Mundial 2014 – Portugal vs Alemanha

Desta vez não me apetece postar o video das imagens dos golos. Todos os vimos. Todos sabemos decor o que é que falhou. Todos nós vimos aquilo que sabíamos ser previsível: a nossa selecção não jogou nada, com Paulo Bento não joga nada, não tem fio-de-jogo, não tem um colectivo, vive excessivamente daquilo que Ronaldo e mais 2 ou 3 conseguem fazer e continuando assim, arrisca-se a voltar a Portugal no próximo dia 26.

1. Nos primeiros 10 minutos de jogo ainda criámos um calafrio quando Ronaldo atirou com o pé esquerdo para defesa de Neuer. Desde cedo entendi que Paulo Bento ia apostar numa atitude defensiva, de forma a não deixar os alemães colocarem em prática a circulação de bola semi-apropriada ao Bayern de Munique de Guardiola: muitos passes entre os homens de meio-campo, muitas combinações entre o médio interior, o lateral e os alas e respectivo cruzamento para área à procura da referência de ataque da equipa, neste caso Thomas Muller, o herói da partida de Salvador da Baía.
A opção de Paulo Bento por uma atitude cautelosa também permitiria desgastar os alemães (caso a equipa conseguisse manter uma atitude defensiva sólida) e sair rapidamente no contra-ataque. Desde cedo também se depreendeu alguma intranquilidade em alguns jogadores. Primeiro foi Rui Patrício a fazer uma besteira de todo o tamanho com os pés num atraso de bola. Sami Khédira quase aproveitou o erro do jogador do Sporting. Ao mesmo tempo, João Pereira concedia imenso espaço para Mario Gotze e tanto Pepe como Bruno Alves executavam cortes algo imperfeitos. Até que o primeiro golo haveria de aparecer num lance em que me causa algumas dúvidas. Mário Gotze tenta passar por João Pereira e apesar de existir um puxar de camisola por parte do jogador do Valência, certo é que Gotze também força a passagem com o braço.

Muller não falhou da marca dos onze metros. Pouco ou nada se alterou na atitude nacional após o golo dos alemães. O meio-campo continuou pouco esclarecido e pouco pressionante. Na saída de bola, Pepe e Bruno Alves eram praticamente obrigados a despejar a bola lá para a frente à procura do jogo aéreo de Ronaldo e Hugo Almeida visto que Miguel Veloso, Moutinho e Raúl Meireles passaram a primeira parte a esconder-se da tarefa primordial de vir atrás receber dos centrais e organizar o jogo ofensivo da selecção Nacional. A tal falta de fio jogo evidente nesta selecção orientada por Paulo Bento começa na falta de alguém que consiga ir receber a bola aos centrais e comece a primeira fase de construção da equipa. Miguel Veloso não é esse tipo de jogador, Meireles negou-se à tarefa, a tarefa não cabe a Moutinho. Na direita, pouco actuante, como é seu apanágio, Nani prendia demasiado o jogo. Tentou alguns cruzamentos para a área à procura de Hugo Almeida mas quase todos saíram ora para fora, ora excessivamente largos para o 2º poste.

2. Perante a eficácia alemã num jogo em que os homens da Mannschaft nem tiveram que acelerar os seus rápidos processos de circulação e flanqueamento de jogo, o 2º golo parecia previsível. Na sequência de um canto, Patrício ficou nas covas e os centrais deixaram Mats Hummels saltar quase à vontade para o 2º golo dos alemães.
Se as coisas estavam dificeis, mais difíceis ficaram com a expulsão de Pepe, expulsão que considero exageradíssima. O central luso-brasileiro não tinha necessidade nenhuma de jogar com os braços num lance onde teve todo o tempo do mundo para controlar a situação, o central não tinha necessidade nenhuma de ir pedir satisfações ao alemão com uma turra, mas, à primeira vista, o jogador português não mostra intenção para agredir mas sim para ter um dos habituais têtê-à-tête que tantas vezes vemos em diversos estádios de futebol entre centrais e avançados. O sérvio Milorad Mazic deveria ter punido os dois jogadores com o amarelo (suponhamos que o sérvio expulsou Pepe porque este manifestou intenção de agredir; como é tão prevaricador aquele que provoca como aquele que responde à provocação, a resposta de Muller não ficou atrás da atitude tomada pelo central da selecção nacional) justificando-se apenas o cartão vermelho se o árbitro decidisse agir disciplinarmente pela falta evidente cometida pelo português com os braços num lance em que em caso de perda de bola, Muller ficaria isolado numa situação passível de cartão vermelho em caso de falta: lance iminente de golo.

3. As lesões de Fábio Coentrão e Hugo Almeida –  O segundo passou ao lado do jogo. Não seríamos capazes de esperar o contrário. Já o primeiro estava a realizar uma exibição bastante aceitável, dadas as dificuldades sentidas pelo lateral do Real para travar as incursões de Ozil, bem acompanhado de Jerome Boateng e do pendente Phillip Lahm, que, sempre que assegura a estabilidade do miolo (na posição na qual tem jogado recentemente) procura bastante aquele flanco para dar a sua vivacidade habitual ao jogo ofensivo da sua equipa (combinações com os laterais, cruzamentos)…

4. Completamente desaparecido – Enfiado entre as compactas linhas defensivas germânicas, Ronaldo passou ao lado do jogo. A partir dos 70 minutos tentou pegar na bola e fintar de forma desalmada todos aqueles que lhe apareciam pela frente e rematar sem nexo (e sem força). Acabou por criar a melhor situação de golo da partida quando atirou uma bomba de livre para defesa apertada de Neuer. Nota-se que não está nas melhores condições físicas.

No contra-ataque, os alemães deram a estocada final no jogo. Patrício ainda negou o golo a Ozil defendendo uma bola que o alemão quis colocar a bola por entre as pernas do português. Não defendeu o 3º golo de Muller num lance em que a culpa pertence a 100% a Bruno Alves por causa daquele corte defeituoso que o central do Fenerbahce efectuou, e voltou a falhar de forma infantil no 4º golo, ao falhar mais um pontapé (a insegurança defensiva da equipa começa no medo que alguns jogadores sentem em colocar a bola jogável ao pé para o seu guarda-redes), originando o lance no qual André Almeida foi papado pela sua ala e o guarda-redes do sporting, não conseguiu melhor reacção ao cruzamento venenoso lançado do que oferecer o hat-trick ao avançado do Bayern. Muller tornou-se para já o melhor marcador da prova, num jogo em que os alemães não fizeram muito mais do que aproveitar todos os erros da defensiva português e circular bola à mercê da falta de pressão do meio-campo luso.

5. A curiosa inversão de discurso de Paulo Bento – Na flash-interview\conferência de imprensa\zona mista, o seleccionador nacional começou por culpabilizar a arbitragem de Mazic como o motivo principal da derrota portuguesa. Ainda a tempo, na conferência de imprensa, o seleccionador português conseguiu ter o discernimento necessário para por a mão à consciência, fazer uma leitura de jogo que habitualmente não faz no banco e mudar o seu discurso, escapulizando ali o leitmotiv principal da nossa derrota: o fraco futebol praticado em Salvador da Baía pelo onze luso.

6. O que é que está realmente a falhar?

Há muito tempo que defendo que esta direcção da FPF tem que rolar. A estratégia de Fernando Gomes para a FPF é só e somente uma: encher os cofres da Federação. A actual direcção da FPF é, na sua génese, um amontado de gente ligada ao futebol que pouco percebe deste, pouco o viveu por dentro (mesmo quem o viveu como é o caso do próprio seleccionador ou do vice João Pinto, não tem as competências necessárias para ocupar os cargos que ocupa; nem Paulo Bento é treinador; é um seleccionador de recurso porque um seleccionador a sério jamais permitiria o fandango instalado junto da equipa; os amigáveis inconsequentes, o estágio nos Estados Unidos, estágio que em nada beneficiou a evolução que se pretendia para esta equipa; os programas de televisão gravados pela televisão pública nos estágios da selecção; as sessões de treino à porta aberta e como tal pagos; os diversos anúncios realizados com jogadores; João Pinto é no fundo mais um comedor que por lá anda; caso contrário estaria desempregado como estão actualmente muitos jogadores da sua geração) – permitindo um ambiente incontrolável à volta do grupo, factor que retira sossego e equilíbrio ao grupo. Sem sossego, sem equilíbrio, nenhum grupo de atletas consegue chegar aos resultados pretendidos. Quando se opta por uma via completamente economicista no futebol, os resultados haverão de ficar para 2º plano. Qualquer equipa de futebol vive dos resultados. Uma Federação não pode viver dos lucros, apesar de Gomes pensar que sim. Fernando Gomes e a sua direcção tem como fétiche o novo estádio nacional. Portanto será lógico que aproveitem todo o hype gerado em volta da selecção para capitalizarem todos os fundos que possam canalizar para o empreendimento que tencionam levar avante.

Há sensivelmente 4 anos no comando técnico da selecção, tomando em conta que Bento trabalha com estes jogadores desde que chegou ao cargo, considero de uma incompetência tamanha o facto desta selecção não ter uma identidade de jogo própria. Há 4 anos que andamos a comer a mesma trampa de Bento: a pura Ronaldo-dependência num lote de convocados que em pouco diverge daquele com que Bento se estreou na selecção, cheio de jogadores muito amparados por este seleccionador nacional como o foram e são Nani, Raúl Meireles, Veloso e João Pereira. Bento não abdica de alguns jogadores, sendo-lhe completamente indiferente o desempenho destes jogadores, a sua forma física no momento, a sua utilização durante a época no clube. Os resultados estão visíveis à vista desarmada.

7. O jogo contra os Estados Unidos.

Paulo Bento e o seu staff tem 6 dias para recuperar psicologicamente uma equipa que deve ter saído completamente arrasada de Salvador da Baía. Hugo Almeida afirmou na conferência de imprensa que é nestas alturas complicadas que um povo “sofredor. um bocadinho grande” e que uma equipa por consequente sofredora, costuma agigantar-se nestes momentos. A ver vamos se, à semelhança daquilo que aconteceu em 2004 e 2012, depois de duas derrotas em jogos inaugurais, a equipa dá a volta por cima ao momento complicado que se irá viver durante esta semana.

Nota final: nos próximos dias irei postar a análise que tenho feito a alguns jogos deste mundial.

Comments

  1. Fernando says:

    Oh meu caro… Portugal não joga nada com Paulo Bento?….. mas nem precisa do Paulinho para nada!… então Portugal não tem o melhor jogador do mundo?…. o que queremos mais?
    Nem todas as selecções se podem gabar de tal fenómeno.
    O arbitro e’ que foi um canalha. Estragou o orgasmo nacional. Sim o orgasmo nacional! Porque o futebol e’ a UNICA modalidade que une os portugueses.
    Aqui na estranja e´ ver os meus compatriotas garbosamente envergar uma jersey com o logo tipo da FPF no peito – para se afirmarem que são orgulhosamente portugueses – e para não ficarem desequilibrados ostentam um nome de um jogador (normalmente Ronaldo) nas costas.
    Findo o orgasmo futebol, puta que pariu a Portugal, e ate’ alguns dizem ter vergonha de ser portugueses.
    Somos o que somos….enfim portuguesadas…..

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  1. […] João Branco já fez ontem uma boa análise do jogo Portugal – Alemanha. Acrescento que, seja no futebol, na política ou nos negócios, não triunfaremos enquanto […]

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