Não é preciso gostar de Charlie para ser Charlie

Surgem, em muitos media – e aqui também -, numerosos textos, sérios e interpelantes uns, grosseiros e ressabiados outros (Sinel de Cordes, a malta não te evita por seres um ousado provocador, mas porque, as mais das vezes, não tens piada).

Por mim, não vejo o problema nem tenho reservas em estar com todos os que são “Charlie” e não lhes vou, sequer, perguntar se conheciam o Charlie que dizem ser. Entendo que, sejam quais forem as opiniões que tenham sobre a revista, as pessoas sentiram o perigo da situação e o tiro no peito da liberdade. E é este ponto, penso eu, que leva a esta quase unanimidade na condenação inequívoca do atentado e na onda de solidariedade que se levantou.

É que o direito à liberdade de expressão não é dos jornalistas: é de todos nós. E como tal foi sentido. Muitos dos que mostram a sua solidariedade seriam alvos do Charlie Hebdo ou não escondiam a sua hostilidade ao hebdomadário? É verdade. E daí? Porque lhes querem vedar o direito de manifestar a sua indignação cívica? O Charlie Hebdo era (é!) uma revista iconoclasta, desbragada, ofensiva. Ela desafiava os limites da liberdade. E é exactamente isso que despertou as consciências. E isso é bom. Muito bom. E não nos surpreendamos por este caso ter ganho esta importância avassaladora. Sabemos bem que muitas outras vítimas houve, em dias recentes, em atentados terroristas igualmente sangrentos e cruéis. Porém, não podemos separar estas ocorrências das significações que lhes estão associadas.

As vítimas têm a mesma dignidade humana, mas o significado dos atentados é, inevitavelmente, valorizado de modo diverso, conforme o seu sentido e os perigos e desafios que fazem adivinhar no nosso futuro. Por isso, recuso a pretensão de julgar os que se indignam e a indagar das suas razões. Somos livres. E também os que morreram são mortos da nossa liberdade.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Sr. José Gabriel,
    O jornal foi atacado e mataram aquelas pessoas, os polícias e até as pessoas da limpeza. O móbil do crime, segundo alegaram foi a publicação das caricaturas de Maomé. Então os polícias eram jornalistas e que responsabilidade tinham.
    Do meu humilde ponto de vista esta acção terrorista (militar) é mais uma acção de poder exercida por alguém (organização) que doutrinou e forneceu alguma logística para este atentado. Isto é guerra, não é um acto isolado por discordância-vingança por se ter desconsiderado ou maltratado as convicções ou símbolos de uma religião. Isso foi o móbil recente.
    Por isso não remete para o problema de liberdade de expressão, mas para a Liberdade e o seu exercício.
    Eu sou Charli! Significa que estou em guerra contra essa organizações ou organizações que organizaram e mandaram executar este acto de guerra.
    Os totalitarismos tem muitas facetas. Servem-se muitas vezes da religião para legitimarem o seus actos. A História está cheia disto mesmo entre os cristãos relativamente ao não cristãos.
    Como sempre acontece numa guerra, temos muitas vezes o inimigo dentro de portas: espiões, traidores. sobretudo os traidores estão na nossa rua que se vendem por inveja e despeito. São da nossa religião e vão ao mesmo mercado.
    Deixo este apontamento. A França foi atacada e curiosamente, é dos países europeus que tem relações antigas com os árabes e muçulmanos. Claro também fez muita asneiras enquanto potência no mundo árabe.
    Olhe,a a pretexto deste atentado diz-se e faz-se muita coisa que é pura manipulação neste processo de guerra.
    Esta manifestação é uma asneira e logo a propósito da “republica”. Há mais vida para além da republica.
    Por favor repare que o dito ocidente só tem feito asneira no oriente. Já humilhou muitas vezes estados árabes ao longo da história. Acha que eles aceitam sempre isso?!
    Claro, nada justifica a morte dos jornalistas, policias e pessoas da limpeza. Mas a guerra é justificável?! Isto que aconteceu é um acto de guerra e não um episódio de 3 loucos que um dia decidiram matar por causa do profeta . Esta ideia é uma ideia distorcida pela simplicidade da mesma.
    O poder dá cá uma pica!!! E a ideologia dá cá uma masturbação intelectual!!!
    Depois da excitação noticiosa de hoje a pretexto da manifestação que fica depois?! Saberemos pelo curso da vida…
    Quem ganha?! Olhe que o terrorismo e a guerrilha são também muito poderosos e talvez mais do que drones e outras maquinetas que nos sugam o dinheiro dos impostos.
    Desculpe se me excedi. Para além liberdade de expressão devemos fazer um auto controlo mas podermos viver em relação aos outros cidadãos. Há domínios d vida colectiva que deveriam ser respeitados independentemente de com eles concordarmos ou não. Convicções religiosas, políticas, apesar de as podermos discutir com elevação, mas não achincalhando.
    Bom Domingo

    • José almeida says:

      Rui Moringa, não o conheço, mas os meus parabéns por ter exercido o seu acto de LIBERDADE DE IMPRENSA sem ter tido necessidade de beliscar a LIBERDADE, seja ela a sua, seja a dos outros. Sustento, que o atentado ao Charlie Hebdo não foi um atentado à liberdade de imprensa. Acho que este sistema político e social está em vias de extinção, e não se sabe muito bem como vai acabar. O ‘DINHEIRO’ compra tudo, até a liberdade de imprensa. Hoje a Liberdade de Imprensa é como os Direitos Humanos, interpretamos consoante a nossa conveniência. Eu, sou absolutamente contra a perseguição de qualquer pessoa por motivos religiosos, políticos ou de cariz sexual. Mas, sinceramente, não sei se sou ‘Charlie’.

      • Rui Moringa says:

        Sr. José Almeida,
        Agradeço a sua atenção.
        Concordo consigo, que os sistemas políticos mesmo os democráticos devem actualizar-se para fazer a Justiça que precisamos e não apenas o Direito dos que governam e abocanham o poder depois de nos enganar, democraticamente.
        Sabemos eu são as emoções que tomam o poder e governam o mundo, mas é preciso meter alguma racionalidade nisto tudo.
        É apenas uma opinião, singela. A prazo estarei morto como todos os falantes com muita ou pouca consciência dos dias de hoje.
        Bom Domingo.


  2. Estou em França a viver há pouco mais de dois anos. Senti o agravar do desconforto entre uns e outros, sobretudo com as medidas de Hollande – mais pro-emigração – do que sarkozi. Quando o atentado aconteceu foi como um banho de água fria. O ataque à liberdade de expressão no país de Voltaire. O slogan “je suis Charlie” surgiu poucas horas depois. Varias interpretações surgem desse “je suis Charlie” – para mim ser Charlie não é ser a favor da liberdade de expressão, usá-la, lutar por ela. Seremos todos Charlie nesse caso? Escrevi no meu blog sobre o que sinto. No quanto “eu não sou Charlie”. Deixo o link https://agoradigoeu.wordpress.com/2015/01/08/nao-sou-charlie/

  3. Rui Moringa says:
    • LindaMenina says:

      Parece que a causa do despedimento do Siné foi uma crónica, e não um cartoon, publicado no Charlie Hebdo em 2 de julho de 2008. O texto dizia : « Jean Sarkozy, digne fils de son paternel et déjà conseiller général de l’UMP, est sorti presque sous les applaudissements de son procès en correctionnelle pour délit de fuite en scooter. Le Parquet a même demandé sa relaxe ! Il faut dire que le plaignant est arabe ! Ce n’est pas tout : il vient de déclarer vouloir se convertir au judaïsme avant d’épouser sa fiancée, juive, et héritière des fondateurs de Darty. Il fera du chemin dans la vie, ce petit ! ».

      O CH acabou por ser condenado a pagar-lhe uma indmnização.

      Conclusão : assinem também o Siné Hebdo

  4. Rui Moringa says:

    Porque não entro na “bebedeira” de tipo: eu sou charlie e a minha ideia de que não foi uma obra de puros loucos começa a vislumbrar-se.


  5. Reblogged this on O Retiro do Sossego.


  6. Ai a TAP exerceu o seu direito de LIBERDADE grevista e quem precisava da TAP para visitar a família no NATAL não tiveram liberdade de o fazer ?? Esses pilotozinhos têm mitos direitos e liberdade de os tirar aos outros Interessante – Tanto direito desumanizante – estúpido e maldoso – coitados ganham pouco e têm poucos direitos e arranjaram uns direitinhos suplementares


  7. Como os médicos que também usaram o direito de ir para férias e os doentes morreram de tanto esperar e com ataques de gripe terrível em tempo de inverno de temperaturas a rondar zero O RAIO Que os parta com os seus DIREITOS tão tortuosos – muito humanos e humanistas Vivo num pais em que cada vez há mais merda mais merdosa – EMIGREM


  8. Férias de NATAL claro – foram fazer o PRESÉPIO – muito pios Mas que cambada de humanos andam por aí

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