Como vi as eleições legislativas

Não posso deixar de me congratular com o resultado das eleições no rectângulo, recordando aos mais distraídos a decisão de me abster, que motivou a quase ausência do Aventar em período eleitoral, apesar de ter permanecido um leitor atento. E também a abstenção voltou a registar uma subida, apesar das sondagens de boca de urna analisadas exaustivamente pelas televisões na 1ª hora, quando precisavam encher chouriços enquanto aguardavam pelas 20h00, acompanhei a emissão até cerca das 20h15… Não vi ou li grande referência ao tema, mas a verdade é que se passou de 41,08% em 2011 para 43,07% em 2013. Algo em que todos os partidos, especialmente os que têm governado, devem meditar. Promessas eleitorais não cumpridas, falta de credibilidade nas alternativas e candidatos recrutados na tralha dos aparelhos muito contribuem para a constante e sólida evolução desta tendência.

A coligação que desgoverna o país há 4 anos, sofreu obviamente uma pesada derrota apesar dos festejos. Claro que devem governar, pois tiveram mais votos e elegeram mais deputados, isso é inquestionável. Mas perderam a maioria no Parlamento, desceram cerca de 12% em percentagem de votos expressos, e perderam 25 deputados.

O PS sofreu uma pesadíssima derrota, não há volta a dar. António Costa apoiado nos sectores mais radicais do partido forçara a substituição de António José Seguro por recusar vitórias de Pirro. O mais que conseguiu foi uma estrondosa derrota, à qual não é alheia a postura radical de alguns destacados dirigentes, como João Galamba ou Isabel Moreira, a par de outros formados na JS. Acresce a proximidade com históricos cada vez mais fora do tempo e da razão, ou dos rostos que trazem à memória a governação de Sócrates. Tal como o PSD, o PS precisa mudar de vida. Mas isso será provavelmente uma questão para depois das presidenciais. Para já António Costa perdeu força, a candidatura de Sampaio da Nóvoa viu diminuir as hipóteses de vitória, ao contrário de Maria de Belém que pode alcançar um excelente resultado, quiçá surpreender Marcelo.

A CDU ganha sempre, já é um clássico, mas ser ultrapassada pelo BE e ver o PAN eleger um deputado, que poderá vir a tornar inútil o PEV, não augura uma perspectiva de grande futuro para aquelas bandas.

O BE terá sido a meu ver o vencedor das eleições. Se é legítimo admitir que a coligação governamental superou as expectativas, que há um ano António Costa era visto como o próximo primeiro-ministro de Portugal e outras considerações do género, que dizer do BE? Liderança bicéfala, mais tarde partido dividido ao meio, incapazes de se entenderem na sucessão a Louçã, cisão com o surgimento do Livre e Agir. Catarina Martins vista como fraca revelou-se à altura do desafio, Mariana Mortágua terá sido uma mais valia, estancando a hemorragia que se previa para o voto útil. Resta saber se estamos perante algo consolidado ou será mais uma oportunidade perdida para afirmação deste espaço político.

A principal conclusão a tirar é que em Portugal votam cada vez menos eleitores e continua a votar ao centro. Os eleitores não querem derivas radicais. Quando o PSD vira um pouco à direita perde eleitores ao centro. Quando o PS vira à esquerda, perde eleitores ao centro. O espaço político à esquerda do PS é uma realidade incontornável, mas não poderá continuar a ser representado por duas forças políticas, ora agora tens tu, ora agora tenho eu um bom resultado. É uma questão de tempo, que BE e PCP terão que se defrontar, cabendo ao eleitorado a decisão. Também à direita do PSD existe espaço para um projecto político que o CDS/PP não representa e muito menos o PNR. Além de ter ficado satisfeito com as derrotas da coligação governamental e do PS, não me revendo na vitória do BE que reconheço e no mais ou menos empate da CDU, fico com a certeza que muito provavelmente em 2017 voltaremos a ter eleições legislativas.

Comments

  1. joão lopes says:

    43,07% de abstenção foi o partido “ganhador” ,o resto é conversa da treta.quanto ao Paf e a sua estrategia futura de fazer-se de “vitima” para provocar a queda do governo e culpar a esquerda toda como não solução governativa, ou apenas como força de bloqueio ou ainda como responsavel pela chamada da troika(devido aos ultimos governos do socrates que nunca foram de esquerda)quanto a isso a “narrativa” da direita deu 10 de avanço a toda a esquerda.por outro lado,a abstenção não dá assentos no parlamento ou apresenta programas de governo ,por isso senhores abstencionistas vocês não resolvem nada pelo que se podia fazer como nas listas de utentes dos centros da saude:não frequenta,fora…ou então não vota,não serve numa democracia.

    • Rui Silva says:

      Gostava de saber o que quer dizer com:

      “fora…ou então não vota, não serve numa democracia.”

      cumps

      Rui Silva

    • Ferpin says:

      As suas propostas para os abstencionistas são algo radicais.

      No entanto, nutro um profundo desprezo pelo portugueses que se abstém.
      Não são os 43% é claro. Nesse número estão os 450.000 que o passos correu do país e os mortos.
      Estão ainda portugueses deslocados do seu local de registo para votar, e que bem à portuguesa não actualizaram a morada. Muitos destes gostariam de ir votar mas não lhes dava jeito a viagem.

      Agora, os tugas que abdicam de votar deviam sofrer algum tipo de penalização.
      Aliás, face à falta de cultura democrática do povo português devia ser obrigatório ir votar.

      • joao lopes says:

        quando uma pessoa nem sequer se desloca a uma mesa de voto de forma sistematica(eu conheço muitos) e depois vão para o “cafe” mandar bocas aos politicos(ex:eles são todos iguais)…no Brasil pagam multa,por exemplo,e cá sabendo como o tuga é ,bastava ameaçar com a multa para a abstenção cair para…5%(pergunta:a quem interessa mais uma tão grande abstenção?)

  2. Rui Silva says:

    Gostava de saber o que quer dizer com:

    “fora…ou então não vota, não serve numa democracia.”

    cumps

    Rui Silva