Os angariadores de seguros

Os neoliberais têm uma avença com as companhias de seguros: eles vendem-lhes os produtos PPR e seguros de saúde, elas lá arranjam forma de retribuir, e mesmo que não o façam directamente tratando-se de defender um negócio o verdadeiro neoliberal também trabalha à borla.

O que está a dar é demonstrar que a Segurança Social está condenada ao fracasso. No caso português imaginemos um tipo espancado até à morte, e que antes do golpe final ainda tem de ouvir: estás a ver, a tua vida era insustentável.

Utilizaram a cobardia de quem chamou a troika porque não tinha fundos para pagar a dívida (estamos bem pior), utilizaram a troika para ir para lá dela depois de uma campanha eleitoral onde prometeram que não o fariam, e com a destruição propositada do emprego conseguiram, além do objectivo óbvio de baixar os salários o bónus de colocar a Segurança Social em muito maus lençóis. Seja porque somos menos a contribuir (menos 600 000 desde 2008), seja porque alguns ainda recebem subsídio de desemprego.

A teoria geral do neoliberalismo é a de que a Segurança Social é um esquema tipo D. Branca. É falso, as contas estão feitas, haja pleno emprego e aumento de produtividade e a viabilidade existe. Mas é verdade que o risco de políticas que levem à destruição do emprego e por tabela da segurança social existe. Destruir a segurança social foi um dos objectivos conseguidos de Pinochet e os seus discípulos, na versão pseudo-democrática que se disfarça de liberal, insistem.

Sucede que a História não acabou. Acontece que os reformados votam. E a lavagem ideológica que levam perde a eficácia no momento em que vêm os seus direitos ameaçados. Isso sabia evitar Pinochet, mas já não o conseguiu Thatcher.

Não vou fazer nenhum PPR porque confio na viragem da História. Mas principalmente por outra razão: é que as companhias de seguros também vão à falência. Quem quiser acreditar no mercado, que reze, eu prefiro acreditar na democracia.

 

Comments


  1. Muitos portugueses têm um PPR, já perguntaste porquê? A resposta é simples, porque as regras são contratualizadas, todos sabem quanto têm que depositar e quanto irão receber… O Banco ou seguradora não podem alterar as condições do contrato, sob pena de acabarem em Tribunal…
    Em rigor nem sei o que será um neoliberal, mas seguramente a fazer fé no que afirmas, existirão em Portugal centenas de milhares de neoliberais, talvez até mais que um milhão de neoliberais, provavelmente votantes do MRPP ao PNR, ainda que a maior parte concentre votos nos partidos do Bloco central… Fora os que nem votam, entre os quais me incluo, que também têm PPR e estão inscritos na SS…
    Quanto ao esquema D. Branca, isso é um sucedâneo, chama as coisas pelos nomes, o autor foi Ponzi, trata-se de esquema em pirâmide. Funciona enquanto a base contributiva for maior que o número que recebe remuneração. Isso é uma evidência matemática… Não tens volta a dar, a manter a filosofia do sistema actual de SS ele irá colapsar por força da demografia. A não ser que aumentes as taxas até níveis que ninguém estará disposto a pagar.
    Mas porque não quero com isto afirmar que a existência da Segurança Social é insustentável, o seu actual modelo sim, é, pode-se sempre virar agulhas, procurando novas fontes de financiamento. Tudo é discutível, mas isso implica aumento de impostos, novos impostos, ou diminuição de prestação de outro tipo de serviços para afectar verbas à segurança social, mantendo o actual nível de esforço contributivo…
    Quanto ao pleno emprego, resta-me deixar-te uma pergunta, falas de pleno emprego conseguido através da pujança económica, ou emprego criado por Decreto? É que o emprego pressupõe remuneração, e caso seja criado por Decreto, alguém estará a criar artificialmente… E não me parece que dar um porco para receber um chouriço possa criar riqueza, mesmo que o porco seja pago pela comunidade, até porque o chouriço também será para dividir por todos…


    • Estão contratualizados? vai ver o que aconteceu às reformas dos norte-americanos cujas seguradoras faliram.


      • Não precisas ir aos EUA, faz parte das regras do jogo. Tens o caso do BES/Novo Banco. Depósitos estão garantidos (até determinado montante) pelo fundo de garantia de depósitos. Os produtos financeiros incluem activos de risco. Nada contra, subscreve quem quer, mas é de bom senso não colocar os ovos todos no mesmo cesto (sabedoria popular). Tudo contra a vigarice, enganar pessoas, levá-las a subscrever o que não querem. Mas cuidado que a fronteira é ténue, muitas vezes as pessoas são tentadas a arriscar pelo histórico de ganhos, se não estão consolidados, vai existir bolha no futuro e rebenta sempre nas mãos de alguém…
        A actividade seguradora é das que mais tem beneficiado a Humanidade, mas não são associações de beneficência e nem sempre as pessoas estão preparadas… Basta pensares em colheitas, pragas, fenómenos da natureza, para constatar o facto.


        • No mundo dos unicórnios cor-de-rosa deve ser assim. No mundo real os fundos de pensões vão à vida. Como de resto foram no Chile, obrigando a que o estado tivesse de intervir novamente.
          Estas continhas são muito fáceis de fazer: o objectivo das seguradoras e afins é o lucro. O objectivo da Segurança Social é o mesmo menos o lucro.
          Qual é que tem mais viabilidade?


          • O vosso problema é sempre o mesmo, odeiam o lucro e quem o consegue.
            Define o conceito de investimento. Ao investir, posso ganhar ou perder. O que devo é estar informado e não existirem fraudes, deixemos isso para a Justiça. Se ganho não quero partilhar lucro, se perco não posso exigir que me cubram o prejuízo.
            O Estado não tem que impedir falências…


          • Ódio ao lucro? onde?
            Só te disse para fazeres as contas: com ou sem lucro, e principalmente; tendo por único (e legítimo) objectivo obter lucro, ou muito simplesmente ter como função satisfazer uma necessidade social.


          • Ok então permite que coloque a coisa nesta perspectiva. A Seg. Social obriga-me a efectuar contribuições indiferente à minha vontade. Porque o Estado entende que eu tenho que estar incluído na sua prestação de cuidados sociais.
            Acontece que não quero, não me revejo, pretendo mais. Arrisco e perco. Deve a sociedade cobrir a minha obsessão pelo lucro? Mas será justo que me impeçam de arriscar? Ou deve ser um problema única e exclusivamente meu?


          • Não é o estado que te obriga: é um dever social e civilizacional.
            Claro que quem acha que a sociedade não existe discorda, mas tem sempre a possibilidade de pedir a independência das Berlengas.


          • Não quero pedir a independência das Berlengas, nem teria direito a reivindicá-las, porque não me pertencem nem tenho dinheiro para as adquirir acaso estivessem à venda.
            Mas invocam contrato social e civilizacional que não assinei. Claro que tenho outras possibilidades, por exemplo mudar de vida, emigrar, ou até trabalhar pouco. Porque a partir do momento em que constato que o resultado não vale o esforço, não produzo. Poderia obter um melhor resultado, mas fico-me pelo q.b.

        • Alex says:

          Diz o sr. António de Almeida que não assinou o contrato social e civilizacional. Evidentemente está enganado: se vive entre nós, respira o ar que pretence a todos, bebe a mesma água, usa as mesmas estradas, se socorre da mesma polícia e dos mesmos tribunais, recorre a um médico (quase certamente formado numa escolar pública) quando se sente mal, reitera continuamente a assinatura desse contrato, que regula o que é viver em sociedade. Está contrariado, “não se revê”? Tem bom remédio: salte da Ponte 25 de Abril. De preferência ao cruzá-la de Norte para Sul, pois desse modo não fica a dever aos seus amigos selectos da Lusoponte.

    • luis says:

      Desculpe lá caro A.Almeida estar a meter o nariz no seu comentário, mas tenho algo a juntar ao post do JJCardoso.

      Diz o PSD, (e o PS não o nega), que é preciso cortar anualmente cerca de 600 milhões de euros nas pensões.
      Ora se fizermos as contas ao que os contribuintes estão a pagar por causa de uns SWAPS, por causa das burlas e roubos dos bancos, por causa das pornográficas rendas das PPPs, (ainda mais pornográficas porque as taxas de juros estão em queda livre e já atingem níveis negativos), por causa do elevadíssimo custo da energia (as albufeiras estavam cheias e o petróleo estava a baixar em Janeiro e no entanto a energia aumentou 3%!).
      Isto sem falarmos na tremenda corrupção que atinge a mais elevada hierarquia do Estado e que, segundo a amnistia internacional equivale, nestes casos, a uma percentagem considerável do PIB. (Veja-se o caso Sócrates e suas conexões, os submarinos, os vistos e todo o tráfico de influências que, por serem muitos, depenam o país a sangue frio).

      Garanto-lhe que andam por aí, nesses casos, muitos 600 milhões de euros a voar.
      – Estarei a mentir se disser que, só o roubo do BPN daria para pagar esses 600 milhões de euros durante 10 anos?
      – E os Swaps?… e o resto?

      Se esse dinheiro estivesse do lado do Estado os impostos podiam ser reduzidos e ainda iríamos encontrar verbas para financiar a SS durante muitos anos.


      • Tem muita razão na parte em que invoca crimes e corrupção. Apenas não percebo o que isso tem a ver ou vai contra o que escrevi. De resto nem falei em 600 milhões ou qualquer outro montante, porque não é isso o que importa, pelo menos do ponto de vista em que abordei a questão… Saber se os tais 600 milhões que fala dão para 5, 10 ou 50 anos é para mim irrelevante. Tarde ou cedo a demografia apresentará a factura e alguém irá pagar, de que forma, não sei… É uma questão de escolha política.

    • ZE LOPES says:

      O que mais me espanta nas tiradas liberaloides é que acabam todas a argumentar com base em chouriços! Aliás a expressão “encher chouriços” é atribuída a Hayeck, e significava “formar liberais” lá na Escola de Viena. Mas não vale a pena exagerar…

  2. Manilo Heredia says:

    Pelos vistos os liberais aceitam facilmente que a companhia de seguros não repare o seu carro após um acidente, invocando a falta de sustentabilidade da contabilidade do ramo automóvel…


    • Já ouviu falar no fundo do Instituto de Seguros? Poupe-nos à demagogia barata…

      • luis says:

        Esta a referir-se ao Fundo de Garantia Automóvel?
        Por acaso já por lá andei e até me pagaram uma parte do que gastei … ao fim de quase 3 anos e depois de uma ida ao Tribunal!
        E garanto que o percurso para lá chegar é só para homens.
        Depois de pagar ao advogado nem quero fazer contas ao que saiu do meu bolso.


        • Sim, multinacionais seguradoras, mas não só, empresas com alguma dimensão incluindo as nacionais, procuram muitas vezes abusar de posição dominante. No mercado das comunicações então é vergonhoso, mas isso seria outro post. Razão pela qual existem regras e Tribunais.

          • Nightwish says:

            E quanto é que se paga por ir ao tribunal, ó António? E quando se compram as leis para ser ainda mais complicado, como é?


      • Demagogia é invocar o Instituto de Seguros. Como se ele desse cobertura aos PPR no caso de falência de uma seguradora. Iam buscar o dinheiro onde?


  3. Os acontecimentos na terra da “liberdade” dizem nos que o Estado nacionalizou a AIG, metendo lá OITENTA MIL MILHÕES, para que não fosse à falência; quantia que pertencia em parte aos milhões de pobres norte americanos. São os PPR minha senhora…


  4. Minha senhora…

    O meu comentário foi escrito às pinguinhas. Quando o enviei não tinha conhecimento do último do Sr António de Almeida. E é assim que deve ser interpretado.


  5. E para que tudo possa correr bem e depressa nada melhor do que ter como ministro da saúde um homem dos seguros,particularmente dos seguros de saúde.


  6. Ao deixar as “certezas” lá fora acho que fazemos bem em estudar as diversas opiniões e comparar com o que fazem países bem governados(Suecia) e aprender sem tabus o que se diz por exemplo no blog Observador. É assunto demasiado importante para deixar que a cor politica “ensombre” os factos.


  7. Just perfect!!!

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