Grécia: O império contra-ataca

Bobolas

Era expectável. Há uma semana e meia, a minha bola de cristal avisou-me que as manipulações e as mentiras sobre o desenrolar do período que antecede o acto eleitoral grego deste mês estariam de volta e eis que, a poucos dias da votação, surge o primeiro do contra-ataque do império que controla a Grécia na sombra com a divulgação de uma sondagem que coloca a Nova Democracia 0,3% à frente do Syriza nas intenções de voto dos gregos. Os jornais portugueses apressaram-se a fazer eco deste estudo (JN, Jornal de Negócios, I e Diário de Notícias) encomendado pela cadeia televisiva MEGA ao instituto GPO, o tal que permitiu, pouco antes do referendo grego, que dados incompletos de uma sondagem por si feita, que colocava o SIM 4 pontos percentuais à frente do NÃO, tenham sido divulgados antes do tempo, dando origem a um espectáculo de manipulação de opinião pública. A realidade, essa, mostrou-nos o NÃO a esmagar o SIM numa relação 61,5%- 38,5%.

MEGA? Onde é que eu já ouvi falar destes gajos? Ah! Já sei: é aquele canal televisivo propriedade da família Bobolas, reputados oligarcas gregos cujo filho do patriarca, Leonidas, foi recentemente acusado de fuga ao fisco e branqueamento de capitais, tendo mesmo sido detido por se recusar a pagar uma dívida de 1,8 milhões de euros ao fisco, dívida que acabou por pagar assim que percebeu que a imunidade da qual a sua casta beneficiava durante o consulado do bloco central grego tinha chegado ao fim. Foi a primeira vez na história do país que um membro de uma das principais famílias que controlam a economia grega se viu a contas com a justiça.

Leonidas Bobolas faz também parte da Lista Lagarde, a tal onde constam os nomes de todos os envolvidos no escândalo Swissleaks. Segundo essa lista, o jovem oligarca escondeu 4 milhões de euros em bancos suiços, na habitual ganância desta gente que adora dar lições de moral sobre o valores e responsabilidade mas que teima em fugir aos impostos.

Mas desengane-se o caro leitor se pensa que esta história fica por aqui. Leonidas Bobolas é também o presidente executivo da Ellaktor, uma gigantesca multinacional grega, cuja subsidiária Aktor, dedicada à área da construção civil, viveu décadas à sombra do orçamento de estado grego, entre pontes e autoestradas, túneis e portos marítimos, museus faraónicos e muitas outras obras entre as quais as inúmeras construções no âmbito dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004, cujo orçamento, inicialmente estimado em 1,6 mil milhões de euros, derrapou 15 mil milhões, qualquer coisa como 938%. Muitas destas estruturas estão hoje ao abandono e a festa olímpica que o bloco central grego ofereceu aos grandes grupos económicos como o Ellaktor é hoje paga em pensões, salários e serviços públicos.

Do clientelismo na construção civil para o escândalo das minas de Cassandra: em 2003, com a falência da empresa TVX Hellas, o estado grego ficou na posse dos bens desta empresa, que incluíam as minas de Cassandra, que foram vendidas, apenas dois dias depois, à recém-criada Hellas Gold SA. E quem criou esta empresa? Exactamente: o clã Bobolas. Este caso foi tão grave que, em 2011, a própria Comissão Europeia exigiu à Hellas Gold SA o pagamento de 15,34 milhões de euros ao estado grego pois a privatização teria sido ilegal, feita à custa de recursos do próprio estado e abaixo do seu valor real e sem que os devidos impostos sobre a transacção tivessem sido regularizados. Mas este caso vai mais longe e inclui violência policial sobre manifestantes que se oponham à extracção mineira em Ierissos bem como a criação de leis à medida dos interesses dos Bobolas. Clientelismo, violência e corrupção.

Sim, ainda há mais: lembra-se da apoteose de Guy Verhofstadt, lançada por cá pelo Observador e disseminada da cúpula do regime até às suas Marias Luz? Estava em causa o suposto esmagamento de Tsipras – pelo menos na cabeça dos directores de propaganda desta espécie de Pravda do governo – por parte deste eurodeputado que integra a administração do grupo Sofina, cuja intenção de vencer a privatização da rede de água de Salónica foi esmagada pelo Oxi no referendo grego. Mas, o que tem este caso que ver com os oligarcas Bobolas? Tudo: a Ellaktor era nada mais nada menos que o parceiro local do fundo Sofina na corrida à privatização em causa.

Eis o império Bobolas – a parte dele que conhecemos -, um império feito do assalto aos recursos públicos da nação helénica, com o alto patrocínio do bloco central grego. Corrupção, tráfico de influências, informação manipulada e um clã sem escrúpulos capaz de tudo em nome de uma ambição fanática. E a MEGA TV, o canal Bobolas que encomendou a sondagem referida no início deste texto, tem sido, sem surpresa, um dos principais opositores do governo de Alexis Tsipras. Pudera! Os seus antecessores eram tão submissos e instrumentalizáveis e agora, com estes “radicais” no poder, o oligarca até detido foi. Claro que, para alguns, aqueles que se esforçam por defender este tipo de regime, o imperador Bobolas é um bode expiatório usado para mascarar a incompetência dos governantes gregos. Competente seria deixar estes parasitas do orçamento de estado grego à solta e imunes a impostos.

Foto:Leonidas Bobolas@Greek Reporter

Comments


  1. Este artigo é por os jornais replicarem sondagens que foram conhecidas na Grécia que dão uma ligeiríssima vantagem à ND ou contra quem faz sondagens que sendo técnico pode introduzir elementos que desvirtuem intencionalmente os resultados?
    Também na Reino Unido foram bem propaladas sondagens que eram pouco favoráveis a Cameron e não ouvi dizer que havia manipulação dos OCS portugueses.
    Não sei se por lá houve ou não contra-ataque de qualquer império, mas daí a criar dúvidas de conluio dos jornais de cá, penso que é um pouco exagerado.


    • Cefaria, tenho-o cmo alguém que sabe ler pelo que o convido a reler o que escrevi ou a rever o conceito de conluio.


      • Pode não gostar da palavra “conluio”, que até pode estar mal se usou inocentemente a frase: “Os jornais portugueses apressaram-se a fazer eco deste estudo”, caso contrário, acusar de pressa os jornais portugueses pouca diferença faz se tal é motivado por conluio, colaboracionismo ou outra coisa qualquer.
        Sobre o resto do artigo é uma demonstração dos interesses que podem mover quem está por detrás do estudo e não me pronunciei.

    • Nightwish says:

      O Falhanço no reino unido tem a ver com a idiotice first past the post, nada mais.


  2. Não serve de nada, porque já venceram… o OXI perdeu, o Syriza desfez-se em cacos,,, e vai ganhar quem queria o Império!! Ganhar o Syriza ou o ND é igual… mudam as moscas e a bosta é a mesma…

  3. joão lopes says:

    depois de lêr este texto fico com a sensação que já vi isto em algum lado:já sei,e aproveitando o titulo “cinematografico”,vi isto no Citizen Kane do Orson Welles sobre o todo poderoso patrão da imprensa sr.hearst,gigante manipulador de informação sensacionalista e com certeza um dos “herois” dos bolotas,bolas,dos bobolas,dos “mirones”,do grupo sofina e tambem do grupo cofina(reparem na coincidencia),das “marias luz” ou carlos abreu amorim/duarte de santarem,etc…bons filmes.

  4. Rui_Silva says:

    Ora aqui está um bom resumo do desgoverno da Grécia.
    Mas a “cereja no topo do bolo” para a oligarquia grega era externalizar a conta para a CE pagar.

    cumps

    Rui SIlva

  5. Ana Moreno says:

    Uma argumentação viciosa…
    e uma má interpretação do caso grego

    Apontar o dedo esticado à falta de sucesso do Syriza na Grécia tem sido um dos mais eficazes argumentos da coligação no poder e vem também a calhar ao PS. Que Portugal, tal como a Espanha, tenha sido um dos acérrimos defensores da linha dura no Clube europeu contra concessões à Grécia é um dado óbvio, já que se tratava de legitimar o seu próprio programa de austeridade imposto ao país. Vir agora usar um argumento – o da inutilidade do voto à esquerda associado à esperança de reescalonamento da dívida – para um facto que foi criado com a contribuição do mesmo governo português é falacioso… – mas o mais incrível é que esse mesmo argumento funciona às mil maravilhas no marasmo político reinante em Portugal …

    O NÃO do povo grego no referendo de 05.07.2015 fez estremecer os pilares do constructo europeu e revelar os limites da democracia perante os valores mais altos da economia. Já por isso valeu o NÃO grego.
    Na Alemanha, essa revelação, tornada óbvia, não foi acolhida pacificamente. As reações negativas, com elações diversificadas, registaram-se de uma ponta à outra do espetro, tanto nos partidos como na própria população. Nessa hora, um argumento – também ele eficaz – da coligação no poder, foi também apontar o dedo esticado, desta vez como exemplo de sucesso, aos alunos bem comportados – Portugal, Espanha e Irlanda – que, estando a aplicar as “receitas” da Troika em políticas de austeridade, se encontrariam no bom caminho, como comprovado pelos seus resultados económicos decorrentes das reformas estruturais – taxa de crescimento positiva, redução das despesas públicas e do endividamento das famílias.

    Quanto ao desemprego e aos salários precários, aos cortes nas reformas e nas prestações sociais, à emigração de gente qualificada e à privatização desenfreada, paciência!, são efeitos colaterais… não é segredo que o objetivo neoliberal é precisamente eliminar o estado social e debilitar os sindicatos …

    As eleições estão à porta e o povo português vai, com certeza, mostrar mais uma vez que é bem comportado e que as coisas estão a compor-se, seja não indo votar ou votando no mais do mesmo, entre a coligação no poder e o PS…

    É lamentável! Os portugueses não sabem nem querem saber que, se nestas eleições se juntassem com força ao protesto dos outros países do Sul da Europa, poderiam sim, contribuir para mudar as relações de força na UE. Só é preciso ter coragem!!

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  2. […] muitas foram as sondagens que apontavam para um empate técnico entre Syriza e Nova Democracia, com a sondagem dos oligarcas Bobolas a dar como certa a vitória de Meimarakis. Resultado final: Syriza vence, revalida a maioria absoluta com o ANEL, e deixa o Nova Democracia a […]

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