O lado errado da história

O Canadá mandou  uma delegação  de grande peso político ao funeral de Mandela:  o actual primeiro ministro, Steven  Harper, e três antigos primeiros ministros, os conservadores Brian Mulroney e Kim Campbell, e o liberal Jean Chrétien. A Mandela, desde que saíu da prisão e acabou com o apartheid, foi oferecida a cidadania canadiana, com passaporte e toda a parafernália burocrática inerente. Era, pois, um homem a quem o Canadá amava  e a quem honrava. O governador geral não foi ao funeral porque a chefe do estado canadiano, Raínha Isabel II,  já  estava representada pelo Príncipe Carlos. O mesmo se diga da Austrália e da Nova Zelandia. A Commonwealth não é uma treta: funciona e tem poder.

Brian Mulroney, em entrevista que todo o país viu, explicou o tratamento dado a Mandela: “em todas as situações, temos de ter o maior cuidado para não ficarmos do lado errado da história”.  E disse bem, porque é importante um país ficar do lado certo. Nenhum povo gosta de ficar do lado errado. Por uma daquelas travessuras em que a política é fértil, depois de Mulroney os barões do seu partido, o conservador, trataram de tornar impossível a eleição da primeira ministra provisória Kim Campbell, uma senhora que teria proporcionado ao país um enorme salto qualitativo, graças à sua notável qualidade política e cultural, o que representou uma garantida e duradoura estagnação. O Canadá não gostou de ter perdido o comboio da história e esse mal estar é cada vez mais evidente.

Entre nós, durante muitos anos, pessoas de bem, entre as quais Paiva Couceiro e Norton de Matos, tentaram que Salazar encarasse de frente a independência das colónias e, portanto,  recebesse, mesmo que discretamente, os chefes naturais das etnias e os dirigentes dos movimentos pró-independência. O ditador recusou, iracundo, e quem deu esses conselhos caíu em desgraça, tendo-se visto mesmo enxovalhado pela Pide. O ditador colocou-se, e ao país, do lado errado da história, com os resultados sangrentos e dramáticos que sabemos. Tinham-se poupado muitos milhares de vidas e biliões em dinheiro que, investido, teria feito de Portugal um país próspero e moderno. Em democracia, o país voltou a ficar do lado errado ao não referendar a descolonização, em Portugal e nas colónias. Todos perderam com esse procedimento.

Em 1986, Portugal entrou formalmente para o clube europeu sem referendo à sua população, mantendo essa ausência de referendo todas as vezes que foi discutido um novo tratado. Foi abusivo e errado. Os resultados estão à vista: uma União Europeia dirigida por não eleitos que fazem gato sapato de todos os países do sul, para começar, uma União Europeia completamente economicista e neoliberal, leia-se sem princípios morais e completamente focada no empobrecimento progressivo dos povos que os não eleitos consideram inferiores e sem voz.

Consumado o abuso e abertas linhas de crédito abundantes, o governo português de então, liderado por Cavaco Silva, não se deu ao dever de consultar a população, as suas forças vivas, quanto a prioridades de investimento. Munido de certezas, o homem que nunca tem dúvidas nem se engana desprezou a agricultura e o mar, a educação e a saúde, a investigação científica e o conhecimento, as energias alternativas  e as indústrias de ponta. Preferiu o betão e as autoestradas, para prazer e proveito de mestres de obras, gasolineiros e bancos.Estavam as portas escancaradas à mediocridade e à corrupção.  Portugal ficou outra vez no lado errado da história.

Portugal continua no lado errado da História, porque caíu nas garras de um governo de obediência cega à Alemanha, essa que impinge submarinos (caríssimos) e exige que o nosso país empobreça. É preciso que o nosso país saia dessa posição, que restaure os valores morais e culturais do seu código genético. O seu povo não pode continuar a ser enganado, explorado e roubado por aqueles que vivem disso por lhes faltar engenho e arte para viverem de si mesmos.

Comments

  1. nightwishpt says:

    Eu concordava mais que seria o lado errado se todos os outros países não fossem pelo mesmo caminho, até os escandinavos.

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