Como cão e gato

A minha cadela aceitou partilhar casa com um gato. Eu não tive nada a ver com o assunto, nem fui consultada, o que me pareceu normal porque a Rita já é uma cadela menopáusica, com idade suficiente para saber o que quer. O gato é novinho, suponho que um dos muitos órfãos que vagueiam pelo bairro, e começou a rondar o pátio com passinhos furtivos, olhos vivos de pequeno reguila, e aquele ar de desamparo que os gatos podem ter mas só quando querem. Começou por roubar pedacinhos de comida, foi ganhando coragem, aproximou-se dela e, como ela permanecesse refastelada, a fazer de conta que não o via, ele fez-se atrevido e não só comeu tudo o que estava no prato dela, como lhe foi dando pancadinhas leves com as patas, esfregando o dorso na sua barriga, roçando a cabecita no focinho indolente dela.

A minha Rita já foi uma grande maluca, assassina em série de galinhas, o bicho mais ginasticado que conheci, capaz de saltar muros mais altos que uma pessoa. Matou todos os gatos que lhe apareceram pela frente, sem sanha, movida apenas por uma curiosidade infantil que nada parecia saciar. Por isso assustei-me quando vi o bichito, pensei que íamos voltar aos tempos da matança dos gatos, mas logo vi que ela já não estava para isso. O bicho começou por aborrecê-la. Levantava-se e ia deitar-se noutro lado quando ele vinha empurrá-la. Afugentava-o com a cauda. Empurrava-o. Que grande chato.

Mas depois foi-se deixando estar. Começou a achar-lhe piada. Ele saltava à volta dela, com esse frenesim dos animais jovens, e ela, até aí posta em sossego, começou a achar-lhe graça. Daí a nada comiam do mesmo prato. E certa manhã, vi-o a sair da casota dela, onde dormem enroscados um no outro.

O meu filho, com o seu gosto particular por baptizar animais com nomes longos, quis logo chamar ao gato um nome com apelidos, mas pareceu-me que a este bichito fica bem um nome breve. Olha, Chico, por exemplo, não achas que tem focinho de Chico? E assim ficou.

A minha Rita e o Chico (que não é meu, é dela), o mais improvável dos pares, vivem felizes. Ou viviam. Porque ontem a Rita foi cortar o pêlo (é arraçada de ovelha, a minha cadela) e o Chico não a reconheceu. Bufou-lhe, assanhou-se todo, e ela a correr atrás dele, a choramingar, a tentar mostrar-lhe que era ela, a mesma. A cena durou até às tantas, porque os bichos podem ser tão casmurros como nós, e eu a dizer para com os meus botões, mas então esta malta não tem olfacto, não se reconhece pelos cheiros?

Lá a reconheceu, por fim, o Chico, sabe-se lá depois de quantas juras, e superada esta primeira crise, devem estar ainda a esta hora enroscados na casota.

Comments

  1. Biuça says:

    Lindo !!
    Os animais quando vêm do veternário ou da tosquia, vêm com outro cheiro, a remédios, a perfume de shampô. Se calhar o Chico pensou que a Rita tinha tido um “affair” com o possuidor do novo cheiro …

  2. palamar says:

    Como foi bonito este episódio!! 🙂 acima de tudo bem escrito!! Parabéns.

  3. Adorei!
    Se calhar o Chico não gostou foi do novo corte de cabelo da Rita 😉

  4. Lindo. Excelente. Só falta a foto dos bichos.

  5. Ahahah! Como é que eu deixei passar este texto?
    “Focinho de Chico”. A propósito, já vou mostrá-lo ao meu sobrinho Chico que, por acaso, gosta muito e tem gatos.

Trackbacks

  1. […] aqui contei que a minha cadela Rita adoptou um gato vadio, o Chico. Nos outros lugares, menos virtuais, onde […]

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