O eleitorado que mudou

Uma análise de, Manuel Carvalho, PÚBLICO, 27/09/2015, para se ler com a mente despida de preconceitos.

Os perplexos com as sondagens e outros cépticos

Anda meio mundo perplexo com uma provável vitória da Coligação nas eleições do próximo domingo.

No tradicional julgamento das eleições, que ora punem ora aplaudem quem governou, os números que as sondagens apresentam não batem certo com a leitura que fazem do passado recente. Custa-lhes perceber como podem os partidos de um governo ganhar depois de imporem ao país a mais severa dieta das últimas décadas. Têm dificuldade em conceber que governantes que fizeram disparar o número de pessoas sem emprego para a casa do milhão ou forçaram a saída de centenas de milhar de jovens do país possam ser premiados com a reeleição. Não lhes cabe na cabeça como pode um governo que centrou o ajustamento económico e financeiro nos cortes de salários e pensões ou em brutais aumentos de impostos voltar a merecer confiança dos eleitores.

1. Olhando para o que foi a política em Portugal nas últimas décadas, a posição da Coligação nas sondagens é, de facto, um absurdo que não cabe no entendimento. Para o entender, talvez seja por isso obrigatório virar a página do passado recente e admitir que a sensibilidade política de uma parte substancial dos eleitores mudou radicalmente depois destes quatro anos de devastação. O Portugal eufórico dos anos de 1990 ou o Portugal duvidoso da década passada já não existe. O Portugal que media os programas eleitorais pela generosidade das promessas perdeu-se em parte incerta. O que sobrou é um Portugal cauteloso, quase cínico, que se contenta com o pouco que tem. Um país que, depois de quase 20 anos de frustrações e promessas vãs, prefere a certeza mediana às dúvidas auspiciosas. Se essa nova atitude denuncia realismo ou uma rendição ao conformismo, é outra história. O que há a sublinhar é que há algo de novo no ar que interpela as ideias feitas das campanhas.

Na separação de águas que se produziu no antes e depois da troika, a Coligação foi capaz de cavalgar esse novo situacionismo para mobilizar todos os votos da direita e boas fatias do eleitorado do centro-esquerda. O que une essa franja de eleitores que pode rondar os 40% é muito mais do que o apelo ideológico da direita. Há-de haver na sua opção eleitoral uma forte dose de pragmatismo. Com este Governo, acreditam, o país há-de penar sem alma nem ambição durante mais uns anos, mas ao menos não corre o risco de voltar aos pesadelos de 2011.

Passos e Portas perceberam desde a primeira hora a mudança que estava a acontecer. Nas Europeias do ano passado, a actual coligação ficou a apenas 3.5% do PS. Os socialistas, porém, acreditaram que o problema era António José Seguro e em vez de analisar a fundo o que se passara, preocuparam-se em mudar de líder. Como escreveu ontem Ricardo Costa noExpresso, “o PS não soube valorizar o que se passou na Primavera de 2014 com a saída limpa. Centrou-se no facto de nenhum português sentir qualquer melhoria e desvalorizou o poder simbólico, político e económico que essa saída tinha a médio prazo”. Com esta falta de comparência, o PS deixou todo o eleitorado do centro vulnerável à mensagem e à propaganda do Governo. Para esta faixa de votantes que decide quem ganha e quem perde, a mensagem política da Coligação parecia mais ajustada ao seu medo de arriscar do que propostas do PS.

Para muitos críticos e os inconformistas à esquerda, o triunfo dessa mensagem resulta da mentira e da manipulação de forças invisíveis e poderosas. De um sistema criado pelo capital e alimentado nos jornais e televisões. Para essa mole de eleitores perplexos e incrédulos com as sondagens, é mais fácil criticar um “sistema” do que tentar perceber o eleitorado da classe média que conservou o emprego, manteve uma vida apesar de tudo normal e tem um medo de morte do fantasma da bancarrota. Na apreciação dos cépticos, o pânico de 2011/2012 não iria deixar marcas profundas na percepção dos portugueses sobre a política. Pelo contrário, indo além da troika, os partidos do Governo estavam condenados ao destino do PASOK na Grécia. Esse foi o seu erro. António Costa tentou preveni-lo com um programa prudente, mas pelo meio foi semeando promessas avulsas ou sinais de intransigência na procura de compromissos que levaram muitos eleitores a suspeitar que, afinal, nada tinha mudado para os lados do Largo do Rato.

A uma semana das eleições, é tarde de mais para o PS alterar o contexto desfavorável em que se deixou embrulhar. António Costa não tem um discurso eficaz para um país cansado, receoso e descrente, um país que mudou com os rebentamentos da troika e com a ascendência de um razão política na qual o empreendedorismo, os juros e os recordes das exportações valem mais do que os indicadores da pobreza ou da exclusão. O “tem de ser” de Passos está a mostrar-se mais eficaz do que o “deve ser” de António Costa. Depois de tantos anos de frustração, o sonho transformador da política vale menos do que a gestão contabilística do Estado. Só assim se pode encontrar uma justificação para o facto de o PS estar com tantas dificuldades.

É factual que a mentira na governação e na campanha da direita tem sido parte da estratégia. Algumas pessoas têm consciência dela, outras nem tanto.  Ao contrário do cronista, eu acho que boa parte do “triunfo dessa mensagem resulta da mentira e da manipulação de forças invisíveis e poderosas. De um sistema criado pelo capital e alimentado nos jornais e televisões.” Da mesma forma que foi esta máquina de “vender sabonetes” que potenciou anteriores vitórias de uns e derrotas de outros. Quando um governante debita números e estes apenas são retransmitidos, há, de facto, uma passadeira vermelha pintada pela ausência de contraditório.

Acho, também, que a generalidade do eleitorado, mesmo o mais mal informados, sabem que o governo quebrou as promessas eleitorais de 2011 e que irá continuar a fazer o mesmo que até agora tem feito. O que me leva ao ponto em que concordo com Manuel Carvalho, quando este fala do “eleitorado da classe média que conservou o emprego, manteve uma vida apesar de tudo normal e tem um medo de morte do fantasma da bancarrota”. E é precisamente neste ponto de demonstrar que continuamos a um passo da bancarrota e onde a oposição tem falhado, apesar de alguns partidos se terem esforçado nesse sentido.

O facto é que estamos com o mesmo défice de 2011, a dívida em função do PIB é maior, o desemprego é maior e o país está mais pobre. Basta que os juros comecem a subir, e isso acontecerá mais cedo ou mais tarde, para a situação que nos levou ao resgate de 2011 estar aí de novo.

É esta mensagem que não está a passar e é uma mensagem verdadeira. Não estando a ser passada neste preciso momento terá consequências para os próximos anos. Se a coligação de direita ganhar, irá sofrer na pele esta realidade, mas como não terá maioria, dirá que a culpa é da oposição. Por outro lado, se o PS ganhar, quando a bigorna dos juros cair em cima do país, a coligação de direita dirá que a culpa é de quem ganhou. E será difícil contrariar esta mensagem porque esta não está a ser desmontada.

O PS, ao insistir no seu programa “diferente”, está simplesmente a cair na armadilha da direita, como diz Pedro Adão e Silva, de permitir que se esteja a discutir o programa do PS, em vez de se discutir o que foi a governação e que se propõem fazer para o próximo mandato.

Será o medo da bancarrota, e não o que irá o próximo governo fazer, que irá decidir a próxima eleição.  E é de ter medo, pois o bater das asas da borboleta dos mercados financeiros provocará o caos nesta jangada de pedra.

these-butterfly-effect-spirals

Nota: Manuel Carvalho, no restante editorial, do qual aqui apenas se replica metade, demonstra, ao colocar a nu a argumentação de Passos Coelho sobre a não venda do Novo Banco, que nem toda a comunicação social participa neste jogo do poder invisível.

Comments

  1. Konigvs says:

    Eu acho que aconselharia um bocadinho a sensatez, até depois do que aconteceu recentemente com as sondagens na Inglaterra e na Grécia, a esperar pelo dia das eleições para ficarmos todos incrédulos ou céticos.
    Também ainda me lembro muito bem de, nas legislativas de 2011, saírem sondagens com a vitória do PS com uma diferença de 10%. ou, mais distante, da vitória esmagadora do Fernando Gomes, naquilo que acabou por ser a primeira vitória de Rio para a Câmara do Porto.
    E tantas sondagens e ainda ninguém me perguntou a mim em quem vou votar.


  2. O que deve ser desmontado é a “bancarrota”.

    Impossível fazê-lo agora quando esta “narrativa” entrou forte e é repetida à exaustão.

    “O que sobrou é um Portugal cauteloso, quase cínico, que se contenta com o pouco que tem.” – esta foi a política deste governo: jogar uns contra outros, novos contra velhos, privados contra f. públicos.

    Quando 1 povo se torna cauteloso, eufemismo para medroso, estamos mal.

    • Nightwish says:

      A bancarrota é uma realidade, mas tem muito pouco a ver com Sócrates, mas sim com ter uma moeda que não tem nada de única.


  3. Software de apuramento estatístico das respostas foi feito na VW…


  4. Passaram 4 anos a negar a necessidade de austeridade, e a.adivinhar levantamentos populares.
    De adiamento em adiamento puseram nas eleições o inevitável momento da revolta.
    A campanha não o mostra? As sondagens não o dizem?
    Aguarda-se uma misteriosa vaga de fundo…quando o fundo sempre é conservador.

    • j. manuel cordeiro says:

      O que vejo na campanha é agressividade contra a PAF e ruas vazias.

  5. anonimo says:

    Eu tenho muitas dúvidas sobre a vitória da PaF que as sondagens parecem quer indicar.
    Mas, a acontecer, tenho poucas dúvidas que se deve ao “eleitorado da classe média que conservou o emprego, manteve uma vida apesar de tudo normal e tem um medo de morte do fantasma da bancarrota.”
    A este propósito dois comentários:
    – Estamos a falar de um eleitorado e não da população. Ou seja, se não houvesse abstenção provavelmente este eleitorado até seria (muito) minoritário mas estou convicto que a abstenção está precisamente nos grupos sociais em que a crise teve maior impacto;
    – O eleitorado (este eleitorado) já percebeu que não vale a pena analisar com muito detalhe as promessas e os programas eleitorais: a realidade se encarregará de os tornar a todos obsoletos (lembram-se dos estudos das PPP?). Mas houve um facto que contribuiu muito para que o “fantasma da bancarrota” passasse a ser mais real: a situação Grega. E esse vai estar na memória deste eleitorado no momento do voto.