A um João furacão

Não vou falar de ti na terceira pessoa. Não me mereces isso. Estás e estarás aqui, connosco neste mundo cibernético que tem sido parte da tua vida. É a ti que me dirijo e a ninguém mais.

Raramente conversámos os dois. Para mim, foste sempre uma mente superior. Inibia-me perante ti. Não sabia o que dizer ou escrever. Parecia que, fosse o que fosse que tivesse para dizer, tudo seria demasiado estúpido e fútil comparado com o que te ia na alma.

Comecemos pelo princípio: não gostei de ti antes de te conhecer e não gostei de ti depois de te conhecer. Quer dizer, da primeira vez em que estive contigo, nem deu para te conhecer ou para ter uma opinião sobre ti. Até, se bem me lembro, foste um gajo porreiro. Não nos dava jeito ir a um almoço do Aventar em Coimbra, pelos gastos todos que isso implicaria, e tu ofereceste-te para adiantar o dinheiro do almoço, que te seria restituído logo que possível. Não me senti bem. Nem sequer te conhecia, mas o Ricardo lá me convenceu. Ele, sim, conhecia-te bem. Nesse almoço, eu, ocupada com uma filha pequenina, que até creio ter estado também no teu colo, não conheci praticamente ninguém. Não deu para falar com ninguém. E poucas recordações tenho desse dia. Mas quando tive mais contacto contigo, numa noite em Coimbra, embora tenha gostado da conversa, não gostei de ti.

Durante muito tempo, recusei-me a ir aos almoços do Aventar. Era um mundo que nada me dizia. Embora secretamente fosse ler algumas publicações e algumas tuas, por admirar a tua escrita, sempre fiz questão de me mostrar distante deste blogue, que até o dia de aniversário disputava comigo. Ou assim eu pensava…

Adiante, um dia, lá acabei por aceitar o Aventar na minha vida e por me orgulhar do vosso trabalho. Já eras a alma disto. Lá ia sabendo de alguns dos vossos desaguisados, do teu mau feitio… Comecei a frequentar os almoços de Aventadores. Comecei a gostar de todos vós. Até de ti, ó mau-feitio!

Um dia, lá alguém achou que eu escrevia qualquer coisa de jeito e quiseram-me para vossa companheira. E foi aí, no tal trabalho de bastidores, que percebi a peça que tu és. Irascível como só tu poderias ser. Sem papas na língua, desancavas tudo e todos. Num dia mau, ninguém te escapava. Mas achava-te piada, embora por vezes te excedesses. Conhecendo-te, todos sabíamos que não nos podíamos “pôr a jeito” nem entrar em discussões quando estavas nesses momentos. Claro que quando o sangue ferve, é difícil haver contenção e, às vezes, as coisas lá acabavam mal. Eu, como nunca tivemos grande proximidade, e como nunca estive à altura da tua crítica mordaz, da tua escrita por vezes alucinada e alucinante, da tua mente claramente superior, nunca te mereci grandes reparos. Não perdias  tempo comigo. O que te empolgava eram as lutas com quem estava à tua altura, gente com quem podias discutir, que desafiavas para uma luta de palavras como quem vai para um duelo. Sim, sempre esgrimiste bem a espada das letras. Também te empolgavam as lutas com os atávicos, gente sem horizontes, que não vê para além do que lhe interessa ver. Ou gente simplesmente má, sem respeito por toda a outra gente. Gente oposta de ti. Enfurecias-te e vinhas dar-nos contas das tuas guerras, dos teus novos ódios de estimação. Ou então, descobrias alguém novo, prometedor, e lá ias tu convidar para Aventar connosco.

Foste, do que percebi, um homem intenso, João. Afinal, o tipo de pessoa de quem gosto e com quem me identifico. Entregaste-te às lutas como se não houvesse amanhã. Acho que não conhecias outra forma de viver. Vida intensa, amores intensos, vícios intensos. Creio que por vezes também solidão intensa. E por falar em vícios, lembro-me quando nos apareceste de vapores de nicotina na mão. Que estranho! Aquilo não era a tua imagem. Não combinava contigo. Acho que todos achámos estranho. O JJC de fuminhos electrónicos pendurados ao peito, a deixar o cigarro electrónico a carregar? Nem parecia teu. Estarias a tentar levar uma vida mais saudável. Mas isso, um estilo de vida saudável, não combinava contigo.

Apesar desse estilo de vida, e já apesar de nos teres anunciado que tinhas que matar essa merda desse bicho, já depois de, há uns três ou quatro dias, eu ter sabido que tinhas piorado, achava que te ias safar. Dar um abano a esse gajo, escrever-lhe duas ou três ripeiradas, daquelas que só tu sabes escrever, e mandá-lo passear. Porque tens muita vida para viver, muitos monstros para combater, muitos posts para escrever. E porque as pessoas de mau feitio, mesmo que sejam boas pessoas, duram sempre mais. Toda a gente sabe disso. As pessoas de mau feitio duram mais! Então, como é que tu foste agora, João? Como? Como é que o deixaste ganhar? Tu tinhas que viver mais uns 50 anos, para fazer jus a esse génio terrível e insuportável.

João, provavelmente dirias que não querias isto, que não gostavas, mas hoje vamos os que pudermos à Figueira da Foz prestar-te homenagem. Lá bem no fundinho, acho que te vais sentir orgulhoso pelo reconhecimento dos teus colegas, pela nossa presença. Não vamos despedir-nos de ti na morte, não te aflijas. Vamos antes comemorar a tua vida.

Não desejo que descanses em paz. Nem pensar! Não és homem para descansar em paz. Aliás, só fazia sentido um homem-furacão partir no fim-de-semana em que um Joaquim ex-furacão se manifesta. Nem ele te chega aos calcanhares. Já nem os furacões são como deve ser! Estás a ver? Fazes-nos falta!

Não descanses, João, e volta rápido aqui. O mundo precisa de gente como tu.

Até já!

Comments

  1. João Soares says:

    Noémia Pinto ! É isso mesmo. O mundo precisa de gente como o JJC.
    Tenho imensa pena de não poder contar mais com aquele vendaval,que nos impedia de adormecer fàcilmente.