Papá, estás aí?

Elsa Wolinsky

Papa-t-es-la-par-Elsa-Wolinski_desenho de Zep

Papá, estás aí? Estás-me a ouvir?
Se estás aí manda-me um sinal. Faz-me um desenho.
Pois é, não me ouves, já desconfiava.
Desde que morreste, digo a mim própria que já deverás saber se Deus existe ou não.
Toda a gente te imagina no céu, com raparigas nuas, a meterem-se contigo. Mas eu sei o que estarás a fazer. Terás pedido uma caneta para desenhares uma mesa, folhas e uma lâmpada. E depois, agora, desenhas uma sósia da mamã para que ela esteja contigo, mesmo aí em cima. Ah, e depois fizeste uma cama para a tua sesta. Para os Wolinski, a sesta é sagrada.
Sabes, durmo na tua cama. Espalhei o meu perfume pelo teu quarto que cheirava demasiado a ti. É estranho deitar-me no teu lugar. Mas estou bem contigo, entre os teus lençóis. A mamã ofereceu-te umas calças, não tiveste tempo de as experimentar. Já agora, papá, aproveito, será que posso usar as tuas camisolas de caxemira?
Papá, a Elle pediu-me para te escrever uma carta, mas não tenho tempo. O telefone não pára de tocar e tenho de tratar da mamã. Sabes, ela tem-se safado. Anda bonita, como de costume. As minhas irmãs também cá estão. Temo-nos ajudado umas às outras. E depois temos encontros estranhos no nº 36 da rua des Orfévres para ir buscar as tuas coisas. Tenho a sensação de estar dentro de um dos nossos famosos livros policiais, de que tanto gostávamos. E depois, nas cerimónias fúnebres, para te escolher uma urna e um bom talhão. Não imaginávamos, mas é mais difícil escolher uma urna do que uns sapatos Prada. Gostava de ficar com a tua urna, passeava-te na minha mala, colocava-te ao lado da minha cama.
Papá, deixa-me perguntar-te: “Será que sofreste?” É a minha angústia, sabes? Tenho medo de que tenhas tido medo, tenho medo de que tenhas sofrido. Mas eles só te atingiram no peito, não vemos as tuas feridas.
Estás bonito, sabes, com esse pano branco em que te envolveram. Tens mesmo um ar feliz. Não ouso aproximar-me, não me leves a mal.
Gostaria de ser capaz de te abraçar pela última vez, mas não consigo. Perguntei à senhora da Medicina Legal se te podíamos embalsamar, mas ela disse que não era possível.
Papá, dir-se-ia que dormes.
Mas tu não dormes, estás morto.
Por fora, Wolinski está vivo.
Mas, para mim, não estás cá.
A Elsa perdeu o seu papá.

Publicado na Elle, tradução de João José Cardoso com a preciosa revisão de um anónimo cá da casa. Desenho de Zep, traduzindo:

– Papá, que nuvem é aquela, um cumulus?

– Um wolinskus.

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