Fatos, fatos, fatos: muitos, muitos fatos

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 "Any minute now I’m expecting all hell to break loose"
Bob DylanThings Have Changed

António Costa aceitou o desafio do jornal Observador, respondeu às perguntas do Political Compass e, aparentemente, não terá pestanejado quando leu esta tradução de “It’s a sad reflection on our society that something as basic as drinking water is now a bottled, branded consumer product”:

O fato de a água que bebemos ser um produto de consumo de marca e engarrafado é um triste reflexo da sociedade em que vivemos.

Aliás, este “fato de a água” nem sequer é uma tradução: é o produto de uma deturpação da versão portuguesa, criada pelo Público:

O facto de a água que bebemos ser um produto de consumo de marca e engarrafado é um triste reflexo da sociedade em que vivemos.

Sim, o problema é grave. Efectivamente, este fato é um triste reflexo da sociedade em que vivemos. Considerando a gravidade do problema, prometo aos leitores do Aventar alguns meses de descanso sobre este assunto.

Em 21 de Março de 2013 (ou seja, há cerca de ano e meio), o ILTEC pronunciou-se nos seguintes termos, acerca de documento que fiz chegar à Assembleia da República e no qual apontava “erros e inconsistências”:

Não pode, pois, concluir-se que antes da aplicação do AOLP90 não havia variação ou erros deste tipo em documentos escritos, oficiais ou outros, nem que a regra existente para a escrita de sequências consonânticas não levantava problemas. Tal não invalida, é claro, que sejam legítimas as preocupações que o autor expressa no seu trabalho.

Esqueceu-se foi o ILTEC de salientar o carácter episódico das ocorrências “antes da aplicação do AOLP90”. Aliás, desafio o ILTEC a encontrar 10 (dez!) ocorrências de fatos em qualquer edição do Diário da República redigida de acordo com as regras de 45/73. Como escrevi no trabalho em que manifesto “preocupações” que o ILTEC amavelmente considera “legítimas”:

Quando a repetição adopta um grão de areia, por exemplo, a palavra fatos no lugar de factos, em “menção de que o candidato declara serem verdadeiros os fatos constantes da candidatura”, os resultados estão à vista.

Sim, continuam à vista. Um ano e meio depois, no sítio do costume.

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24807);

Identificação do requerente (nome, data de nascimento, sexo, nacionalidade, número de identificação fiscal e endereço postal e eletrónico, caso exista e contato telefónico) (p. 24807);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24808);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24809);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24811);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24812);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24813);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24814);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24815);

Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura (p. 24817);

Os candidatos que exerçam funções no Agrupamento de Escolas do Bom Sucesso, [sic] estão dispensados da apresentação dos documentos comprovativos dos fatos indicados no currículo, desde que, expressamente, refiram que os mesmos se encontram arquivados no seu processo individual, nesses casos, o júri do concurso solicitará oficiosamente os mesmos ao respetivo serviço de pessoal (p. 24823).

 

Post scriptumSoube anteontem, através de um jornal alemão. Parabéns, selecção. Exactamente: selecção. Pouco versado na matéria, devo confessar que, até Marcos Freitas, Tiago Apolónia, João Monteiro, João Geraldo e Diogo Chen, a minha única referência era o saudoso Benjamin Shorofsky:

Lydia Grant: What sort of equipment are we talking about here?
Benjamin Shorofsky: Table tennis. Folds right up against the wall when I’m not using it. Be no bother at all.
Lydia Grant: You’re talking about a Ping-Pong table?
Benjamin Shorofsky: Please. Table tennis. Not Ping-Pong.
Lydia Grant: Well, yes, but are you sure that’s gonna be enough exercise for you? I mean, what about real tennis? You know, they have indoor courts you can use.
Benjamin Shorofsky: Table tennis is very real. Thank you. And what you call real tennis is bad for pianists. Builds up the forearms in the wrong way. Loses flexibility.
***
Lydia Grant: Mr. Shorofsky!
Benjamin Shorofsky: Yes? Good morning. How are you?
Lydia Grant: – I’m fine. You left that Ping-Pong ta…
Benjamin Shorofsky: Table tennis.
Lydia Grant: Whatever you call it, you left it in the middle of the dance floor.
***
Benjamin Shorofsky: Is Mrs. Peyton-Smythe a good sport? Because I’m likely to beat her, you know.
Lydia Grant: She said she played some Ping-Pong
Benjamin Shorofsky: Table tennis!
Lydia Grant: …when she was in school, but that was 10 or 15 years ago.

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