qualificam a área como sinistra. Sinistra como sinistra em português e não sinistra como esquerda em italiano, naturalmente. Respondo ao senhor que se me perder, me encontro. Pergunto a alguém e então ele sai para a rua e explica-me. A dritto, doppo a sinistra. Lá vou eu. Cruzo o bairro espanhol, contente como um miúdo, tiro muitas fotografias, passam lambretas e buzinam. Uns homens gritam Ciao! Concluo que devia ter a pele dois tons, pelo menos, acima, para passar por residente, mas nada destas coisas me demove de atravessar o Quartieri.

Ninguém, digo eu, vem a Nápoles para ver monumentos, que também os há e podem ser vistos, naturalmente. Vem-se a Nápoles ver isto, estas ruas, estes becos, estas pessoas, esta maravilha de cores e cheiros, estes vicos que desembocam no porto ou em alguma igreja. Estas frutas, estes restaurantes, estas lojas de bairro, estas alminhas nas esquinas, esta confusão. De modo que eu vim a Nápoles ver isto, com o’core, com a alma antes de mais e penso que consegui já que, já sabemos, me apaixonei. Cruzo então o bairro espanhol. Nada acontece além do que já foi dito. Que nada é. Ou é bastante. Depende da perspetiva e da expetativa. Estou tão embrenhada nos labirintos de cores, e sombras e luzes e gritos que nem reparo que passei há um bocado o sítio onde, supostamente deveria ter virado a sinistra. Quero dizer, à esquerda. Reparo nisso, mas não me importo. Volto para trás e encontro a estação do funicular.

O funicular deixa-me no alto de um monte, uma zona bonita e limpa. Penso que, então, Nápoles tem áreas destas. Sem lixo, de prédios arranjados, de senhoras elegantes que passeiam cães de raça e sacos de compras caras. Continuo a subir. Às vezes pergunto a alguém o caminho. Giù, a dritto, a destra, a sinistra, fino a… e lá vou subindo pela sombra, colada às casas, para transpirar o menos possível. Sem sucesso. Aqui transpira-se a sério. Tomam-se vários banhos por dia e a roupa que trouxe não chega para tanto banho e tanta mudança e já tive de lavar alguma. Sento-me um bocado num banco à sombra antes de continuar. Quando alcanço a Certosa, está fechada. Ora porra, penso, tanta transpiração para nada.

O castelo de Sant’ Elmo é logo ali, no entanto, e entro. Um sítio escrupulosamente cuidado. Limpo. Verde. Pago o bilhete (5 euros) e subo no elevador até ao cimo. Nem sei como dizer-vos que me iluminei lá em cima, diante da vista absolutamente deslumbrante de Nápoles. A minha máquina fotográfica é velha e, em todo o caso, nenhuma máquina fotográfica – creio – expressaria a maravilha que é ver Nápoles do castelo Sant’ Elmo. Nem nenhuma palavra. Poderia dizer que me caiu o queixo e que tive algumas dificuldades em o apanhar. Mas, não me caiu o queixo. Caiu-me, novamente, o coração. Ou aquela vista entrou-me certeira e diretamente, não nos olhos, mas no coração. Não há máquinas que reproduzam isto e ainda bem.

Fico por ali a pasmar diante de Nápoles. A sentir a vista com o coração posto em cada casa, em cada torre, em cada cúpula. A tentar identificar os sítios. Reconheço facilmente a Piazza del Gesú, a Certosa Santa Chiara. O bairro espanhol, a Piazza Garibaldi (fácil, é a estação ferroviária), a catedral, o Castel Nuovo… Nem penso que tenho sede. E que me desfaço, de novo, em água. Fico para ali, a pasmar como pasmam os que se apaixonam. Sem se cansarem de estar pasmados.

Desço depois novamente no elevador. Decido passar uma parte da tarde no museu de arte contemporânea D. Regina (MaDre) que fica na Via Setembrini. Leio que o museu, situado num antigo palácio, foi completado e recuperado por Siza Vieira e isso anima-me (mais ainda) a ir lá. Apanho outro funicular, para Monteoliveto. Dali devo apanhar o metro para a Piazza Cavour. Consigo fazer isto tudo sem me enganar. A estação do metro é estranha e funda, funda, quase nas profundezas da terra. Escadas e mais escadas. Enfim a plataforma. Enfim o comboio. Um comboio velho e muito sujo. Entro. O calor é completamente insuportável. Estou a escorrer suor. Sento-me e abano-me violentamente com o mapa da cidade. À minha frente um rapaz moreníssimo, extremamente jovem, lindo, traz uma bateria de automóvel velha e muito suja. Do outro lado da carruagem as pessoas tentam abrir as janelas, enquanto entra mais gente. O comboio cheira a leite azedo. Ou melhor, a suor azedo. Abano-me com mais força a pensar que morro. Que vou morrer de calor em Monteoliveto, Nápoles, num comboio velho e a cheirar a azedo. Mas o comboio move-se, e uma brisa muito fresca afasta o calor e o cheiro. Exclamo: ‘ahhhh’ e sorrio. O rapaz da bateria olha para mim, compreensivo, e faz-me – juro – o sorriso mais bonito que vi na vida.

Saio na estação da Piazza Cavour, ou melhor, ascendo de debaixo da terra. Cá fora, o sol e uma confusão de cegar. Penso onde raio será a via Setembrini. Pergunto a uma moça, que não sabe, não é de cá. Pergunto a um rapaz que diz passa la porta, com l’arco, doppo a sinistra e sempre a dritto. Perfeito. Grazie a sai. E andiamo! É mesmo como ele diz e chego ao MaDre no mesmo em instante em que um carro de janelas escancaradas passa e uma mulher, lá de dentro, ao telefone, grita ‘pronto, pronto, mamma mi sente? Pronto, mamma’ e vai nisto até o carro alcançar o fim da rua. Penso que faz sentido. Afinal, eu é que tinha razão Juan Marsé. Faz todo o sentido o universo.

Entro no MaDre. É bonito e está tão fresco que só me apetece beijar o chão. Vou à bilheteira, o rapaz começa a dizer-me qualquer coisa e toca um telefone. Apercebo-me que é o meu. ‘Scusa, un attimo, ritorno’ digo eu ao rapaz e atendo o telefone caminhando para a rua. Italiano. Inglês. Bla bla bla. Volto à bilheteira e pergunto quanto é o bilhete. Ele diz-me que não é nada. E a mim apetece-me beijar o chão do museu outra vez. Começo a visita pelo 3º piso, seguindo as indicações e enquanto espero o elevador, aproxima-se um homem e entramos juntos. Estou a abanar-me como sempre. Ele diz ‘come fa caldo!’ Eu respondo ‘davvero. È troppo caldo’ e continuo a abanar-me. Só se está bem no museu. Diz ele. Ou no cinema. Respondo eu (quem me conhece sabe que, no verão eu digo isto continuamente… e pratico). Olha para mim com surpresa: ‘al cinema? Ma dove va lei al cinema a Napoli?’. ‘A qua no so dove andare al cinema. No sono di qua. Parlavo genericamente… è caldo, e… dicevo che solo si sta bene al museo o al cinema’ (digo eu num italiano macarrónico). Ah, ri-se ele (e foi o sorriso mais bonito que vi na vida, pela segunda vez no mesmo dia, asseguro-vos): ‘lei è francese?’ O elevador pára e eu digo: ‘no. Sono portoghese’. Ele sai e eu faço menção de o seguir. Vira-se para mim, ainda com o mesmo sorriso e diz que ali é o ‘primo piano e lei va al terzo’. Ah. Pois. Não consigo perceber como é que tivemos esta conversa toda entre o rés-do-chão e o primeiro andar, penso eu. ‘Ciao, buona serata’, diz ele. ‘Arrivederci’, digo eu. E a porta fecha e eu vou para o terceiro piso.IMG_5746

O museu, já o disse, é bonito. As janelas do Siza Vieira lá estão, como sempre, estrategicamente abertas, além das janelas antigas de onde se veem outras janelas antigas… janelas dentro de janelas dentro de janelas. Rasgões para a rua. À exceção de dois ou três artistas (Joseph Beuys; Thomas Bayrle), não conheço mais nada, mas gosto de ver quase tudo. Demoro umas duas horas a ver os dois primeiros pisos (3º e 2º e o terraço) até que chego ao primeiro. Mal saio do elevador e contorno, a destra, uma esquina, dou de caras com o homem do elevador. Com o papel e um lápis preto na mão a tomar apontamentos. Vê-me e sorri outra vez. E diz ‘Ciao!’. Respondo da mesma maneira e continuo a ver as outras salas. Quando regresso, o papel e o lápis preto estão pousados no parapeito de uma janela. Abandonados. Aproximo-me. Mas nada. São apenas um lápis preto e um papel pousados no parapeito de uma janela. Viro a sinistra e lá está o homem outra vez. Sorriso, aceno, aceno, sorriso. Desço para o piso zero e resolvo ir ao pátio onde há pouco, de uma janela do 3º andar, vi um gato – un gatto al museo. O calor engole-me. Atravesso o pátio, mas o gato desapareceu. Sento-me numa cadeira do café (hoje fechado) e fumo um cigarro. Penso que é melhor ir andando que, afinal ‘li non se pò stare com questo caldo’. Acabo o cigarro, esmago a beata no porta cenere e levanto-me. Vejo uma casa de banho e penso água fresca, vou lavar as mãos na água fresca. Entro. Aproveito para lavar a cara e os óculos. Ouço barulho na porta ao lado. Quando saio, o homem do elevador está ali, encostado à esquina do café fechado, sem que se perceba bem o que foi ali fazer. Aceno, sorriso, sorriso, aceno. Se a vida fosse como nos filmes, podia ter começado uma comédia romântica.

Mas como a vida não é como nos filmes, especialmente nas comédias românticas, saio do museu, avanço pela via Setembrini até à via Duomo que começo a descer. No Duomo sento-me nas escadas. É a hora a que os miúdos vêm para a rua jogar à bola e as mães os acompanham, para apanhar a brisa. Toca o telefone outra vez, italiano, inglês. Ao meu lado uma menina muito gorda de sete ou oito anos que se foi sentar ali, como se as escadas não fossem enormes, olha para mim interessada e sorri-me. O sorriso mais bonito que vi na vida, outra vez. Presumo que ache graça à complexa mistura de italiano com inglês. Mal desligo o telefone, dispara: ‘lei è francese?’ Não, digo eu, portuguesa e agarro num livro e na máquina fotográfica. A mãe da miúda aproxima-se e senta-se ao pé dela, a praça enche-se cada vez mais de gritos e correrias. Tiro uma fotografia ao reboliço. A miúda pergunta-me: quer que lhe tire uma foto? Digo que sim. E ela tira.

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Vão desculpar-me. Quem já me fotografou. Vão desculpar-me. Mas aquela fotografia é capaz de ser a melhor fotografia que alguém me tirou. Sou absolutamente francesa naquela fotografia e se o homem do elevador entrasse agora na praça, juro, convidava-o para irmos ao cinema.

Comments

  1. Sarah Adamopoulos says:

    Que pena escrever em acordês…


  2. Olá Sarah. Ossos do ofício diria eu, essa coisa de escrever em ‘acordês’. Desde há 2 anos, creio, que o faço, primeiro custou-me, agora habituei-me de tal modo que até quando escrevo à mão, escrevo em ‘acordês’. Mas outro dia estava a limpar as minhas estantes e a arrumar os livros e dei com uma edição de 1913 do ‘Viagens da Minha Terra’, que abri, claro, para o cheirar principalmente, e isso relembrou-me que a língua é uma coisa mais ou menos dinâmica. Aquela edição está escrita num português belíssimo, é verdade, de antes-antes-antes-…deste acordo e de outros que entretanto se foram verificando 🙂

  3. Sarah Adamopoulos says:

    Essa da dinâmica da língua já chateia, Elisabete. O Aventar tem publicado muita coisa sobre o AO90, por que não procura informar-se, designadamente lendo os textos do Francisco Miguel Valada e do António Fernando Nabais? O acordês não tem nada que ver com a dinâmica da língua, muito pelo contrário


  4. Pode chatear Sarah, mas penso assim. Além de que me considero razoavelmente informada sobre a matéria e se uso o novo acordo mesmo em documentos não oficiais é porque não me sinto desconfortável com isso. Se me sentisse, seguramente que o usaria apenas nos tais documentos oficiais.

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