Oferece-me um vestido de saliva

(Martinho da Vila, um perigoso piropeiro)

O João já explicou aqui o absurdo da coisa. Eu confesso que como filho da mãe, pai da filha e irmão das irmãs, há coisas que preciso de acrescentar. Primeiro, que o machismo é uma coisa primária, que vem dos nossos instintos animalescos e permaneceu ao longo dos séculos com interrupções ao longo da História, nalguns pontos do globo. O machismo é uma questão de educação e combate-se através da transmissão de valores que não tenham em conta na forma de organização da sociedade o género da pessoa ou do indivíduo – viram como usei os dois géneros?. Ou seja, de tod@s, que eu sei que assim percebem melhor.

Claro que as questões de género preocupam qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade social. A disparidade salarial, as desigualdades no acesso ao emprego, o seu papel na sociedade, as que são vítimas de violência doméstica, assédio de facto e tudo o resto, mas a iniciativa do Bloco é surreal em toda a linha, começando pela imagem que a ilustra, que nada tem a ver com o conteúdo do programa. De qualquer modo, reconheço que é difícil encontrar uma imagem que represente o que ali se pretende discutir.

Leiamos: “O facto de o assédio nunca ser referenciado revela até que ponto está instituído que o piropo é inofensivo. A banalização destes comportamentos, tolerados acriticamente pela sociedade e assumidos como supostos atos de amor, sedução ou paródia, na leveza de uma comédia de costumes, reflete a normalização da ideia da mulher enquanto ser que está aí para cumprir o seu papel, ser vista e avaliada, tocada”.

A mulher existe para o que quiser existir. O ponto é este, tem de ser este. E a luta tem ser nesse sentido. Se a mulher quiser ser piropada que o seja, se o homem quiser ser piropado, que o seja também. Esta mania de quem se considera a vanguarda dos direitos pessoais vai desta vez tão longe que cai no ridículo de, precisamente, imiscuir-se na minha liberdade de ouvir um piropo. Ou de piropar quem quer que seja. Não que o faça, que não tenho arte nem engenho. Ah!, mas se tivesse, não perdoaria um bom piropo no momento certo. Obviamente, um piropo do/da chefe no local de trabalho pode ser considerado assédio e está previsto na lei. Já lá está, senhores/as. Mas não é disso que falamos, é da demonização do piropo. A menos que o Bloco elabore uma lista sobre as formas não sancionadas por lei para meter conversa com alguém, continuarei a piropar e – quem me dera – a ser piropado.

Reparemos que o próprio título, “engole o teu piropo”, nos remete imediatamente para o imaginário sexual, pelo menos a mim, mas talvez esteja já consumido pela “normalização da ideia da mulher enquanto ser que está aí para cumprir o seu papel, ser vista e avaliada, tocada”. Partindo do princípio do Bloco, engolir não é um acto de subjugação da mulher ao homem mais grave que o piropo. Preciso, urgentemente, de um manual de costumes, não vá um dia esta lei entrar em vigor e eu tenho parcos rendimentos e uma filha para criar – que há-de seduzir e ser seduzida e aproveitar muito bem o que há de bom nisto tudo, no que houver de mau, o pai cá estará para tratar do assunto.

Acho que já o disse, mas repito: o inimigo não tem género. Um explorador não é menos explorador se se tratar de uma exploradora. Vamos ao que interessa, sim?

Comments


  1. Lá estás tu a medir os outros pelo que tens em casa. Isto não é uma posição do BE, mas de duas pessoas que vão debater o assunto a um espaço onde até já vi coisas piores. Esta espécie de universidade de Verão é um encontro de debate, e se há quem no BE pense assim há quem obviamente pense o contrário, e que de certezinha absoluta é maioritário entre os seus militantes.


  2. Bom texto, igualitário e tudo…


  3. Eu, vão-me perdoar quebrar o consenso, sinto realmente um “piropo” como uma agressão. Há dois momentos chave nisto: o momento em que, ainda criança, de repente tenho mamas. E, se ainda ontem podia andar livre pela rua a brincar, de repente sou “um grande par de mamas” e uma “boquinha de broche” – começo a evitar prédios em obras, grupos de rapazes e todo e qualquer homem cujo olhar sinto ao longe ser uma promessa de um “comia-te toda”. Com o tempo aprendi a lidar com isto, a responder ou ignorar consoante o espírito do dia, mas nunca senti que alguém estava a querer “meter conversa”: senti apenas que se sentiam no direito de me dizerem aquelas coisas.

    O segundo momento é o regresso da Alemanha. A Alemanha não é um país onde eu não possa chegar a alguém e dizer “o senhor é deslumbrante” mas é um país onde uma espécie de acordo social não escrito define que não é legítimo dizer “faz-me um vestido de saliva a uma mulher”. E o resultado é uma liberdade incrível, incrível…a que só dei valor quando, depois de oito anos no estrangeiro, voltei a Portugal e senti o choque, o embate. Era uma pessoa, voltei a ser um par de mamas ambulante.

    Se me incomoda? Incomoda. Se o sinto como uma agressão? Sinto. Sinto-me agredida, conspurcada, num dia bom só incomodada. Aliás, olho para a expressão com que mo dizem, para o tom em que mo dizem, para os centímetros que os vejo crescer quando mo dizem e não tenho quaisquer dúvidas – é planeado como a agressão que é.

    (escrevi recentemente um post sobre isso – não gosto de andar a por links para mim própria noutros blogs, mas acho que vale a pena ler a discussão na caixa de comentários e os testemunhos de quem participou nela, acredito que esclareçam mais do que aquilo que eu consigo: http://infernocheio.blogspot.pt/2013/05/violencia-matinal.html)

    • Ricardo M Santos says:

      Rita, em momento algum do texto eu defendo a ordinarice ou o direito de quem quer que seja, independentemente do género, a importunar outro.
      Se o título do meu texto é provocatório? É. Mas não é mais que isso.
      O que coloco no texto e que considero ridículo nas premissas colocadas a debate é o facto de colocar homem vs mulher e isso parece-me absurdo, bem como a possibilidade de criminalizar o olhar, o piropo, o elogio.
      Depois há a linha ténue que separa um elogio de um piropo, que não me parece fácil.
      Como dizes, e bem, é uma questão de educação, da que temos e da que damos. E isso não se combate com criminalização mas sim, como disse atrás, por educação e pela efectiva igualdade de género, nos aspectos laborais, sociais, políticos, etc.
      Se eu olho para uma mulher bonita? Olho, claro que olho. Se olho com ar guloso, não sei, mas é sem intenção. Mas creio que as mulheres também o fazem.


      • O problema é que a discussão está inquinada, em parte pela perspectiva da criminalização em parte pela palavra “piropo”: a perspectiva da criminalização assusta os que têm medo de uma sociedade asséptica onde um olhar é assédio, a palavra “piropo” parece sugerir que o que uma mulher mais ouve na rua é “oh minha linda, bela como um gerânio; vales mais que volfrâmio” e não é, 90% dos chamados piropos são só agressões tout court.

        E, embora tenha lido algures por aqui que não é coisa que deva constituir problema para uma mulher adulta, peço que me acredite que pelo menos para mim é mesmo terrível viver com essa realidade no quotidiano, duas, três vezes por semana e que altera realmente a forma como me sinto ao andar na rua, a sensação de liberdade, de conforto, de segurança.


        • (não acho que tenha de ser um debate homens contra mulheres, acho que a maior parte dos homens não está muito longe da forma como penso e se uma mulher fizer o mesmo também não aplaudo. Mas acho que também não vale a pena escamotear que existe um problema e que as mulheres são as principais afectadas. Um pouco como na violência doméstica (claro que não quero comparar o grau de violência): há homens vítimas de violência doméstica também, mas sem lhes retirar valor nem entrar numa cruzada contra todos os homens, reconhece-se que as mulheres são as principais afectadas)


          • Rita, é ver a definição de piropo num dicionário. “tens um ganda par de mamas” não é um piropo, é uma constatação parva.
            Além disso esta discussão enferma logo de um erro: há décadas que as mulheres conquistaram o direito a mandarem piropos.
            Já agora, por mera curiosidade, nunca percebi como é que um ser humano percebe que lhe estão a olhar para uma parte específica do corpo, essa capacidade de medir o ângulo do olhar do outro deve ser ter ficado reservada às mulheres, e muito menos como se torna facilmente visível o crescimento de centímetros em plena rua, não andando o pessoal de calção de banho.
            Isto já para não referir que quem expõe uma parte do corpo, pensava eu, quer que ela seja vista. O que de resto acho muito bem, a arte deve ser para usufruto público, e não, não estou a cair no “estás mesmo a pedi-las” que é de outro campeonato.


          • Sim, a palavra é a errada, devíamos substituí-la neste debate, talvez por grosseria como sugerido acima e deixar o termo “piropo” para galanteios proferidos com a intenção de agradar. Mas sabemos todos de que é que estamos a falar na discussão, não é? E que não se está a discutir a abolição do galanteio? Odiaria ver a discussão, que acho importante, perder-se por uma fragilidade semântica.

            (as mulheres, os homens, as crianças e os velhos, todos têm o direito ao galanteio bem-educado, claro)(eu nunca vi ninguém em andamento a crescer centímetros, mas os olhares identificam-se bem quando – e acho que só quando – no-los querem fazer notar. Têm as suas vantagens, às vezes um botão da camisa abre-se por descuido e uma pessoa é logo “avisada”, não há qualquer risco de andar assim por várias horas)


  4. (gostava de esclarecer também, porque fui ler o outro post, que isso não significa que defenda a criminalização. Bastava-me que existisse a consciência social generalizada de que dizer “comia-te toda” a uma desconhecida não é aceitável e que devemos no geral tentar agir com respeito pelos outros. Consciência essa que aliás acho que já existe – estou capaz de jurar que a maior parte dos homens que conheço eram incapazes de o fazer, e não é porque não se cruzem com gajas boas de mini-saia ou lhes tenham sido removidos os testículos)

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