Imagens de choque nos maços de tabaco

Dentro de dias será apreciada uma proposta de lei que pretende introduzir nos maços de tabaco imagens de choque para persuadir os fumadores a abandonar o vício. Estive a ver todas, exercício penoso para o estômago, e diria que se dividem em dois grupos: as que provocam repulsa – pernas gangrenadas, pulmões cancerosos, gente a cuspir sangue – e as que angustiam – um casal a chorar sobre o caixão branco de uma criança, uma jovem numa cadeira de rodas depois de um AVC, um rapazito frente a uma lápide, no cemitério. Há ainda duas ou três imagens que parecem, em comparação, inofensivas e que “apenas” mostram homens de aspecto deprimido entre lençóis, confrontados com uma suposta perda da virilidade ou de espermatozóides férteis. Lembrei-me de um amigo que quando compra um maço de cigarros no quiosque pede para vê-los todos para escolher a mensagem de aviso, evitando sempre as que alertam para cancros e enfisemas, e dando preferência às que só remetem para a infertilidade e para a disfunção eréctil. Será talvez um dos poucos fumadores que ainda lêem os avisos que vêem nos maços.

Vi maços com imagens destas há uns anos, no Brasil. Poucas semanas depois de começarem a ser vendidos os primeiros maços com fotos chocantes, nos quiosques começaram a aparecer caixas de cartão, com diferentes motivos, e com a medida certa para enfiar lá dentro o maço e assim tapar as imagens. As caixas eram baratas de produzir, os quiosques podiam vendê-las por um preço muito baixo ou até oferecê-las, e eram resistentes e reutilizáveis. Não havia fumador que não andasse com o maço bem tapado dentro da sua caixa de cartão. Não consultei dados sobre o alcance da medida, mas, pelo que vi nas ruas, duvido que tenha contribuído para a redução do consumo de tabaco.

Por estes dias, não sei se enquadrar-me na categoria de fumadora ou ex-fumadora. Levo duas semanas de abstinência, um pequeno passo para o vício, um grande passo para quem o tenta deixar, e honestamente não sei se vou conseguir manter-me longe do tabaco. Mas continuo a tentar e não preciso de ser convencida acerca dos seus malefícios. Aborrece-me, isso sim, a sanha contra os fumadores, esse fundamentalismo que começou a soprar dos EUA e tem varrido tantos países. Parece-me lógico que se proíba o fumo em lugares públicos, mas não vejo sentido na erradicação de espaços para fumadores em locais em que era possível mantê-los sem prejuízo dos não-fumadores. E não deixa de ser curioso que a insistência na culpabilização do tabaco e de quem fuma pelos prejuízos para a saúde pública conviva hipocritamente com níveis altíssimos de poluição nas cidades, produtos agrícolas contaminados com pesticidas, comercialização de alimentos transgénicos sem que essa informação seja dada ao consumidor, etc.

Conhecem a história de Nakuru, no Quénia? É a primeira cidade do mundo sem fumo. Ali é proibido fumar nos espaços públicos, incluindo as ruas. Mas nos arredores da cidade existe, há décadas, uma gigantesca lixeira a céu aberto, e onde vive mais de uma centena de famílias. Toneladas de lixo ao sol, sob temperaturas acima dos trinta graus, produzem um cheiro nauseabundo e são queimadas regularmente, sem nenhum tipo de protecção, espalhando nuvens de fumo pelos arredores.

Duvido muito da eficácia (já para não falar da decência) de uma campanha que recorre a imagens de caixões de crianças para dissuadir um fumador de acender um cigarro. As pessoas, mesmo as fumadoras, não são estúpidas e imagino que se sentirão manipuladas. E nem todos os fumadores têm o hábito de fumar em casa, muito menos de cuspir fumo para a cara dos seus rebentos. A aposta nas consultas de cessação tabágica e na sua divulgação parece-me mais acertada e é pena que a proposta apenas refira a “eventualidade” de incluir nos maços referências aos serviços de apoio nos centros de saúde para quem quer deixar de fumar. Mas Portugal, aquele que até foi o primeiro país do mundo ocidental a legislar limites de teor de sal no pão, preferiu sempre proibir a educar.

Se a preocupação com a saúde das crianças é genuína, tenho uma proposta para os legisladores: atentem nos números da obesidade infantil em Portugal e nas suas gravíssimas consequências, e proíbam as cadeias de fast-food de lançar campanhas direccionadas para o público infantil, com bonecos e brinquedos incluídos nos menus, e anúncios nos canais de desenhos animados. Repare-se que não se trata de proibir a venda dos produtos, tão só o recurso a campanhas agressivas para um público-alvo que não sabe defender-se delas.

De resto, será útil porque, a julgar pelos sinais, suspeito que os alvos da próxima sanha moralizadora dos consumos nocivos serão os gordos, contra quem se vão ensaiando os ataques.

Comments


  1. Felizmente deixei de fumar em 2004, no dia em que escolhi após várias tentativas falhadas, mais por culpa própria do que qualquer outra razão, é sempre assim, em certos momentos temos vontade, mas depois surge o pretexto que deita o esforço por terra. Cheguei a estar 4 meses sem fumar, mas depois um grande amigo chegava após um ano fora do país e lá foram mais 5 anos até à última tentativa. Duro foi 1 ano e meio depois, quando me ofereceram um Puro no Tropicana em Cuba, que não recusei nem acendi. Caramba, foi uma luta titânica comigo mesmo. Sabia que se acendesse o dito, logo ali mandaria comprar algo mais e logo se via quando seria a próxima tentativa. Fumei 25 anos e não houve campanha que me sensibilizasse. Se ainda fumasse, compraria uma cigarreira e mandaria o Estado enfiar as imagens nos políticos…
    É tão legítimo o Estado perseguir fumadores, como obesos, toxicodependentes, homossexuais, minorias étnicas, etc. Vai sempre dar ao mesmo, a maioria arvorada em guardiões do política e socialmente correcto procurando impor os seus hábitos e valores à minoria. No mundo árabe também há muito disso, costumamos apelidá-los de fundamentalistas ou talibãs… É que não vejo grande diferença entre um energumeno munido da sharia procurando doutrinar o infiel e outro invocando os gastos da sociedade pregando a higienização e moralização, advogando o que considera serem as boas práticas…
    Todos diferentes, todos felizes e fiquem-se pela informação, que as pessoas, cada uma por si, farão as escolhas que entenderem. Isso é Liberdade!!!

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Esta é a sociedade que passa do oito para o oitenta, enquanto o observador esfrega um olho.
    Esta tendência diz bem dos princípios de “Maria vai com as outras” por que se orienta: uma sociedade sem vontade própria, que não pensa em liberdade e na liberdade antes, compra tudo confeccionado, engole toda a publicidade que lhe enviam e repete à exaustão os chavões que lhe deram para decorar. Uma sociedade macia …
    E este doentio hábito chegou à política sendo as razões exactamente as mesmas: sociedade abúlica, desinteressada, preguiçosa e inculta. Felizmente, nem todos sofrem do mal.
    Eis uma história interessante sobre este tema:
    Uma ocasião uma pessoa quis comprar um maço de cigarros, sendo confrontado com frases escritas no cartão e que diziam : “Fumar mata” ou “Fumar diminui a potência sexual”.
    Ao pegar num maço onde estava escrito, “Fumar diminui a potência sexual”, virou-se para o vendedor e disse-lhe. Por favor, dê-me antes dos que matam…
    Há quem saiba o que é a liberdade, recusando a hipocrisia de uma sociedade que cria mecanismos sistemáticos para matar lentamente, alguns dos quais António de Almeida tão bem aborda.
    Hipocrisia, ausência de opinião, falta de cultura, populismo, seguidismo, falta de participação e de combate são as verdadeiras maleitas desta sociedade. E para estes problemas, não existem fotografias, excepto o filme que por nós passa todos os dias.


  3. Não comento o post apenas a frase

    “Levo duas semanas de abstinência, um pequeno passo para o vício, um grande passo para quem o tenta deixar, e honestamente não sei se vou conseguir manter-me longe do tabaco”
    Carla
    Deixei de fumar à 9 anos +ou-.Frequentei uma consulta de psicologia em grupo num hospital, que abandonei. Ao longo da minha existência acho que fiz dezenas de tentativas todas sem êxito. Até ao dia que a minha pneumologista me disse: Adelino ou pára ou é a pique (exactamente este termo). Vá a farmácia e compre …….Deixei de fumar, fumando.
    Haverá muitos produtos para ajudar a deixar de fumar e por isso não menciono o nome, mas se quiser saber disponha do meu e-mail.

  4. Fernando Torres says:

    E imagens de choque de políticos que valem zero?

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