Os predadores são sempre selectivos

O jornalista de política da “Sábado”, Vítor Matos, que está a fazer a cobertura da campanha da PAF, vai lançar um livro intitulado “Os Predadores”.

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O Expresso, pela pena de Nelson Marques, faz uma resenha, a qual, reconheçamos, poderá não reflectir o sentido do livro, mas, tal como está, tem duas particularidades notórias:

  1. Bate em quase todos os partidos políticos – a teoria do saco de gatos e
  2. É particularmente virulenta com o PS.


Este segundo ponto nota-se em vários detalhes. Por exemplo, apresenta as directas e primárias do PS como um embuste com base numa teoria, a de que se deu voz a “esquemas de caciquismo”. Admito que existam, mas não concretiza. Por outro lado, ao falar da eleição de Menezes para o PSD, afirma que este terá pago as quotas de militantes (milhares, insinua-se nas entrelinhas) com recurso a um hacker. Aqui não houve embuste, foi uma surpresa.

Também fala de Costa e de Passos. Do primeiro  diz que “se  é preciso ganhar, usam-se os meios necessários para ganhar.” Por oposição a este político sem escrúpulos, Passos é apresentado como “um produto da ‘jota'”, possuidor de uma “cultura interna dos partidos” – tal como Costa, sublinha o jornalista, não vá o leitor esquecer-se.

Apesar destas farpas, o maior ataque a Costa, sem equivalente em Passos, reside em afirmações como “E ele [Costa] foi construindo o seu poder recorrendo ao que fosse necessário”, tendo na Câmara de Lisboa feito “explodir todos os interesses à volta da autarquia.” Continua o jornalista afirmando que “estamos a falar [da contratação] de ex-presidentes de junta, de presidentes de junta que não foram eleitos, de dirigentes das estruturas à volta de Lisboa, que ficaram desempregadas quando o partido perdeu câmaras, da rede de familiares de notáveis do partido. Tem lá a mulher do Marques Perestrello, que é o presidente da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS, e está lá a mulher do próprio vereador Duarte Cordeiro.” E remata enfatizando que “se não é ele a fazê-lo, permite que os dirigentes mais próximos dele o façam.”

Não me surpreende o que é relatado, já que está perfeitamente documentado que a CML é um pote para boys do PS e do PSD (esta parte esqueceu-se o jornalista de referir).  Mas vejamos o que é dito quanto a Passos Coelho. Parece que “passou uma fase difícil da vida e foram os amigos da JSD que lhe deram a mão”. Não é, portanto, um “discípulo de Maquiavel”, mas sim alguém que merece a nossa compaixão devido às dificuldades por que passou. Teve empregos em empresas encostadas ao Estado, esse mesmo Estado que Passos se entreteve, com particular dedicação, a entregar a outras empresas, mas foi por necessidade. Aqui a situação resume-se com um tal “nunca saiu da bolha”. Nem uma palavra, por exemplo, sobre as contratações dos especialistas de 21 anos, ou quanto ao facto de ter enchido 75% das nomeações para dirigentes públicos com militantes do PSD e do CDS.

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Imagem da reportagem RTP, Sandra Felgueiras, 03/07/2015

O jornalista, já que falou de Marco António Costa, podia também retratar os casos deste “Alpinista Político, os SHM e a sua Rede” e igualmente concluir que “se não é ele [aqui Passos Coelho] a fazê-lo, permite que os dirigentes mais próximos dele o façam.” Resume o caso, no entanto a alguém que tem “um passado” que se tornou um activo tóxico para o líder que apoia.

Não poderia o jornalista deixar de falar de Portas. No entanto, tendo anteriormente referido fraudes nas eleições internas dos partidos, parece ter-se esquecido do famoso Jacinto Leite Capelo Rego, o qual, curiosamente, nunca deu a cara, e do milhão de euros que caiu nas contas do CDS. Nada disso, o CDS é apenas “um partido muito pequeno e tem pouco poder para distribuir.”

Esqueceram-se do BE mas há um parágrafo dedicado ao PCP, “um partido de profissionais da política”, contrariamente aos amadores do PSD, CDS e PS, depreendo eu, “onde abertamente não há democracia interna.”

Com estas comparações não pretendo defender que um seja melhor ou pior do que o outro, nem sequer que sejam iguais. Em causa está a imagem que a reportagem do Expresso pinta e que, eventualmente, o livro alarga. E esta é a de um calculista Costa, por oposição a um Passos digno de compaixão, com mais alguns casos pelo meio para isto parecer abrangente e, como dito acima, meter tudo no mesmo saco de gatos, no qual, pode-se concluir, se todos são iguais, mais vale escolher aquele que é mais humano. Que será Passos Coelho, assim se conclui lendo o artigo do Expresso.

Comments


  1. Uma só nota: foi este PPC que pôs um filtro independente a exigir qualificações e a garantir concorrência na admissão a quadros superiores do Estado. É um princípio de sanidade que em 40 anos não aconteceu.
    O favoritivismo estará lá… mas não tanto.

  2. NNIKO says:

    o que a quadrilha faz para continuar a ir ao bolso dos tugas .

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