Postal de Sendim

«Enquanto vai e vem, o caminho não está sozinho»

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Saio de Aveiro com a Rosário e o Jorge na sexta-feira. A direção é o Festival Intercéltico de Sendim. Nunca fui a Sendim, o que é relativamente incrível, uma vez que durante alguns anos, o caminho para Trás-os-Montes foi a minha direção. Costumávamos, eu e o Nuno, tomar outras estradas, então. Talvez mais longas. Pensávamos que eram mais longas, melhor dizendo, mas afinal, também essas estradas se tornaram mais rápidas com o passar dos anos. Rápidas demais. Curtas demais, pelo menos para um de nós. Embora esteja em crer que para os dois. Suponho que seja a vida a acontecer. E o betão a tomar conta de tudo, a cruzar os montes e os vales e os rios e as ovelhas que pastam mansamente alheias aos poucos carros que cruzam as autoestradas e vias rápidas. Julgarão elas, as ovelhas, que os automóveis são bichos raros, alimentados a alta velocidade naquelas pastagens de betão.

Vamos, eu a Rosário e o Jorge a deitar paisagens fora. Está calor no carro e fora dele quando vamos A25 acima até encontrarmos o IP2. Ainda há pouco tempo fiz este caminho, de noite, de regresso de Miranda do Douro, com o Diogo e o Daniel. Trabalho, portanto. Escrevi um postal então dessa viagem em que cruzámos Portugal mais ou menos na horizontal duas vezes em menos de 14 horas.
A viagem de ida foi pelas estradas de antes, aquelas que tantas vezes fiz com o Nuno para o Parque Natural de Montesinho. A mesma terra, mas outra terra e sobretudo outro tempo absoluta e infelizmente irrecuperável. Antes de ir, desta vez, deixei no Facebook uma fotografia minha a dizer que ia (a)trás (d)os montes. Alguém comentou que a minha cara era, nessa fotografia, nostálgica. E sem saber é capaz de ter razão, o comentador. Ir a estas paragens causa-me sempre nostalgia. Não admira. Não se admirem. Havia esta pessoa com quem gostava de percorrer as aldeias, em Portugal ou noutro sítio qualquer. Não foi preciso passar tanto tempo, haver outras estradas, para saber que não eram as aldeias ou as estradas que (me) importavam então. Mas sempre aquela pessoa com quem o (meu) caminho nunca esteve sozinho. Não se admirem, por isso, se disser que ainda não está.

Passamos agora várias cidades e vilas, o Douro há-de vir majestoso e solitário, entre os grandes montes parados, ao nosso encontro mais adiante. Paramos para um lanche rápido em Torre de Moncorvo, outro sítio onde não venho há muitos anos. No café um avô e um neto, a Rosário repara nas semelhanças, brincam na esplanada. É uma criança engraçada que tem, evidentemente, um certo fascínio por pintainhos. ‘Isto é um piu-piu’ diz a criança ao avó, orgulhoso evidentemente, das semelhanças com o seu neto. O tagarelar das crianças é sempre musical, mesmo que nada digam de substantivo. Devíamos talvez aprender com elas esta musicalidade e esta alegria que põe em tudo o que há. ‘Piu piu’. Quem tem netos não deixa sozinho o caminho, já se sabe. Continuamos, cada vez com mais calor, a viagem até ao planalto. A Rosário, sempre a Rosário a reparar nas coisas bonitas, fala das nuvens. O céu está de facto extraordinário. Azul como só nos dias de verdadeiro verão, manchado por estas nuvens extraordinariamente brancas que por vezes parecem tão baixas, recortadas contra o verde amarelado das montanhas.

Chegar a Sendim é divertido. Saímos de Aveiro, agora que falo em nuvens, para desanuviar, e Sendim está cheio de pessoas de Aveiro. De algumas, como a Carmo e o Israel, já sabíamos. Afinal são entusiastas do Festival Intercéltico de Sendim há muito tempo. Outras são uma surpresa. Estamos bem-dispostos. Estas surpresas são, assim, boas. Depois das estradas praticamente desertas. Estas estradas que temos agora em todo o país. Para lado nenhum ou, melhor, elas vão e vêm a e de sítios, mas estão sozinhas quase sempre. Mas depois das estradas desertas, é bom encontrar uma esplanada cheia de gente. Gente familiar. Pousamos as coisas na casa onde iremos dormir nas duas próximas noites e voltamos a sair. Eu quero tirar uma fotografia sentada num banco à porta de uma casa e peço ao Jorge que a tire. Aproxima-se um cãozinho pequeno que me estende a pata e a seguir me lambe a mão. Bela receção, não tenho dúvidas. Sendim é uma vila. Tem uma bonita igreja (e, se são destas coisas, um belíssimo altar e alguns vitrais simples), está cheia de girassóis e, bom, isso é capaz de ser suficiente por agora. Uma bonita igreja de pedra e centenas de girassóis que espalham a sua alegria muito amarela em todas as ruas.

Em Sendim, fora do festival que ainda não começou neste dia, as pessoas estão sentadas nas esplanadas dos cafés. O Café Passareiro está cheio de gente que veio de outros sítios por caminhos que não estiveram, ao menos momentaneamente, sozinhos. Há amigos que se encontram. Outros que se inauguram. Bebe-se cerveja, fuma-se, tagarela-se até à hora do jantar. Comemos bem e barato na Taberna dos Celtas, instalada no pavilhão multiusos de Sendim. As ruas estão cheias de pessoas e de luzes. Começam os concertos. Os músicos são bons. Há barraquinhas que vendem licor, artesanato e há a barraquinha da AJA (Associação José Afonso) Núcleo Norte,e da AJA – Núcleo de Aveiro, onde a Carmo e o Israel são, como são habitualmente na cidade onde passo a minha vida, os melhores embaixadores do legado do Zeca. O Mário apresenta os músicos em cima do palco. O Mário Correia é um homem extraordinário. É ele que faz mexer Sendim, por estes dias. Não apenas ele, como é natural, mas é ele o arquiteto deste Festival e, estou quase certa, de muitas outras coisas que acontecem em Sendim. Estamos no planalto mirandês, uma região que, já o sabemos, como a maior parte das regiões interiores de Portugal se dirige, sobre o betão, e a alguma velocidade para o despovoamento. São pessoas como o Mário que, quotidianamente, contrariam isso. É preciso que se saiba. Ou que se diga. É o mesmo.

Conheci o Mário há dois anos, numa iniciativa da Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino. Uma Associação que está perto daqui – em Atenor – onde jovens (alguns que vieram das cidades) não deixam os caminhos sozinhos. Nem os burros mirandeses. Toda a gente sabe que eu gosto de burros. Mas ainda que não gostasse, os jovens da AEPGA contrariam, também diariamente, o desaparecimento desta espécie magnífica de asnos e, ao fazê-lo, igualmente contrariam o despovoamento. A Joana, a Teresa, o Miguel, a Violeta (que há uns meses entrevistei em Miranda do Douro) e outros tantos são da melhor gente que há. É preciso que se saiba. E que se diga. São gente da mesma fibra do Mário. Que não deixam os caminhos sozinhos. Tenho pena de não ir a Atenor. Mas outra vez que me dispuser sozinha a enfrentar estas estradas imensas, lá irei. Mas dizia eu que tinha conhecido o Mário Correia em Serapicos, aquando da Feira de Burros, num debate organizado pela AEPGA sobre o futuro do mundo rural. Ele, o Mário e eles, os jovens da AEPGA sabem muito melhor que eu desse futuro, porque o constroem todos os dias. Eu olho apenas para ele, tentando mapear iniciativas e representações e tudo aquilo que se vê de fora. Lá dentro, aqui dentro, é bastante diferente. E bastante mais difícil, sobretudo fora das Feiras de Burros e dos Festivais. Nunca tive a certeza de ser capaz de viver ‘no campo’. Mas gosto tanto de gente que é capaz de viver no campo.

Há, no dia seguinte, apresentações de vários livros, aulas de música e de dança e mais concertos. E mais esplanada e mais gente e mais cigarros e mais cerveja. Há um grupo grande de espanhóis que cantam e tocam. A certa altura hão-de cantar a Grândola, o Bella Ciao, o Ay Carmela! E ganhamos (eu pelo menos ganho) o dia. Mas agora, vou dar um passeio pela vila, que não é grande. Tiro fotografias às casas de pedra e aos girassóis. Venho ‘de fora’ e estou, evidentemente, ‘de fora’. Vejo o que é visível e por agora, que estou de férias, isso basta-me. Já o contei ontem que à soleira de uma porta está sentado um homem com o seu cão. Perto deles havia uma placa que anunciava a ‘praia fluvial’. Pergunto ao senhor se o rio é longe. Duas horas para ir, duas para vir, responde-me ele. Eu digo que é mesmo longe. E é então que ele me diz ‘enquanto vai e vem, o caminho não está sozinho’ e fica ali sentado, com o cão, enquanto eu decido que vou ver a antiga estação dos caminhos-de-ferro de Sendim, que fica a 2 km da vila, já que o rio é longe demais.

Vou e venho. O caminho até lá esteve até bastante povoado. É verdade que os territórios rurais são lugares de grande solidão. Nem tudo é idílico como nós, os que vimos ‘de fora’ pensamos, tantas vezes. Há caminhos muito escuros, mesmo em dias de verdadeiro verão, como este. Há porcos e vacas fechados em estábulos onde a sujidade e o cheiro são impensáveis para uma urbana que gosta de limpeza e de perfumes. Há velhos tão sós que nos dizem coisas impensáveis. Na verdade, agora que penso nisso, não são coisas impensáveis. Acho que todos as dizemos, na verdade. Há sítios e pessoas inesperadas, se calhar é mais isso, para se ouvirem essas coisas ‘impensáveis’. São caminhos sozinhos essas pessoas. Caminhos que ninguém percorre há muito tempo. Sou capaz de compreender isso, muito bem, agora que escrevo este postal, sentada na limpeza da minha casa. Sou mesmo capaz de compreender isso muito bem. Eu que sou uma estrada deserta em direção a nada, como todos. Compreendo e deixo-me estar.

Comments

  1. mario silva says:

    Muitos cidadãos tuga definham num lento alzheimer cultural, porque entre a extorsão petrolífera e a das portagens, não existe capacidade suficiente para satisfazer os compromissos mais prementes. E deste modo, não se alimenta a alma cultural visitando os eventos que a nutriam…

  2. Cecílio says:

    O rio é a 10 minutos por caminho. Vai-se de carro, mas melhor ir de jipe. Rio a 2 horas só se no Porto.

    Aspero que téngan scuitado Mirandés, comido la Posta na Gabriela i bejitado muitas cousas que hai ne l praino: ls Santos, São Paulo An Sendim,
    Fraga do puio an Picote, cigaduonha picote, un cruzeiro An Miranda… La sé de miranda Antre muita cousa. Saludos sendineses


  3. eu estava a pé Cecílio. E conto o que me disseram a mim. 🙂


  4. a sé de Miranda desta vez não. mas há 4 ou 5 meses sim. está aí um link para o postal dessa visita 🙂

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