Mário Soares, o homem político

mario soares por julio pomar

É das maiores ironias da minha vida: tantos anos a combatê-lo e  acabo a defendê-lo, porque acima de tudo não suporto a mentira e a canalha, em particular a miúda.

Há vários tipos de ódios a Mário Soares, que foi, quer gostemos quer não, um dos dois políticos profissionais de grande gabarito na sua geração (alargada, Álvaro Cunhal sempre lhe deu explicações), incomparável aos criminosos que ambos combateram e deixando num rodapé da História os seus outros adversários.

O de esquerda, fundamentado na tese de que foi o responsável pela contra-revolução. Não houve revolução, o que houve suicidou-se mais do que foi assassinado, mesmo sem qualquer ódio ando por esses lados, é sabido.

Já na  direita podemos encontrar várias espécies.

A primeira votou PS em 1975, chamam-lhe voto útil, custou a engolir, ainda não digeriu, dispara desde as eleições seguintes onde já votou CDS ou PPD sempre que tem oportunidade. É o homo tuga fascitus, no seu pior, com prisão de ventre irreversível. Antes os que nunca votam, sempre são coerentes com o seu Salazar.

Depois temos o retornado típico, vulgo ex-colonialista. O homo tuga colianalos vive na falácia de que Mário Soares entregou as colónias, como se as colónias fossem portuguesas, como se tivesse havido descolonização, como se o então ministro dos Negócios Estrangeiros não tivesse tentado minimizar os estragos de uma guerra perdida definitivamente no dia 25 de Abril de 1974. É gente que vive entra a irracionalidade pura e a falta de vergonha pelo que andou por lá a fazer, garantindo de mãos no ar e em louvor da sua senhora racista, eu? que tratava tão bem os pretos, tanto lhes apertavam o pescoço como a mão a um branco. Estão cada vez mais senis, espalhados por caixas de comentários de quem ainda atura anónimos nas ditas,  juntamente com a espécie anterior nem estas linhas merecem.

E agora temos também a segunda geração das mesmas direitas. Filha de colonos, ou de serventuários do mesmo regime, sabe dos idos de 70 e 80 em segunda mão naturalmente mal contada. O homo fascitus colinialos puto desconhece o papel de Soares precisamente no combate à esquerda e como lhe deve o início do lento caminho para agora estar no poder. Acredita na bandeira pisada em Londres, trepa com as primeiras chamadas do FMI, desconhecendo como o político inteligente que sempre foi deixou escapatórias onde agora se empurra para a parede; tem uma relação com a história similar à de Jorge Jesus com a língua portuguesa.  Nalguns casos é ignorância em estado puro, noutros dívida com a família onde se sustenta, que ainda assim sempre sobreviveu aprendendo a tratar brancos como antes tratava pretos, e segue alegre, cantando e rindo.

Sucede que o raio da história tem os seus desencontros. A vida está-lhes a correr bem, garante o pai, é desta que acabamos com os comunas, geme a mãe, coitada, que nunca gemeu na cama nem, parideira, sabe o que isso é, mas não pára aqui. Não acabou, como já sonharam. Tem curvas e contracurvas, que chatice. Ainda acabam a pedir ao Mário Soares que volte e os salve outra vez; coisa que é tecnicamente impossível, e não será um António José Seguro a meter-se nisso, mesmo que o faça não sabe fazê-lo por falta de talento e engenho. Miserável mocidade, a caminho do Brasil, ou de Angola, o terno e eterno destino dos nossos donos quando perdem o poleiro.

Comments


  1. Excelente texto. A sua definição de homo fascitus colinialos puto aplica-se que nem uma luva tanto a Passos Coelho como ao aqui verborroso Joshua .


  2. admira-me bem que tantos anos de democracia e ainda lemos narrativas de direita/esquerda como “explicação” seja para o que for. Eu que defendi as nacionalizaçoes não me revejo em dfensores de “direitos” escritos em constituições ou biblias sóprque sim ,mesmo que se veja a impossibilidade de dar.


  3. “É fado nosso, é nacional, não há portugueses, há Portugal”. Que pobre país este em que os alvitres se fazem sem o mínimo respeito pela sintaxe, no uso da ignorância (não usada aqui no sentido de insulto, mas de desconhecimento) para dar lições de sapiência. Retrato de um decadentismo absoluto.

  4. maria says:

    A vida tem destas coisas, J.J. Cardoso, mas só acontecem aos inteligentes. Os outros são casmurros o que nada tem a ver com inteligência!

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