A encruzilhada geopolítica grega

Geo

Encostado à parede pelos parceiros europeus, o governo grego procura soluções noutras latitudes. Alexis Tsipras deslocou-se ontem a Moscovo para fechar um acordo de 2 mil milhões de euros com o governo de Vladimir Putin para a extensão de um gasoduto russo até à Grécia, mas também para negociar outros acordos, nomeadamente na área dos produtos agrícolas, isto apesar da recente decisão da União Europeia em prolongar as sanções impostas ao país. Bruxelas, como seria de esperar, não vê com bons olhos esta aproximação, apesar das empresas petrolíferas europeias e americanas continuarem a explorar petróleo em território russo e em parceria com a estatal Rosneft, sem que tal levante grandes indignações.

Simultâneamente, o governo norte-americano voltou ontem a apelar a um entendimento entre a Grécia e os seus credores, salientando a necessidade de ambas as partes de “trabalhar de forma expedita para conseguirem um programa de reformas credível“. Compreende-se: a recusa dos estados membros em seguir uma via de reformas verdadeiramente credíveis e não o esmagamento da economia grega e o sacrifício do seu povo empurra a Grécia para Leste e poderá significar uma abertura das portas do Mediterrâneo aos exércitos de Putin, que ainda há poucas semanas por lá andaram a passear com militares chineses sem que tal tivesse constituído motivo de grande preocupação para uma Europa cada vez mais receptiva ao investimento do regime oligarca e de partido único que impera na China. Contudo, a recusa de Bruxelas em optar por um caminho de sustentabilidade, que permita aos credores receber o que lhes é devido e à Grécia sobreviver, depois do seu bloco central ter literalmente destruído o país, obriga Tsipras a olhar noutras direcções em busca de alternativas.

Os norte-americanos, contudo, têm motivos para estar preocupados. É que o impasse UE/Grécia pode significar uma importante brecha na estratégia de Washington para cercar Moscovo e estrangular a sua economia. E eles sabem que se a situação grega não for resolvida internamente, a aproximação de Tsipras a Putin tenderá a ser cada vez maior numa Europa cada vez mais fragmentada pela ascensão de partidos anti-sistema, do Podemos à Frente Nacional. E essa fragmentação poderá significar, no longo prazo, danos irreparáveis para a Aliança Atlântica, para a integração europeia e para a estabilidade do continente. E, no entanto, as instituições europeias parecem dispostas a correr esse risco em nome da ditadura dos mercados.

O governo português tem sido dos mais activos nesta movida anti-Syriza que vai assumindo contornos de radicalização gritante. No Parlamento português, o deputado social-democrata João Figueiredo definiu o Syriza como a “cirrose da Europa”, isto apesar do curto período de tempo que o actual governo leva nas suas funções. Será que o deputado também acusou os seus amigos da Nova Democracia de serem, também eles, uma qualquer doença associada ao consumo de álcool? E sobre o recente e aparente estado de embriaguez de Jean Claude Juncker à margem de um encontro com os chefes de governo dos estados membros da UE, algum comentário? Parece que não. O problema é a esquerdalhada e a possibilidade, altamente remota, do regime que alimenta as castas dos blocos centrais europeus ter os dias contados.

Comments

  1. Rui Silva says:

    Quanto a mim é exatamente ao contrário. A aproximação da Grécia (mais um parente pobre) só enfraquecerá ainda mais a economia russa.

    cumps

    Rui SIlva

  2. Nightwish says:

    Quem acha que o Syriza tem alguma coisa de radical vai ter muitos ataques cardíacos nas próximas décadas.

  3. Filipe.P says:

    Por mim acabava-se com esta palhaçada do Euro. Ontem já era tarde.

  4. J.Pinto says:

    Argumento típico da extrema-esquerda: a culpa é do Pai-Natal.

  5. joão lopes says:

    a verdade é que os EUA estão seriamente preocupados com o facto de os gregos se mudarem de armas e bagagens para o lado russo.alias,tal como angela merckl que não por acaso tem andado bem caladinha nos ultimos dias.fez muito bem o alexis,em visitar o putin exactamente dois dias antes da reunião de hoje.acertou na mouche…p.s. se a grecia sair do euro ,terá sempre outras soluçoes,já a zona euro ficará em serias dificuldades,pelo simples facto que a moeda euro foi mal feita desde o inicio…


  6. Dois reparos: a UE só deve falar porque os gregos “pedem” dinheiro, que como sabemos vai sair também dos nossos bolso se , como se imagina o saco esteja há muito roto.
    A falta de politica comum da UE tem permitido que atitudes dos EUA, França e Inglaterra actuem na Ucrania, Libia Siria ,sub Sahara, como se as consequencias não viessem a calhar para os vizinhos próximos(nós). Agora ter mais um UK a fazer marcha atras dentro de portas já me parece falta de politica a mais.
    Se não fosse a Merkl presumo que a guerra surda já seria generalizada da Ucrania atendendo as verbas que a CIA tem investido.
    Não gostando de teorias da conspiração deve ser tomada em conta que para os EUA a UE é um concorrente e de peso, com a ajuda do membro do FiveEyes- UK não perde uma de nos arranjar dificuldades. Nos como tolos pelamo-nos por apoiar todas as invasoes que os criminosos fazem.

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