Postal para ti, João

12079678_10206367096830341_2140819251585140923_n
(foto do Paulo Abrantes)

Foi-se embora o meu Amigo e eu estou sozinha sem ele. Sozinha daquela solidão desamparada e infinita que vem da falta que inesperadamente nos faz o abraço. Até a pele. As noites sem dormir a conversar há muito tempo. Foi-se embora o meu amigo e eu nao sou capaz de acreditar que uma das pessoas que mais me conhecia os cantos nunca mais vai abraçar-me, ralhar comigo, cantar longamente cantar… Casar os livros dele com os meus. Respirar o mesmo ar. Até a pele. Quem vai agora dizer-me foda-se Elisa és sempre a mesma coisa? Quem vai agora dizer-me que as gajas inteligentes são mesmo muito estúpidas? Quem vai agora dizer-me que a minha memória é a de um suicida? Quem vai agora contar-me as notícias boas? Quem vai agora dizer-me que gostas daquela porque, vê la tu, escreve melhor que eu? Quem vai agora pedir-me que traduza poemas e cenas? Quem vai agora ler-me O Amor em Visita? Quem vai agora amar-me de uma certa maneira, amar-me como se amam os que se reconhecem? Foi-se embora o meu amigo e eu não sei se não lhe diga foda-se João ainda tinha coisas para te dizer. Uma agora mesmo. Ou nao sei se me ponha a chorar. Gosto muito de ti João. Acho que te disse muitas vezes. E estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste.

(Ao João José Cardoso​, que se precipitou claramente)

(O texto tem frases de O Amor em Visita, de Herberto Helder. Eu e o João sabemos porquê)