Grécia, asneiras, mentiras e realidades

Maria Manuela

Incomensuravelmente cansada de ouvir asneiras e mentiras deliberadas sobre a Grécia, aqui ficam algumas realidades:
1- Os estados da zona euro “emprestaram” muito dinheiro à Grécia?!
Ao J P Morgan e ao Goldman Sachs querem dizer.
É que oitenta por cento dos “resgates” à Grécia, foram isso mesmo: resgates aos Centros de Controle Financeiro (já não lhes chamo bancos) que detêm e controlam o FMI e os demais bancos credores, para salvaguarda de um sistema financeiro asfixiante e criminoso.
2- Quem levou a Grécia à falência?
As mesmas famílias políticas que arrastaram Portugal para o buraco em que estávamos e estamos. Precisamente a mesma cambada de corruptos incompetentes que beneficiaram e fizeram proliferar corruptos e incompetentes. Precisamente o mesmo tipo de criminosos que desenhou, criou e expandiu uma economia sem nenhum suporte real. Apenas assente num crescimento insustentável de funcionários públicos e empresas públicas e público-privadas deficitárias, aviários e ninhos de políticos em criação ou reformados. Precisamente a mesma estirpe viral mortífera que fez incidir receita pública nos mais frágeis e, não só ilibou como incentivou à fuga aos impostos de um sistema oligárquico de suporte financeiro e eleitoral. A mesma coisa- política inominável, que foi fechando os olhos ao estabelecimento de uma economia paralela e reforçando as regalias do funcionalismo público, criando um verdadeiro estado-de-sitio apenas compatível com a sociedade pirata da ilha Tortuga.
Precisamente o mesmo bando de ladrões que levou a Grécia a recorrer a um programa de assistência financeira da troika em Maio de 2010 – solicitado na altura pelos socialistas do PASOK, que ganharam as eleições de Outubro de 2009 para revelarem no final desse ano que, afinal, o défice orçamental grego desse ano não ficaria nos cerca de 6,7% projectados pela Comissão Europeia com base em dados do anterior governo, mas seria de 12,7% (foi de MAIS de 15% do PIB).

3- Quais as consequências das medidas da Troika?
a)- Um dos principais indicadores sobre as restrições ao potencial de crescimento futuro de uma economia é o investimento que faz no presente. É certo que os níveis de investimento pré-crise poderiam resultar de uma economia sobreaquecida, com excesso de despesa pública e endividamento privado. Mas o que se passou nos últimos anos dificilmente dá espaço a optimismo: o peso do investimento no PIB caiu para metade de cerca de 26% para apenas 13% – o valor mais baixo da Zona Euro (em Portugal é de 15%/16% do PIB).
b)- Não haverá melhor indicador do descalabro que se registou na Grécia nos últimos anos do que o abrupto aumento do desemprego para níveis que ultrapassaram os 25% da população activa. Os impactos de médio e longo prazo destes níveis de desemprego são difíceis de medir, mas não há duvidas de que esta é uma das cicatrizes mais profundas da crise. Mesmo quando, e sempre à semelhança de Portugal onde se lê a mesma cartilha com os mesmos óculos, se criam estágios, emprego temporário e se fomenta a emigração, camuflando níveis reais de desemprego estrutural.
Desde 2009, segundo os dados do FMI, a Grécia perdeu 150 mil residentes (-1,3%) para cerca de 11 milhões de habitantes, e destruiu 850 mil empregos (-18%) para os 3,75 milhões.
c)- Em nome da Competitividade: A inflação no País abrandou e registou mesmo valores negativos em 2013 e 2014. Um dos objectivos do programa de ajustamento europeu era o de promover uma desvalorização interna que permitisse uma queda de preços e salários face ao restantes parceiros europeus, de forma a oferecer competitividade via preço aos gregos.
Mas o preço a pagar em termos de queda de PIB e desemprego para obter apenas dois anos de deflação é considerado por muitos como desproporcional e até aberrante. Além disso, os efeitos dessa desvalorização serão ainda menores num contexto de baixa inflação generalizada no bloco europeu o que impede os desejados ganhos de competitividade.
d)- Mesmo com o PIB a afundar 25% desde 2009, o peso da despesa pública no PIB caiu quase 10 pontos para os 47% do PIB em 2014, não à custa de uma verdadeira reestruturação do aparelho de Estado, mas pelo facilitismo de começar pelo menos resistente e menos conflituoso, como sejam: salários, despedimentos e pensões.
Só, para termos uma ideia dos níveis de despesa pública sobre o PIB nos diversos Estados-membro e da “real” importância que ela tem em termos geo-estratégicos, aqui ficam algumas referências para 2014:
Portugal ( 47% do PIB) Alemanha (44% do PIB), França (57% do PIB). Bélgica ( 54% do PIB). Chipre ( 42% do PIB). Holanda (46% do PIB). Eslovénia ( 46% do PIB).
Do lado da receita, as sucessivas subidas de tributação sobre os trabalhadores também fizeram efeito: o peso da receita no PIB subiu de menos de 40% do PIB em 2009 para perto de 45% do PIB em 2014.
França e Alemanha arrecadam 52% e 44% do PIB, respectivamente. Valores para alguns países de pequena e média dimensão: 51% na Bélgica, 42% no Chipre, 43% na Holanda, 42% na Eslovénia.
e)- Após muitos planos austeridade feitos e refeitos, os resultados na frente orçamental fizeram-se notar, no que é apontado pela troika como uma das provas do sucesso (relativo) da intervenção: o défice público baixou de mais de 15% em 2009 para valores abaixo dos 3% do PIB em 2014.
Logicamente que estes resultados foram conseguidos impondo uma ruptura no funcionamento do Estado – incluindo os apoios aos mais desfavorecidos e o funcionamento do sistema de saúde – para além do colapso da economia privada. Mas isso não interessa NADA quando o objectivo é a sustentabilidade do serviço e pagamento da dívida ( privada-tornada-publica e pública).
f)- E, por falar em economia: Foi um dos falhanços na estratégia económica desenhada para a Grécia: as exportações não cresceram como previsto. O plano inicial para o ajustamento apostava numa política de fortes restrições financeiras e na promoção de uma desvalorização interna que “promoveria” a competitividade da economia e o crescimento pelas exportações. O problema é que tal nunca chegou a suceder verdadeiramente. Vários factores terão contribuído para essa desilusão no desempenho externo: por um lado a economia europeia teve um desempenho pior que o esperado; por outro, a estrutura das exportações gregas (turismo e transportes marítimos) não terá sido a mais favorável para reagir à crise;
Donde: ONDE se situa a relação entre a queda de preços e salários e o aumento das exportações?!
Apenas na falta de neurónios neo-liberalista.
g)- Ah, mas nem tudo é mau…. É que o mau desempenho das exportações foi acompanhado de uma queda acentuada das importações (recuaram durante cinco anos ocnsecutivos), o que permitiu um excedente externo ao país ( sem dinheiro não há palhaços, algo que uma criança de 5 anos pode ensinar a qualquer economista).
É outra das vitórias da troika! Tão ridícula quanto arrisca a ser uma vitória de Pirro: foi conseguida em troco do colapso da economia e, como tal, não será sustentável com a recuperação que se espera para os próximos anos.
h)- quanto, e por último, à TÃO celebrada ( pela família política) recuperação da economia grega em 2014, o crescimento de 0,8%, segundo a PRIMEIRA estimativa publicada pelo escritório de estatísticas Elstat antes das últimas eleições, o Produto Interno Bruto (PIB) foi de € 186,5 biliões em 2014, frente aos € 185,1 biliões de 2013. É de pontuar que este anémico e inconsequente aumento do PIB corresponde a um aumento no consumo interno e a um aumento das exportações ( turismo).
Contudo: PIB nominal, que toma como referência os preços actuais, reduziu-se 1,8% em relação ao PIB de 2013. Em termos de volume, foi de € 179,1 biliões frente aos € 182,4 biliões no ano anterior.

Muito há para limpar, acertar, condenar e mudar na Grécia. Começando pelas amarras a um passado de crime e corrupção. Mas, de forma nenhuma reduzindo o país a uma lixeira pública em nome da sustentabilidade dos Mercados.

Comments


  1. O dinheiro pago aos credores não tinha sido assinado e pedido por gregos?
    Há gregos bons e gregos malvados?
    Quando se começou a negociar com estes gregos “bons” a situação da Grecia era de não precisar de dinheiro? estavam os bancos fechados e sem dinheiro?
    Olhando para os tratados são as autoridades europeias que decidem quando a Grecia deve pedir dinheiro e depois o administra? quando o dinheiro é pedido pelos gregos malvados, os gregos bons ficam isentos de pagar? então quem acha que deve pagar ?
    a solidariedade funciona só para um lado(dos que produzem para os gergos malvados ou tambem funciona entre os gregos bons e os antecedentes malvados?
    A independencia tem dois sentidos e nunca se dá bem com a dependencia(que o digam os adolescentes)


  2. Já não temos muitos anos para ver o resultado do que vem aí a seguir ,porque a idade já vai avançada,mas de certeza absoluta que esta situação não pode durar muito,porque é contra a natureza,e a natureza tem leis eternas que não podem ser mudadas por meia duzia de lampeiros !!!.

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