A esquerda e a fossilização do homem pelo homem

A alma de paleontólogo do meu amigo Joaquim permite-lhe descobrir fósseis com uma aparente facilidade. Diz ele que a esquerda portuguesa é, toda ela, um fóssil babando uma revolta e uma ira anacrónicas.

Apesar de eu ser de esquerda, tenho de concordar que o Joaquim parece ter razão: a esquerda continua a defender as mesmas causas de há dezenas ou centenas de anos. No entanto, se analisarmos mais de perto, acabamos por descobrir que o fóssil é outro.

O problema é que a história que deu vida à esquerda está longe do fim. A esquerda existe e age, porque continua a selvajaria dos que, há milhares de anos, se alambazam com o trabalho alheio, negando-lhe, o mais possível, valor, considerando-o apenas despesa, ao mesmo tempo que usa a globalização para levar uma maioria a considerar que um emprego é uma benesse, mesmo que implique apenas direito a sobreviver, que viver é outra coisa.

Não é preciso ser um tarado por teorias da conspiração para confirmar que os governos do mundo ocidental estão ao serviço de todos aqueles que sonham com um proletariado pobre e sossegado. Em Portugal, é assim, apesar dos quase quarenta anos de democracia.

Ao fim desse tempo, depois de ter andado a alternar no esbulho dos cofres públicos, a hidra do centro-direita, com cabeças socráticas ou passistas ou outras parecidas, começou a inventar causas para o défice, de modo a esconder as suas responsabilidades, ou, dito de maneira mais clara, os seus crimes, porque é crime gastar mal o dinheiro de que se é fiel depositário.

É por algumas destas e por muitas das outras que a esquerda precisa de continuar a lutar contra os mesmos e é por isso que vale a pena ouvi-la, goste-se ou não do estilo. Eu sei que há palavras que tresandam a barbas revolucionárias, a punhos no ar, a arrepios vindos de Grândola e outras aparentes antiguidades, mas, por muitas voltas que se dê, o verdadeiro nome do fóssil é “exploração”. A esquerda é uma consequência.

Do outro lado da ponte, estão os guardiões do fóssil, aqueles que tentam manter em formol o que já está em decomposição. São eles que farão tudo para impedir que a esquerda atravesse a ponte.

Comments

  1. nightwishpt says:

    O Krugman chegou hoje à conclusão que o 1% tem tanto dinheiro que já não é a questão do dinheiro que os preocupa, uma vez que nem sabem o que fazer com ele, mas a de quererem ser reverenciados, daí as expressões como criadores de emprego e movedores da economia.

Trackbacks


  1. […] Ó pá, isso da reacção que volta ou que não voltará é um bocado anacrónico. Estás a exagerar e coiso e tal. Concordo: isto anda cheio de anacronismos. […]


  2. […] claro que estou a repetir-me, mas eles é que […]

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