“Regras são regras”, diz Merkel…

… mesmo quando são arbitrárias. «O senhor Abeille inventou este número [défice de 3%] “em menos de uma hora, nas costas de um envelope”».

Comments

  1. j. manuel cordeiro says:

    Para referência, aqui fica o artigo completo. Uma delícia.

    O senhor 3%
    FILIPE ALVES
    filipe.alves@economico.pt
    26 Jan 2015
    Guy Abeille é um desconhecido em Portugal, mas poucas pessoas terão tido tanta influência na sociedade portuguesa como este economista francês, que foi conselheiro do ex-presidente François Miterrand.

    Abeille foi o criador da regra dos 3%, que estipula que os Estados não devem manter défices públicos superiores a esta percentagem do Produto Interno Bruto. Utilizada primeiro pelos governos de Mitterrand, esta regra foi depois incluída no Tratado de Maastricht, como condição para os países poderem aderir ao euro. E desde então condiciona a vida de centenas de milhões de europeus.

    Seria de supor que uma regra destas fosse pesada, pensada e ponderada. Mas não. O senhor Abeille inventou este número “em menos de uma hora, nas costas de um envelope”. O porquê desta pressa era simples: segundo o próprio confessou em Setembro de 2012 ao “Le Parisien”, o presidente Mitterrand precisava urgentemente de um número que soasse a “ciência económica” e fosse apresentada como a “norma”, de modo a poder dizer “não” aos seus ministros. “V.ª Exc.ª quer mais verbas? ‘Pardon’, mas não há. Lembre-se: 3%.”

    Chamado de urgência ao Ministério das Finanças, numa noite de Maio de 1981, Guy Abeille foi obrigado a puxar pela cabeça. Um défice de 1% não podia ser: era “impossível de atingir”. E se fosse 2%? Também não podia ser, já que colocaria o governo sob “demasiada pressão”.

    Foi então que lhes ocorreu a cifra mágica dos 3%. “Isto era um bom número, um número que atravessou todas as épocas, que fazia pensar na Trindade”, explicou ao “Le Parisien”.

    Por admirável que seja esta esperteza própria de quem conhece os meandros da burocracia estatal francesa, não deixa de ser assustador que esta regra tenha nascido desta forma. Mas mais assustador ainda é saber que esta regra, forjada há 34 anos na França de Mitterrand, é hoje tida como uma espécie de verdade revelada por uma sarça ardente e escrita na pedra para todo o sempre, juntamente com as regras da dívida pública nos 60% do PIB e do défice estrutural em 0,5%.

    Mesmo não sendo partidários do conservadorismo fiscal, podemos concordar que, não havendo necessidade de políticas contracíclicas, quanto mais baixo for o défice, melhor. Mas o certo é que, como a entrevista de Guy Abeille demonstra, povos inteiros foram submetidos a duras medidas de austeridade fundamentadas num mero rabisco nas costas de um envelope, que acabaria por se transformar em dogma. Porquê 3% e não 4% ou 5%? Por grande sorte ou profundo azar, o senhor Abeille não é adepto da numerologia chinesa: para os chineses, os números cinco e oito são mais auspiciosos que o três. E palpite por palpite, venha o diabo e escolha.

    Graçolas à parte, para voltar a crescer de verdade, a Europa precisa de mais pragmatismo, imaginação e pensamento crítico, em vez de dogmas e vacas sagradas que impedem a busca de soluções. Quanto sofrimento humano teria sido evitado em toda a Europa se, há quatro anos, em vez de austeridade cega, se tivesse seguido o exemplo dos EUA, com um programa de Quantitative Easing como o que o Mário Draghi anunciou há dias (ou um ainda mais ambicioso, com compra, em grande escala, de crédito imobiliário titularizado, como fez a Fed), juntamente com metas realistas e adequadas ao ciclo económico. Mas como fazer isto contra a vontade do país que é o principal contribuinte do euro?

    http://economico.sapo.pt/noticias/o-senhor-3_210648.html


    • Ao tentar visitar o artigo original, constato que este link já não existe. Antes era economico.sapo.pt, agora é jornaleconomico.sapo.pt. Pelo caminho, esqueceram-se de manter os links. Era fácil, bastava uma regra de encaminhamento de tráfego e alojar o conteúdo no novo domínio. Parece que não foi o caminho seguido. Este é o verdadeiro problema da conversão do papel em digital. Não temos bibliotecas digitais. Daqui a uns anos não será possível reconstruir a história.

Trackbacks


  1. […] austeridade e compromissos? Tretas. Depois da regra dos 3%, uma invenção francesa para encher chouriços, eis que em causa não está um qualquer enchido, […]


  2. […] homem do seu tempo. Defende o mercado livre e a redução do défice das finanças públicas, talvez por ter lido as costas do envelope do seu colega. Acha que reformas estruturais correspondem a redefinir o mercado de trabalho e defende que os […]

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