Reestrutura-te ou morre: o colapso anunciado do projecto europeu

UE

O projecto europeu está moribundo e recomenda-se cada vez menos. Refém de burocratas pagos a peso de ouro, alguns deles não sufragados e controlados pelos interesses das principais praças financeiras e grandes corporações, esse sonho que dá pelo nome de União Europeia já viveu melhores dias. A crise das dívidas soberanas de países que há muito perderam boa parte da sua soberania e consequente imposição de planos inúteis de austeridade cega, verdadeiros atentados ao crescimento da periferia e à sustentabilidade das próprias dívidas, veio aprofundar ainda mais o fosso entre as duas Europas que, desde o início, era sabido, sempre andariam a velocidades diferentes. O ressuscitar dos velhos fascismos, da Hungria à França, a ameaça do Brexit, com a qual Bruxelas lida com uma condescendência sempre negada aos desgraçados do sul, a crise na fronteira a leste e a incapacidade de lidar construtivamente com a vaga de refugiados sírios são sinais de que algo não está bem com a construção de uma união cada vez mais desunida. O risco de fragmentação é iminente e já poucos o conseguem negar. 

E eis que entra em cena Mervyn Allister King. Após 10 anos à frente do Banco de Inglaterra, que culminaram com a atribuição do título nobiliárquico de Barão King ode Lothbury e consequente nomeação para a Câmara do Lordes, King apresentou, na passada Terça-feira, um livro onde defende que o peso das dívidas soberanas dos estados-membros atingirá em breve um ponto em que se tornará incompatível com estabilidade política necessária para manter ligadas as máquinas através das quais a União Europeia respira com cada vez mais dificuldade. No entender do economista, a solução passa pela redução significativa dos valores em dívida e, em última análise, pela saída da zona euro dos periféricos, uma saída cujos benefícios a longo-prazo poderão serão mais apelativos do que os pesados custos com que esses estados terão que lidar no imediato. Alguém disse reestruturação?

Sem dar grandes certezas, até porque o exercício da futurologia vale o que vale, Mervyn King antevê que as dúvidas sobre os efeitos de uma próxima crise, sejam eles meramente económicos ou, no limite, geradores de conflitos políticos ou militares, tem uma solução: uma nova ordem mundial. Esta é uma expressão que me assusta. Uma expressão que cheira a totalitarismo e o 1% dos Forúns de Davos e dos Bilderbergs gostam de a disparar sempre que têm oportunidade. Há algo de orwelliano nela. Haverá um meio termo? Ou estaremos condenados a sofrer ainda mais?

Comments


  1. Europa política e económica de abóboras ! (Luminaria.blogs.sapo.pt):

    —— A UE não aparece (bem) … (-por J.V.Malheiros, via Entre as brumas…):

    …apesar de condicionar de forma crescente as nossas vidas, (a U.E.) não nos mobiliza e não nos inspira. Pelo contrário: cada vez mais, envergonha-nos. (…)

    O problema é que (os dirigentes desta UE não … cumpre(m) os requisitos mínimos para ser convidada para o nosso próximo aniversário.»
    —— Abóboras cozidas (-por F. Sobral):

    «Kim Jong-un, que julga governar um país de desenhos animados, diz ter uma arma assombrosa que transforma tanques de guerra em “abóboras cozidas”. Não sendo Flash Gordon, Kim é um ilusionista pop. Diverte enquanto não comete loucuras.
    A Europa, mais conservadora, tem também as suas fotocópias de Kim. Estas são mais discretas mas vão contaminando aquilo que, há uns anos, era o sonho de uma Europa justa, poderosa e iluminista. Rendida à fé da austeridade e à sobrevivência do euro, a Europa tornou-se uma abóbora cozida. As crises institucionais para a formação de governos estáveis, ultrapassadas em Portugal, mas tempestuosas em Espanha e Irlanda, são sintomas de uma gripe mais sólida.

    A Europa está sob o efeito de um degelo e ainda não quis reparar nisso. As fracturas parecem cogumelos a nascer com a Primavera. A crise dos refugiados, o previsível fim de Schengen (fronteiras e segurança comum) como o conhecemos, a “democracia musculada”/ ditatorial dos países do Leste da UE ou o “Brexit” são muito mais do que nuvens passageiras. São tempestades demasiado fortes para se fingir que não existem. Mas numa Europa que só pensa em números (os dos défices, mas não os outros…) é evidente que, mais tarde ou mais cedo, alguém tivesse de começar a falar do tabu: o pagamento das dívidas soberanas. (…)

    Mas chegará o dia em que renegociar a dívida não será um tabu. Sabe-se que ela é impossível de pagar. E que aumentou com as aspirinas da troika. Ninguém, neste momento, pode dizer: “Não pago.” Será excomungado e guilhotinado em Bruxelas e Berlim. António Costa, que não quer acabar como uma abóbora cozida, vai esperar.»

    —– As dúvidas da dívida (-por F.Seixas da Costa, 26/2/2016):
    … compreendo que as formações da “esquerda da esquerda”, que apoiam o governo, tenham necessidade de vir a terreiro colocar alguns pontos marcantes da sua agenda ideológica.
    De facto, sendo co-responsáveis pela viabilização de uma solução governativa cujo programa só limitadamente apoiam, é mais do que natural que procurem utilizar a sua conjuntural visibilidade no novo “arco da governação” para sublinhar temáticas que fazem parte do seu caderno reivindicativo.
    … Alguns dirão que PCP e Bloco estão a “atirar o barro à parede”. Eu diriam simplesmente que estão a ser coerentes. Da mesma forma que o PS está a ser coerente com o que sempre afirmou: a questão da dívida – e a diferença entre “reestruturação” e “renegociação” não é apenas semântica – não deve ser colocada por Portugal em termos exclusivamente nacionais.
    O único quadro possível para o seu tratamento é o da União Europeia, no âmbito de uma resposta comum. Pretender suscitar autonomamente a questão desencadearia, necessariamente, efeitos incontroláveis de isolamento face aos mercados refinanciadores.
    Contudo, isso não é incompatível com o facto de Portugal dever surgir na linha da frente de quantos se dispõem a estimular a abertura de um debate europeu sobre o assunto, persistindo em tentar revisitar a opção pela mutualização da dívida. Para os credores dos países endividados, a quem será necessário relembrar coletivamente os chorudos lucros que têm vindo a obter com as nossas dívidas, essa seria, aliás, a solução preferível a outros modelos mais tradicionais de “apagamento” escritural (da dívida ou parte dela).
    Nunca esquecerei o espetáculo triste que foi ver o dr. Passos Coelho afirmar um dia, à saída da Chancelaria federal alemã, que opção por esses “eurobonds” deveria ser excluída. Uma coisa é não se conseguir fazer vingar aquilo que seria bom para o país, outra coisa é fazer um mimetismo subserviente com a postura alemã.
    Neste domínio, todos nos lembramos, com certeza, da excitação que atravessou o país aquando do surgimento entre nós do “manifesto do 74”, subscrito por personalidades de quadrantes políticos muito díspares. Essas pessoas disseram o óbvio: esta dívida não é pagável e há fortes dúvidas de que possa ser sustentável. O “manifesto” desfez-se na espuma dos dias, muito embora a situação não tenha mudado desde então. Porque as condições externas não foram ainda favoráveis.

    Repito: percebo que a questão da reestruturação da dívida seja cara aos partidos mais à esquerda. Mas parece-me muito evidente que seria muito caro para o país segui-la (sozinho, por isso defendem uma aliança/ coligação/ actuação conjunta de governos e/ou partidos europeus de esquerda). E, cá por coisas, acho que eles também sabem isto.

  2. Carvalho says:

    Não pode haver união política ou financeira quando existe uma enorme desunião cultural.
    Os povos europeus detestam-se cordialmente.
    Logo, quanto mais depressa se acabar com a palhaçada da Des União Europeia, melhor. Vão sobrar as facturas para os mesmos do costume pagarem.