Passos, o mérito e os excendentários

Tenho dois irmãos, ambos formados na escola pública e, posteriormente, numa universidade pública. O mais novo seguiu ontem as pisadas do mais velho e foi-se embora deste país que gastou dinheiro com a sua formação mas que não precisa dele. Para os meus pais foi o segundo desgosto. Que pais querem ver os seus filhos serem forçados a partir para outro país?

Os meus irmãos nunca foram alunos geniais. Apenas bons alunos, alunos aplicados. Não compraram o curso numa universidade privada nem ficaram na universidade até aos 37 anos. Ficaram até aos 23. A mesma idade com que, depois de baterem a tantas portas que teimavam em não abrir, decidiram procurar outro país que os valorizasse. Podiam ter feito o cartão rosa ou laranja e talvez isso tivesse mudado um pouco o cenário. Mas optaram por não vender a alma ao diabo e o desfecho foi o mesmo que afecta tantos dos nossos familiares, amigos e conhecidos.

Quando ontem ouvia o hipócrita Passos Coelho, naquele exercício de retórica patética que fez na RTP, a dizer “Nós apostamos muito nos jovens”, enquanto o Diogo aterrava na República Checa, foi provavelmente a única vez que me apeteceu partir-lhe a cara. Sou um gajo pacífico, até agora só me apetecia vê-lo preso, ou “encurralado” por uma multidão em fúria. Mal por mal, prefiro sempre ver os vilões a partilhar a cela com um entroncado presidiário de longa data, pronto a dar-lhes todo o carinho do mundo, algo que, infelizmente, nunca acontece.

E enquanto o Diogo se instalava na sua nova cidade, eu via o primeiro-ministro-boy a responder a perguntas de cidadãos “seleccionados”, umas vezes de forma evasiva, outras mostrando claramente não dominar a matéria, mas sempre com aquele ar de superioridade e gozo que não o inibiu de se rir em directo de algumas das pessoas que lhe colocavam as questões, como aquele taxista que não sabia como fazer face às constantes subidas do preço da gasolina. Passos ria, alegava motivos ambientais para não descer os impostos sobre os combustíveis e desejava-lhe muitos clientes. E ria com o seu sorriso maroto de quem se está nas tintas para tudo.

Quantas vezes se riem estes gajos de todos nós? Gajos que nunca souberam o que é o desespero e a sensação de exclusão de quem procura desesperadamente construir a sua vida? Passos Coelho não sabe o que isso é. Há muito que garantiu a sua, desde os tempos dos corredores da JSD. Não é qualquer um que termina um curso aos 37 anos e salta directamente para o conselho de administração de um empresa. É que Passos pode ter terminado a licenciatura tarde, mas já tinha vários doutoramentos da Universidade de Verão do PSD.

Passos é a imagem de um país onde as oportunidades não são iguais para todos. Um país onde abanar a bandeira certa pode garantir um emprego. Onde a vassalagem está mais viva do que nunca. Onde a competência não importa e o estado da nação é a prova disso mesmo. Onde Miguel Relvas, Rui Machete ou Paulo Portas podem dizer e fazer o que lhes apetecer sem esperar qualquer tipo de consequências. Deve ser a isto que se referem quando falam em meritocracia…

Se alguma vez conseguirmos pagar esta dívida, algo aparentemente impossível nos moldes impostos, quem estará cá para reerguer este país? O que faremos nós com uma população envelhecida e empobrecida no topo de uma pirâmide etária invertida? Será que os mesmos jovens que a “elite” mandou emigrar quererão voltar a este país ainda mais pobre na periferia da Europa? Ou será Passos, apoiado por exército de boys, quem vai levantar este país de novo? Nada disso. Por essa altura, Passos Coelho já estará numa instituição internacional qualquer. Os boys que se façam à vida…

Comments

  1. Duke says:

    tudo culpa do passos ?

  2. coimbrão says:

    Face ao continuo desrespeito da lei por parte do Governo e seus acólitos, como a Assembleia da República não pode haver mais dialogo. Só a violência resolverá os problemas de Portugal.


    • não sei se a violência será a solução mas parece-me a única maneira de pelo menos colocar a escumalha em sentido. enquanto se sentirem impunes, nada mudará…

  3. Joaquim Carlos Santos says:

    Meu caro, demasiado Passos, Passos, Passos, para tanto País… Tal como demasiado Sócrates, Sócrates, Sócrates para tanto corrupto. Eu diria BCE, FMI, CE!!!! Lamento pelo teu irmão e pela dor da tua família.

    Aqui em casa sofre-se igual. Três desempregados dependurados do cangote dos meus pais. Triste. Fatal. Uma forma de morte.


    • Passos, Sócrates, Durão, Guterres, Cavaco… mas alguma vez tivemos um PM decente e capacitado?

      Agora não posso esconder que por muito nojo que sinta, da uma forma geral, por todos os outros, o Passos enerva-me especialmente por ser um gajo que nunca fez nada e, ainda assim, conseguir ser primeiro-ministro. Um gajo que andou a vida toda a brincar aos jotinhas e agora vem cagar leis sobre mérito, trabalho e sacrifício e que não faz a mínima ideia do que isso é.

      As máfias internacionais tem a sua responsabilidade no que se passa mas o paranóico ultra-austero é o Passos. Foi ele que chumbou o PEC IV, é ele que quer ir além da Troika e não há gajo mais vassalo à Merkel do que este eterno jotinha…


  4. Um país politicamente iliterado permite e ignora o sustento base de uma democracia para o povo. Pondo de parte o “não problema” da dívida (matematicamente impossível de pagar nos moldes actuais) a Justiça e a sua vassalagem aos “instalados” está na génese de toda a entropia causada pelo nosso sistema político e pela sociedade em geral. Enquanto não olharmos para a sociedade como um reflexo de cada um dos seus constituintes nunca iremos julgar quem contra ela se move. Um exemplo parvo e redutor: quantas pessoas passam a estrada fora da passadeira evitando uma caminhada de 20seg para a passadeira mais próxima? Quantos estacionam em 2 fila porque “é rápido” tendo o estacionamento gratuito ali ao lado? Esta falta de educação social, simpatia e justificaçao por quem erra abrange todos os estratos e demonstra que não temos, enquanto um todo, o que é preciso para avançar: autonomia e capacidade para responsabilizar. A lama onde estamos é resultado de muitos factores. Erros de gestão todos os cometemos. Erros de gestão com dolo é o que fazemos quando permitimos compadrios e negociatas. A culpa é minha e tua, Nossa. Educa como foste educado e nada se alterará…. temos mudado a forma como educamos?

  5. Jose Jorge da Silva says:

    concordo com tudo quanto aqui foi dito

Trackbacks


  1. […] opção que não fosse seguir o conselho do primeiro-aldrabão e abandonar o seu país. Para mim foi um dia particularmente triste, até porque já tinha visto esse filme quando o meu irmão mais velho, alguns anos antes, se viu […]

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