Sem memória, o povo falou

Santana Castilho*

Temos que aceitar a democracia, particularmente quando ela nos contraria. Mas é natural que fiquemos desapontados e legítimo que, respeitando-os, analisemos os resultados. Os eleitores romperam o ciclo dos últimos quatro anos, retirando 28 deputados (falta apurar quatro) e cerca de 750 mil votos à coligação. Mas, na realidade, preferiram a continuidade à mudança. O povo português é hoje o único na Europa a premiar com uma vitória eleitoral os responsáveis por quatro anos de austeridade desumana. Por falta de memória? Por medo? Seja por que for, há que respeitar a escolha.

Os portugueses escolheram perdoar à coligação, como se de nada relevante se tratasse, 19 violações da Constituição da República Portuguesa, decretadas pelo Tribunal Constitucional (entre elas, as relativas aos orçamentos de Estado de 2012, 2013 e 2014, Código do Trabalho, Código de Processo Penal, Código de Processo Civil, Rendimento Social de Inserção, requalificação dos funcionários públicos, despedimentos sem justa causa, cortes salariais na função pública e enriquecimento ilícito, por duas vezes).

Os portugueses escolheram passar uma esponja sobre um Governo que promoveu o empobrecimento generalizado e o agravamento das desigualdades sociais, presidido por um cidadão que incumpriu o que prometeu para lá chegar, mentindo repetidamente ao povo.

Os portugueses escolheram permitir a continuidade em funções de um Governo que incentivou a emigração de quase meio milhão de concidadãos em quatro anos, que vendeu os activos portugueses mais rentáveis, que paralisou a Justiça, que promoveu o declínio da escola pública e do Sistema Nacional de Saúde.

Os portugueses escolheram aceitar que os salários e as pensões continuem a ser cortados e as crises bancárias continuem a ser pagas com os impostos de todos. É certa a necessidade de recapitalizar o Novo Banco. Dizem os responsáveis, que os portugueses reelegeram, que o dinheiro virá do Fundo de Resolução. Digo eu que virá dos contribuintes e já disse a Comissão Europeia, há dias, que os impostos podem aumentar. A seguir virá o orçamento de 2016, altura para aparecer o corte de 600 milhões nas pensões, prometido à UE. E se a meta do défice não for cumprida em 2015, o que é provável, o reforço da austeridade em 2016 é óbvio. Assim votaram os portugueses, que não terão de que se queixar.

Os portugueses escolheram as propostas da coligação sobre o decantado plafonamento, significando isso a descapitalização do sistema público, com o consequente corte de pensões e subsídios, a bem da sustentabilidade.

Vale aos portugueses, por ora, que a incompreensível escolha que fizeram não chegou à maioria absoluta.

 A coligação PSD/CDS venceu as eleições, mas tem à sua frente uma maioria absoluta de deputados que se lhe opõem. O PS sofreu uma derrota pesada e António Costa começou uma existência difícil, legitimamente questionado dentro do partido. Belo pântano que estas eleições deixaram à Nação!

Diz a imprensa que Cavaco receberá hoje (escrevo a 6 de Outubro) Passos Coelho. Não será, ainda, para o convidar a formar Governo. Mas isso irá acontecer, sendo para já adquirido que António Costa não se demite, porque rejeita aplicar a si próprio o veredicto que aplicou a Seguro.

Passos já afirmou publicamente querer negociar com o PS. E negociar o quê? Só pode ser uma de duas coisas: constituição de um Governo de que o PS faça parte, ou um acordo de incidência parlamentar. Se conseguir uma ou outra coisa, terá um mínimo de estabilidade para começar a governar e ficará adiado o provável cenário futuro de eleições antecipadas. Mas se o PS aceitasse participar num Governo de bloco central, para mais em posição de menoridade, entraria em modo de suicídio político garantido. Admito que, não dando esse passo e em nome do que assume ser o interesse nacional (engolindo Costa o que disse em campanha), viabilize o orçamento de Estado a apresentar pela coligação, que lhe fará algumas cedências. Teremos, assim, a continuação da austeridade (que Wolfgang Schaeuble já saudou, sem decoro) e tempo ganho pelo PS para se entender internamente, de modo a não repetir, em situação de eleições antecipadas que se seguirão, os ziguezagues e os erros graves que cometeu nestas.

O PIB recuou para os valores de há 4 anos. A dívida pública, de que se fala muito, e a dívida privada, de que se fala pouco, esmagam os particulares e o Estado. O futuro de Portugal é função destas duas variáveis, que nos tornam dependentes do que a Europa (leia-se Alemanha) decidir corrigir em sede de Tratado Orçamental. Com o resultado destas eleições, não teremos um Governo que pugne por uma verdadeira união monetária, alicerçada na indispensável integração fiscal e orçamental, sem a qual a crise das dívidas soberanas continuará a impedir o investimento, o consumo e o emprego. Foi isto que os eleitores, que deram a vitória à coligação, desprezaram.

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Comments


  1. Olhando para o que os média foram vinculando, durante estes 4 anos, como previsões dos tremendistas(chumbos sucessivos, miséria profunda, fim da escola pública “nossa”, SNS ..) o povo chumbou a irresponsabilidade.

    • Nightwish says:

      Não são previsões, são realidades.
      Quanto a irresponsabilidade, défice de 4,2% na primeira metade do ano e uma economia débil sem sinais de crescimento há-de ser qualquer coisinha também.

  2. anonimo says:

    “Sem memória, o povo falou”

    A memória não começa em 2011. Talvez tenha sido essa a questão determinante. O povo, porventura, tem afinal mais memória do que Santana Castilho.

  3. joao lopes says:

    os portugueses,salvo seja,tirando os que não foram votar(ao não votarem ,assumem tudo o que qualquer governo decidir,sem abrirem o bico),mais a maioria parlamentar de esquerda,ao Paf resta governar em minoria parlamentar,e tendo em conta que o Paf fez o que bem entendeu sem dar cavaco a ninguem nos ultimos 4 anos,não me parece que o ps tenha grande base de entendimento para negociar(a não ser que o costa queira ser uma barriga de aluger do paf)

  4. Rui Silva says:

    Tantas violações á Constituição, e o Professor Santana Castilho não questiona se algo na Constituição estará errado.
    Nunca lhe assaltou o bestunto que se o Povo não comunga da sua classificação de ilegalidade.
    O Professor devia pensar que o Povo provavelmente não acha anticonstitucional que os portugueses que se reformam pela Caixa Geral de Aposentações devam ter os mesmos direitos que aqueles que se reformam pelo regime geral da Segurança Social.
    Assim como, um horário normal de trabalho de 40 horas etc, etc.
    O Professor Santana Castilho é um perfeito representante da nossa “Intelectualidade”, muito centrado no seu raciocínio, muito pouco dado a questionar-se a si mesmo, enfim pouco dado á mudança, e muita dificuldade em acompanhar a evolução, além de um forte sentimento de classe (casta). Muito típico para quem vive na e para a Academia.
    Depois fica surpreendido ….Não me admiro nada.

    • Nightwish says:

      A lei? Para quê cumprir a lei? Se o PM sabe que até nem vale a pena pagar impostos desde que se tenha poder.

      • Rui Silva says:

        O PM quando não pagava impostos não tinha poder, não era ainda PM. Normalmente os PM pagam os impostos, o problema é outro…

        cumps

        Rui Silva

        • Nightwish says:

          Ser membro da JSD não é poder? Ser apadrinhado pelo Ângelo Correia não é poder? Ter um emprego inútil para sacar fundos europeus não é poder?
          Juízo, homem.

          Depois é toda uma diatribe a dizer que a Academia nada faz, como se as empresas nacionais fossem capazes de inovar um pentelho. Agarram-se ao multibanco e à via verde como se tivessem nascido do zero e se fossem tão fáceis em países onde há concorrência, de resto… Nada. Vão os portugueses lá para fora investigar e inovar, que aqui o chefe quer a mesma merda de sempre medida em horas com o cú em frente ao teclado.

  5. joão lopes says:

    amigo rui,voce cada vez que defende o “seu” amigo passos,só o sabe enterrar.coitado do passos,com amigos assim mais vale juntar-se aos inimigos

    • Rui Silva says:

      O assunto, é comentar uma das habituais fantásticas análises politicas do nosso intelectual Dr. Santana Castilho.
      Vem um e lembra-se de mandar uma boca que do ponto de vista lógico não faz sentido.
      Eu faço um reparo do ponto de vista lógico.
      Vem você, e claro vê logo uma amizade pelo PM.
      Isto faz-me lembrar o ditado:
      “se derem um martelo ao leso tudo lhe parece um prego”.

      cumps

      Rui Silva

      :

  6. Antonio Santos says:

    António Costa era candidato a primeiro-ministro. Caso os portugueses quisessem um governo liderado por António Costa teriam certamente posto o PS à frente. Não puseram.

    http://observador.pt/opiniao/a-fraude-pos-eleitoral/

    Tudo dito (e bem dito)

  7. Antonio Santos says:

    O povo ainda se lembra do gonçalvismo. Pior momento da história portuguesa


  8. Este blog está a ser alvo de infiltração por parte de jotas. Aqueles que recebem 3.000 euros/mês para lamber o do chefe. Passos mentiu sempre e enganou os portugueses. Destruiu a classe média e perseguiu funcionários e reformados. A história das 4o horas é isso mesmo:perseguição e castigo. As contribuições para a ADSE na proporção em que são feitas é uma extorsão, um roubo, mais uma malfeitoria contra funcionários e aposentados. Pagou por isso. Abaixo a coligação.