A crise no Iémen

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Apesar da crise permanente que o Iémen vive desde o início da “Primavera Árabe”, em 2011, a demissão do Presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi, nesta 5ª-feira 22 de Janeiro, apanhou todos/as de surpresa, sobretudo após a minoria xiita houthi ter ocupado o Palácio Presidencial na 3ª-feira 20 e, de na 4ª-feira 21, ter sido assinado um acordo no qual ambas as partes se comprometiam a redigir uma nova Constituição, inclusiva e, os houthisa retirarem as suas forças que sitiavam edifícios públicos, bem como a entregarem são e salvo, o Chefe do Gabinete Presidencial, entretanto raptado.

Oficialmente, o que precipitou a demissão presidencial, foi a demissão do Primeiro-Ministro Khaled Bahah, mas acontece que os houthis também deram o dito por não dito, pressionando por mais concessões não estando de acordo também, com o projecto de federalização do país em 6 Estados, querendo apenas a existência de duas regiões distintas. Ora esta posição vem reforçar, de certa forma, as exigências do Harak Janouby, a Vanguarda Separatista Sulista, liderada pelo socialista Ali Salim al-Beidh, que quer a independência do sul, num regresso à geografia política da Guerra Fria, aquando da existência do Iémen do Norte e do Iémen do Sul. Um projecto diferente das propostashouthis, sendo que nas horas seguintes à demissão do PR Hadi, 6 líderes de 6 províncias do sul, já afirmaram que não obedecerão a Sana’a, a capital, nem aos houthis. Já há registos, aliás, de ataques a postos e carros de polícia em Áden, principal cidade costeira do sul.

A dúvida existente, a propósito de como é que uma minoria como a dos xiitas do norte (oshouthis), conseguiram descer desde a fronteira norte até ao centro da capital, em Setembro do ano passado, sem grandes dificuldades, explica-se da seguinte forma. É o ex-Presidente Ali Abdullah Saleh, com grande influência na confederação tribal Zaidi, da qual os houthis fazem parte, bem como nas Forças Armadas do país, nomeadamente na Guarda Republicana, que tem “mexido os cordelinhos”, desde que saiu de cena em Abril de 2011. Os generais Ali Mohsen al-Ahmar (meio-irmão de Saleh) e Ahmed Saleh (filho do ex-Presidente), têm sido os seus homens no terreno, na preparação do actual caos existente, para que o forte e carismático Ali Abdullah Saleh, regressar ao Poder. O demissionário Hadi sempre foi visto como fraco e temporário e Saleh como um garante de estabilidade no país. Fez a guerra e assinou a paz, na Guerra Civil de 1994, quando o seu Vice-Presidente sulista Ali Salim al-Beidh, cindiu com o norte, na tentativa de fazer o tempo voltar atrás e recuperar um Iémen do Sul independente. É desta forma que se ganham legitimidades inequívocas.

Outro actor a considerar neste cenário, é a Al-Qaeda da Península Arábica (AQPA), que domina consideráveis zonas territoriais, com acesso ao Mar Vermelho e ao Golfo de Áden. Pode-se, aliás resumir esta presença da seguinte forma, a AQPA só não tem presença no norte houthi, nas províncias à volta da capital Sana’a, na região de Áden e no leste fronteiriço com o Sultanato de Omã. De referir, que o sopro de sobrevivência que a Al-Qaeda poderá ter na actual competição com o “Estado Islâmico” (recrutamento e coordenação de acções), é feita a partir daqui.

Uma leitura macro

Numa leitura macro sobre estes acontecimentos, é necessário recuar a Setembro do ano passado, aquando do debate sobre a possibilidade de os Estados Unidos da América (EUA) bombardearem posições do “Estado Islâmico” em território sírio. Sempre foi interpretado, que um bombardeamento americano/aliado, em território sírio tomado pelos criminosos nihilistas, seria um Sim a Damasco, um reconhecimento da legitimidade do regime de Bashar al-Assad, sendo este (o bombardeamento) um pré-Sim a Teerão.

As negociações sobre o nuclear iraniano de Novembro de 2014, foram inconclusivas e adiadas para Junho de 2015. Um bom sinal, já que continuam. Outro sinal de um crescente entendimento entre americanos e iranianos, foram as declarações doPresidente Hassan Rouhani, condenando o ataque ao Charlie Hebdo, seguido, imagine-se, pela também condenação dos mesmos pelo líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah.

Este ambiente de substituição preferencial de um Iraque esfrangalhado por um Irão nuclear, face a uma Arábia Saudita que em 2010 fechou o maior negócio militar de sempre com os EUA (60 mil milhões de dólares), projecta-se no que se designa porProxy War, no território iémenita, já que os houthis xiitas são armados pelo Irão e ou outros, a gosto, pela Arábia Saudita, encabeçados pelo preferido de Washington, o ex-Presidente Saleh.

O registo do Novo Médio Oriente, ganha assim contornos de Guerra Fria, com uma guerra improvável e um conflito permanentemente iminente entre ambos os lados do Golfo Pérsico.

Última Hora

A morte do Rei da Arábia Saudita, Abdullah Bin Abdulaziz, maior aliado americano na região, tendo sido já entronizado o novo Rei Salman Bin Abdulaziz, meio-irmão do falecido.

Certamente um dado importante a desenvolver, após o descrito acima, embora seja consensual que pouco ou nada mudará, na política e objectivos seguidos pelo reino saudita.

Comments

  1. j. manuel cordeiro says:

    Bem-vindo, Raul!

  2. AntónioF says:

    Recordando a história: a ilha de Socotorá foi, em tempos, portuguesa!

    Creio, igualmente, que esteve nas cogitações de Afonso de Albuquerque conquistar Meca…

    • Raúl M. Braga Pires says:

      Exacto AntónioF, a ideia era tomar Meca, fazer refém os restos mortais do Profeta (está sepultado em Medina, acho aqui haveria um desconhecimento sobre esta localização) e obrigar os “mouros” a abandonarem Jerusálem.
      Albuquerque também tinha como projecto abrir uma ligação entre o Nilo e o Mar Vermelho, para encurtar a distância e evitar ir dar a volta ao Cabo. Em 1869 é inaugurado e Canal do Suez.


  3. Reblogged this on O Retiro do Sossego.

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  1. […] O ponto de partida para uma melhor compreensão das dinâmicas actuais no Iémen, deve passar por uma leitura prévia do texto publicado a 23 de Janeiro, A Crise no Iémen. […]

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