Cartoline di Roma #3

‘Tutta la merda dell’universo succede a me’, murmurou ele…

Hoje não tenho muitas fotografias. Há pouco que fotografar num congresso e mesmo que fotografe os colegas não vou, ainda que às vezes o faça, publicar aqui as fotografias… não vão eles aborrecer-se comigo.

O dia começa cedo. Mas assim mesmo eu e o Diogo não vamos à Sessão de Abertura. Chegamos a tempo da primeira Sessão Plenária, depois de apanharmos o metro na Piazza Bologna, em direção a Laurentina e de sairmos na estação da Basilica de S. Paolo e caminharmos uns bons 15 minutos até à Faculdade de Economia da Universidade de Roma Tre. A sala da sessão está bastante composta e vejo algumas caras conhecidas. No entanto, este congresso não é exatamente a minha ‘praia’, por assim dizer, já que é sobre agricultura e eu percebo pouco de agricultura propriamente dita. Mas o G. um dos organizadores convidou-me a mim e ao A. para fazermos um Grupo de Trabalho sobre Turismo e Agricultura. Aceitámos. Recebemos propostas de comunicação em número mais que suficiente e, portanto, aqui estou eu. O A. há-de chegar apenas depois de almoço, mas ainda a tempo da primeira sessão do dito grupo de trabalho.

Ao almoço encontro a I. e a T., portuguesas e a primeira uma boa amiga. Comemos juntas, com o Diogo, e a seguir vamos para as sessões dos grupos de trabalho. O Diogo faz a sua apresentação bastante bem, como sempre. Apresentam mais dois italianos na mesma sessão. A discussão é interessante, sobre a relação entre vinho, comida e turismo, a ausência de sinergias entre os vários agentes e atores envolvidos, estas coisas. O A. chega entretanto. Partiu uma das pernas em três sítios há um mês e meio e vem sentado numa cadeira de rodas, embora transporte igualmente umas muletas. Embora falemos com frequência ao telefone e por email, há dois anos que o não vejo em pessoa e aquilo faz-me impressão, naturalmente. Quero dizer, vê-lo ali, sentado na cadeira de rodas. No fim da sessão apoia-se nas muletas e vem ter comigo, dá-me um abraço e dois beijos, olha para o meu cabelo e diz que estou bonita. Está na cadeira de rodas, mas continua simpático como sempre o conheci nos últimos oito anos. Respondo-lhe que ele está na mesma e ele diz-me que não preciso de me esforçar, porque sabe bem que é feio e velho. Não contesto. Não porque o ache feio ou velho, mas porque já sei que aquele género de conversa nos haveria de levar a uma longuíssima fila de disparates. Somos assim, nós os dois. E agora não temos lá muito tempo. A próxima sessão do nosso grupo há-de começar dali a pouco, depois de um café.

A segunda sessão corre igualmente bem. Apresento eu e novamente dois italianos, não os mesmos. Há perguntas no fim e mais discussão sobre os empreendimentos de agro-turismo, sobre a procura deste tipo de alojamento, etc. A meio do debate lembro-me que eu e o A. uma vez, há uns anos, no meio da escrita de um paper, creio que foi no meu gabinete, resolvemos – porque somos os maiores patetas alegres do mundo inteiro – calcular o índice vaca/turista. Conto esta piada aos presentes, porque vem a propósito do que estavamos a discutir (a relação que existe – ou não existe, pelo menos nos países do sul da Europa – entre a atividade agrícola e o turismo. Tenho tantas histórias disparatadas destas com o A., em tantas cidades da Europa! Aqui mesmo em Roma e em toda a parte onde estivemos juntos que, quando olho para ele, sei bem, melhor sei exatamente no que está a pensar. Gosto deste reconhecimento mútuo e desta ternura permanente e inabalável (e acreditem que já houve razões sérias e de sobra que a pudessem abalar) que temos um pelo outro e que é visível para os demais.

No fim desta sessão, o A. e eu vamos beber um café verdadeiro ao bar da faculdade. Ele já está sentado na sua cadeira de rodas, eu sento-me numa cadeira normal, na esplanada. Aparece este e aquele. Conversa-se. Fuma-se. O A. pergunta-me o que vou fazer agora. Digo-lhe que tinha combinado vagamente com o Stefano ir ao cinema, ver um filme de um realizador italiano que estreou aqui há pouco tempo e que não é expectável que estreie em Portugal nos próximos tempos. Diz-me se não posso ir ao cinema amanhã, que é imperioso que jantemos juntos. Amanhã a seguir ao almoço vai-se embora para Florença e nem pensar que não comamos juntos. Vejo nos olhos azuis que o que diz é absolutamente verdade. Mas mesmo que o não visse, saberia sempre que era verdade. Pensei que ficasse para amanhã, digo-lhe. Mas sim, posso ir ao cinema amanhã ou até mesmo depois de amanhã. Mando uma mensagem ao Stefano a dizer isso mesmo. No mesmo instante, por coincidência, recebo uma mensagem do italiano que conheci em Sarajevo perguntando se estou em Roma e que tal estou eu na cidade eterna.

Temos de gostar dos homens italianos, não há dúvida. São assim, atenciosos. Como o Stefano, aliás, que responde que sem qualquer problema, podemos ir ao cinema amanhã. Há-de poder, penso eu. Mas, na verdade, não sei. Respondo depois ao rapaz de Treviso que conheci num belo e comovente dia, em Sarajevo (há um postal sobre isto por aí algures), dizendo que estou lindamente em Roma e ele que apanhe o comboio e venha beber uma cerveja. Sei perfeitamente que isso não vai acontecer, mas é uma ideia simpática mesmo assim. As vindimas do prosecco, responde-me ele. E a distância. Não é possível vir a Roma, nesta altura. Digo-lhe que já sabia, claro, mas que tenho pena assim mesmo. E é também verdade, obviamente. Depois de adiar o cinema para amanhã ou depois, digo ao A. que sim, que vamos jantar. São 6 e meia da tarde e doi-lhe a perna, tem de ir para o hotel descansar um bocado. E assim faz, deixando-me antes na estação do metro da Basilica de S. Paolo, com o táxi. Vou de metro para o hotel na Piazza Bologna. Passada uma hora, o A. liga-me e diz-me que passa de táxi daí a outra hora em frente ao hotel onde estou. Perfeito.

Vem apenas de muletas e eu antevejo problemas. Diz que marcou dois restaurantes. Dois? Sim. Tinha marcado um primeiro que um amigo lhe havia recomendado mas depois viu perto do hotel dele um sítio com um nome que de certeza eu iria gostar e marcou-o também, se me apetecesse ir lá. Olho-o espantada, embora este tipo de coisas não seja inédito no A. Um ‘gentiluomo’, à sua maneira ligeiramente desajeitada. ‘Mas e o restaurante como se chama, esse segundo?’ pergunto eu… ‘La Fata Ignorante’… ‘A Fada Ignorante? The Ignorant Fairy?’ pergunto eu em mais que uma língua, para saborear melhor semelhante coisa. Sem dúvida que gosto, muito mesmo… é um nome fantástico, mas é perto da universidade onde decorre o congresso? Iríamos andar para trás? ‘Então’, digo-lhe, ‘acho que prefiro ir ao outro que reservaste’. O A. liga para o restaurante e diz: ‘pronto? Fata ignorante?’* e aquilo dá-me uma vontade imensa de rir e desato às gargalhadas dentro do táxi. Quando desliga, as gargalhadas dele juntam-se às minhas e vamos nisto até que o taxista pergunta ‘afinal para onde vamos?’. É uma pergunta razoável, sobretudo quando olho para o taximetro e vejo a pequena fortuna que marca.

O A. dá as indicações ao taxista. Bairro Judeu. Quando chegamos, as ruas estão todas fechadas. Deve dizer-se que andar de taxi em Roma, à noite, passando por todas as atrações turísticas e por outros edifícios e fontes menos conhecidas, é uma viagem belissíma, apesar do preço. O taxímetro marca agora uma fortuna maior e eu preocupo-me, embora saiba perfeitamente que o A. não me vai deixar contribuir com um cêntimo. O táxi não pode entrar no Bairro Judeu e o A. começa a queixar-se que não consegue caminhar muito com as muletas, que lhe doi a perna,… até que o taxista pára o carro e pede a um polícia se levanta uma das barreiras. O polícia explica que não pode ser. Está tudo bloqueado porque é o fim do ano hebraico (?!). Dentro do carro o A. faz de A., como de costume, e começa a protestar e a lamentar a sua sorte. Digo-lhe que tenha calma, que não importa, que vamos a outro restaurante. Protesta mais e eu digo-lhe outra vez que não vale a pena. Que há montes de restaurantes em Roma. Já um pouco farta dos protestos dele e da confusão que começa a formar-se dentro do táxi com ele a dar ao taxista várias alternativas, digo-lhe que nem sei porque me espanto… com ele tudo o que é simples se transforma rapidamente numa confusão. Pára de protestar e diz-me ‘sim, sim, mas é só quando estou contigo’. Respondo-lhe que não é absolutamente nada verdade o que ele acaba de dizer e preparo-me para lhe dar alguns exemplos de como tudo o que pode acontecer de confuso, lhe acontece a ele, independentemente da pessoa ou pessoas com quem esteja.

Mas ele lembra-se entretanto de um restaurante na Piazza Sant’ Egidio e finalmente a calma volta ao táxi que, depois de atravessar uma das pontes sobre o Tevere, nos deixa em Trastevere, na Piazza, mesmo diante do restaurante. É realmente um sítio simpático e a comida é divinal. Muito mais tranquilo, o A. entretém-se a ser exageradamente simpático comigo. Pede-me que lhe diga todas as coisas bonitas que me aconteceram nestes últimos dois anos. Digo que trabalho e trabalho e trabalho. As coisas que ele sabe. Depois resume ele mesmo os seus últimos dois anos e enquanto fala das suas histórias (e confusões em que se mete constantemente, mesmo se não por sua culpa), eu vejo tudo o que de bom e mau tem a Itália, naquilo que me conta. Rimos-nos muito, disparatamos mais e a certa altura começa a tirar-me fotografias, como de costume. Umas atrás das outras. Ficam todas horríveis e também isto é o habitual nesta situação que se repetiu já tantas vezes, em tantos lugares. Digo-lhe isso mesmo: ‘nunca me tiraste uma fotografia bonita na vida!’. Desmente-me com veemência. Todas as fotografias que me tirou são ‘belle belle’ e rimos mais e disparatamos mais. Até que ele diz: ‘que saudades que eu tinha tuas! Destes disparates, destas gargalhadas’. Penso que o mesmo acontece comigo, afinal. Mas não lhe digo. Apenas me rio mais e começamos a falar de trabalho e de planos de trabalho e de um sítio que o instituto dele vai abrir em breve num dos lugares mais bonitos onde estive em Itália.

Fazemos planos que provavelmente nunca serão cumpridos, depois de eu dizer que era capaz de passar, nesse sítio, seis meses a trabalhar, sem dificuldade. Mesmo se é isolado. A beleza daquele lugar de certeza que me compensaria do isolamento. De certeza. Gosto tanto dos nossos planos disparatados que surgem de lado nenhum e que só de vez em quando vão a algum sítio! Digo-lhe isto. Ele diz que tem saudades de trabalhar comigo também. Que afinal, apesar dos disparates e das gargalhadas e das discussões, trabalhamos bem juntos. É absolutamente verdade e há para aí publicadas muitas coisas que o comprovam, se for necessária evidência empírica. Digo-lhe que temos mesmo de pensar num projeto, por pequeno que seja, e ele começa a lamentar-se que, também aqui em Itália, há cortes no financiamento à investigação e que não é fácil atualmente encontrar verbas para financiar o que quer que seja. Isto leva-o a contar-me mais coisas sobre o sítio em que trabalha e os problemas que tem. É uma pessoa extraordinariamente viva quando fala. Colorida. Entusiasmada. E passado um bocado estou a rir-me de novo das histórias disparatadas, mesmo de coisas que, contadas por outra pessoa qualquer, não dariam absolutamente nenhuma vontade de rir. Quando me conta uma situação complicada como se fosse uma comédia hilariante, digo-lhe em inglês: ‘it seems like all the shit in the universe happens to you’… ele olha para mim e murmura ‘tutta la merda dell’universo succede a me’… e eu dou uma gargalhada porque em italiano até este tipo de frase soa divinamente, e respondo-lhe que sim, que também eu tinha muitas saudades dele e destes disparates e destas gargalhadas.

É verdade. Acho mesmo que ele vai ler isto um destes dias. Disse-me há bocado que, de vez quando, lia os meus postais, no blogue. ‘Para quê? Tu não entendes português, pá!’. ‘Alguma coisa entendo, no resto vou trabalhando’… Por isso, A. se vieres um destes dias ler e trabalhar neste postal, para o entenderes nessa bela língua que é a tua, fica sabendo que ninguém me faz rir como tu fazes. E se mais não houvesse, isto seria já suficiente para justificar a amizade. Fica também sabendo que cantar o ‘Genova per noi’ ou ‘Una giornata al mare’, do Paolo Conte, dentro de um táxi que atravessa Roma à noitinha, é uma coisa muito difícil de repetir. Fácil de recordar, portanto. É o tipo de coisa que só faz sentido contigo.
Un bacini, mio caro**.

*’Está lá, Fada Ignorante?’
** um beijinho, meu querido.

Comments

  1. Camaradas says:

    A cidade mais fascista e retrógrada com laivos católico salazarentos que conheço.


  2. salazarentos é capaz de ser excessivo… talvez ‘mussolinianos’, não? Mas não concordo de todo consigo, ou melhor… não acho que Roma seja uma cidade retrógada. É uma cidade que tem problemas, seguramente, mas funciona, à sua maneira. E as cidades são coisas vivas e Roma é absolutamente uma cidade viva. Fascista e católica, não sei dizer… ou melhor, terá uma maior influência e presença católica sim, o que penso que se compreende, dada a presença do Vaticano.,, mas fascista? Bom, talvez conheça poucos romanos de gema, eu, ou talvez só conheça ‘romanos’ de esquerda, afortunadamente. 🙂