As manobras do poder

À hora a que escrevo, a Carta Aberta de Alexis Tsipras aos Leitores do Handelsblatt e o artigo Não há tempo para jogos na Europa somam entre si 12 mil partilhas no Facebook. Outros textos sobre o que se passa na Grécia são também habitualmente populares aqui no Aventar, indicando, claramente, que os portugueses não estão desatentos quanto ao desenrolar desta crise política europeia.

Há uma bola de neve que começou na Grécia e, tal como aconteceu com a expansão das revoluções da Primavera Árabe, pode tornar-se na avalanche que derrube a hegemonia nórdica, alemã, sobretudo. A popularidade destes textos, bem acima do habitual não só deste blog mas também do panorama nacional, aponta para que não estejamos apenas perante wishful thinking.

O poder estabelecido tem usado várias tácticas de contenção, tais como a desacreditação, negação, pressão politico-económica e jogadas baixas. Vale a pena rever brevemente cada uma delas. No domínio da desacreditação, houve a estratégia de passar a mensagem de que o ministro das finanças grego estaria aplicar a teoria dos jogos às negociações, convertendo-as num acto de bluff. Vários artigos, na imprensa internacional e, também, nacional, desencantaram um tema académico que Varoufakis leccionava na faculdade, algo que não fazia parte do domínio do grande público, para procurar colar-lhe uma imagem de descrédito e, consequentemente, associá-lo a negociações que não seriam para levar a sério. Numa primeira fase, a estratégia resultou plenamente, a tal ponto que não haverá conversa de café onde não seja plausível que alguém explique detalhadamente a teoria em causa. Ao menos, foi um spin que aumentou os conhecimentos de matemática aplicadada da generalidade dos europeus. Mas o ministro das finanças grego desmontou com hábil retórica esta colagem e o tema caiu.

Quanto a negação, a estratégia tem assente em negar que os gregos queiram negociar, vendendo a ideia de que estão irredutíveis nas suas exigências. As sucessivas cedências nas posições gregas demonstram que a realidade é outra, o que tem também sido aproveitado, em paralelo, para desacreditar o governo grego, como estando a desistir das suas posições iniciais. Numa negociação, ambos os lados partem de posições inconciliáveis para se aproximarem de um ponto aceitável para ambos. A estratégia da negação permite não reconhecer a negociação e, consequentemente, fechar a porta a ímpetos semelhantes noutros países.

A pressão politico-económica, exercida com a subtileza de um elefante numa sala de vidros, consistiu até agora na retirada do acesso a crédito, ultimatos e declarações violentas e provocatórias. A Alemanha pretende conduzir a Grécia a uma situação perde-perde, obrigada a escolher entre desistir de mudar o rumo da sua política ou falir. Aqui, sim, vemos a aplicação da teoria dos jogos, mas o desfecho poderá ser de elevado perigo. Situações extremas conduzem a soluções extremas e poderemos assistir, a médio prazo, a uma Grécia à procura de outros aliados, com o risco de um conflito armado numa Europa pouco militarizada. Repare-se no apoio popular que tem o governo grego e no orgulho ferido de uma nação inteira para se perceber que o perigo é real.

Ao nível das jogadas de baixo nível, o governo português deu cartas, aliando-se ao carrasco, em busca das migalhas que lhe possam valer trair os seus colegas de jangada. E algumas delas cá chegaram, com a autorização para que Portugal trocasse parte da sua dívida à troika por outra dívida constituída por crédito obtido no mercado a juros mais baixos. Nada contra que se procure pagar menos juros pelo crédito mas, note-se, a operação poderia não ter sido autorizada, já que o negócio anterior era mais favorável aos credores.

A artilharia do poder tem sido pesada, de canhões apontados à rebelião grega, não vá esta passar à Espanha, que tem eleições em breve. Daí a Portugal seria um passo e franceses e italianos, que também estão a caminhar sobre brasas, logo seriam candidatos naturais à insurgência. As próximas semanas serão determinantes para o nosso futuro e este está, em grande medida, nas mãos de uns quantos amadores burocratas (veja-se como desencadearam uma guerra na Ucrânia com essa ideia da adesão à UE e à NATO), testas de ferro de um pequeno grupo de detentores de capital, cada vez a enriquecerem mais com a crise europeia.

Comments

  1. Nightwish says:

    Muito bom resumo da situação.

  2. j. manuel cordeiro says:

    Entretanto, de ontem para hoje, a crónica “Não há tempo para jogos na Europa” passou de 7K+ partilhas para 8K+ partilhas no Facebook. Notável para um texto político.

  3. Brilhante J., parabéns 🙂

    • j. manuel cordeiro says:

      É que, na ausência das jóias, penhoradas por causa da troika, usei usei o limpa-pratas como tinta. 🙂

  4. julia principe says:

    Este problema da “UNIÃO” trouxe-me ansiedade e revolta…Europeus, antes de tecnocratas devem progredir para serem educados, tornando a mente livre para perceber a diferença entre Existir e Sobreviver! O meu desejo é
    a construção de sistemas que libertem o HOMEM da angústia do Amanhã e lhe dêem espaço e tempo livre, para ser PESSOA! O coração dum ser humano é do MUNDO! Até amanhã! Até sempre!

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