Carta do Canadá: A padeira de cracóvia

Dificilmente se perde o vício  da bica ao fim da manhã depois de uma vida inteira a alimentá-lo lá onde a pátria é de sol, sul e sal.  Só por castigo se renuncia. Ou eu assim o entendi quando cheguei ao Canadá e verifiquei que o expresso só se vendia nos cafés  italianos e vinha a ser uma mísera gota no fundo de uma chávena minúscula, e passa para cá 2 dólares, che porca miseria, che maffiosi. Suspendi, por decência. E fiquei sem alternativa porque, nesse tempo,  ainda não havia cafés portugueses, a doçaria portuguesa era vendida pelas padarias que a serviam com uma água de cozer castanhas a que tinham, e têm, o topete de chamar café regular ou canadiano. Beberagem que os canadianos engolem aos litros durante o dia, sem açúcar, de caneca na mão – como nos filmes. Mais tarde abriu o primeiro café a sério e então havia bica à maneira, abatanado e tudo quando é devido a uma alma portuguesa. Actualmente, há muitos cafés e esplanadas que enchem de cor e alegria a cidade que alberga três milhões de habitantes oriundos de 190 países.

Tomo a minha bica num cafézinho de albaneses que opera dentro do Saint Lawrence Market, com mais de 200 anos e considerado um dos dez mais bonitos do mundo. Só tenho de atravessar a minha rua para lá entrar.  No século XIX a minha rua ainda era água do Lago Ontário e o mercado era, em simultâneo, cais do porto, armazém de mercadorias e câmara municipal. O lago recuou e a cidade cresceu, a partir deste bairro de York, galgando agora as terras que outrora foram de floresta e de cultivo.  Mesmo em frente do cafézinho dos albaneses, mestres a tirar a bica, fica uma padaria canadiana que fornece pão de todas as formas e sabores.  Á volta, fica o restaurante grego do Yannis, o restaurante japonês, a lojinha dos rebentos de vegetais para sanduíches do húngaro George, o balcão do mel da Nova Zelandia, o restaurante italiano com umas sandes que levam um tempão a comer de tão grandes que são e o chinês dos postais e da quinquilharia. À frente da padaria, dirigindo um nutrido grupo de mulheres filipinas, está a Joan, a polaca,  alta, atlética, um mulherão, de sorriso aberto e franco.  Assim que me vê a pedir a bica,  entrega a pasta às adjuntas  e abanca comigo.  Temos tido longas conversas, umas a sério, outras a rir.

A Joan nasceu e cresceu em Cracóvia, a terra do Papa João Paulo II.  Quando lhe falo nisso, os olhos marejam-se: “a  minha terra deu um santo”.  Estava a começar a universidade, quando os estaleiros de Gdansk se levantaram à voz de Walesa contra a ocupação comunista. Convencidos que iam ser esmagados como outrora os checos e os húngaros, pela bota soviética, Joan e os irmãos fugiram para o ocidente. Passaram pela Alemanha  o tempo necessário e suficiente para aprenderem uma profissão prática e amealharem dinheiro, e depois, ala que se faz tarde,  para o Canadá.  Nâo era bom na Alemanha?, quis eu saber.  Resposta clara: “enquanto nos lembrarmos do que eles nos fizeram durante a segunda guerra, não confiamos neles”.   E acrescenta, convicta: “é por isso que eu compreendo os gregos”.   Faz uma pausa e garante: “se não nos pomos a pau, ainda se metem noutra”.

Há dias perguntei à Joan se não ia de férias.  Que bem precisava delas, respondeu, mas nem sabia para onde ir.  Sugeri um cruzeiro na Europa, daqueles que vão de Amesterdão a São Petesburgo, por me parecerem repousantes.  Explicou: “não ponhos os pés na Rússia!  Tu não fazes ideia do que é viver com medo da polícia política, das denúncias que podem levar aos campos de trabalho e  às prisões de alta segurança”.  E quer saber se eu tenho seguido a situação do casal Yunus, Leyla e Arif, opositores do regime que reina no Azerbeijão.  Sim, tenho lido, anuí.  E a Joan  de novo: “apanharam  prisão preventiva uma porção de tempo, nenhuma acusação concreta foi feita e agora, apanham oito anos de cadeia acusados de branquear dinheiro, fraude e corrupção.  Tal qual como nos antigos países comunistas”.  Tal qual como em vários outros países, suspiro eu.  Mas quero saber porque não vai ela  à Polónia.  Foi definitiva: “trabalho muito durante o ano, preciso de descansar, e ir à minha terra só me dá desgostos, nem imaginas a mediocridade de gente que elegeram, e depois as histórias da União Europeia, não quero saber mais, tenho direito a viver em paz”.

O Canadá é a foz onde vieram desaguar todos os rios de sofrimento que os  emigrantes  trouxeram consigo.  Deve ser por isso que, somadas todas essas experiências, ninguém entra em aventuras, todos querem viver simplesmente.  O Canadá não tem glamour nem penachos imperiais. Tem o bom senso de viver e deixar viver.

Comments


  1. Ainda bem que nos tras essas vivências do Canada.Penso que é dos poucos países do mundo onde se é livre, como na UE.

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