Sementes de esperança em Cuba

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Marco Faria

«Panaderos, panaderos», o refrão ecoa pela Calle Peña Pobre em Havana. O vendedor de pão empurra um carrinho de mão carregado com o mais universal dos alimentos. Farinha, água, fermento e mãos pacientes. Em todo o lado, o pão nasce da mesma forma. Mas Israel, chamemos-lhe assim, não produz pão, apenas o comercializa pela zona velha da capital cubana. Todas as manhãs, o vendedor procura atrair a atenção de potenciais clientes (alguns habituais, outros de passagem): «pan con sabor a mantequilla», insiste.

Cuba atravessa em certa medida uma fase político-económica próxima do processo de panificação: encontra-se no estado fermentação. Não se espera uma mudança repentina, uma Primavera Caribenha, por exemplo, porém, o crescente degelo de relações diplomáticas, políticas e comerciais com Washington, que culminou na visita de Barack Obama a Havana, poderão trazer mudanças assinaláveis.

As diplomacias adaptam-se à realidade e os corredores do poder antecipam frequentemente os acontecimentos. A administração de Barack Obama terá pressentido que o poder das divisas pode ser mais forte que as ideologias fossilizadas ou os bloqueios irracionais: será que a chegada de uma chuva de dólares poderá ajudar a levedar uma sociedade cubana mais exigente?

A comunidade internacional aguarda com expectativa a aproximação ao exterior (cumprindo-se a vontade do Papa João Paulo II, de Cuba abrir-se ao mundo e o mundo, a Cuba). O poder de compra irá conhecer ganhos com o investimento internacional e com este virá a adaptação a algumas regras das economias de mercado. Os investidores estão a apoiar a reconstrução do país, mas a dúvida subsiste: o regime sobreviveu ao colapso do Muro de Berlim e à desagregação da União Soviética, mas como reagirá à intensificação dos laços económicos com os Estados Unidos da América? É no equilíbrio dos ingredientes, como na feitura do pão, que reside o futuro de um país que necessita de refazer as suas bases essenciais.

A Viena das Caraíbas

É muito comum nos finais de tarde encontramos pequenos motores que transportam água da superfície para os pisos mais elevados. As condutas estão rotas, foram instaladas antes da Revolução. Dezenas de “bobines” na baixa de Havana trabalham em compasso rítmico e ruído mecânico. Aproximam-se, todavia, boas notícias (a obsoleta tubagem de ferro está a ser substituída por polímeros modernos e duradoiros, de Polietileno de Alta Densidade). Havana é, de resto, por estes dias, um estaleiro de obras: as empreitadas para receber o Papa Francisco (na Catedral de San Cristóbal), e, ainda, as infra-estruturas mais alargadas na rede de distribuição de água e de saneamento, e a reabilitação de edifícios emblemáticos da cidade. Na zona do Terminal de Cruzeiros, está a terminar a segunda fase de requalificação da área (onde irão atracar os navios abarrotados de passageiros vindos da Flórida e de toda a região caribenha).

Por toda a parte deparámo-nos com a remodelação de inúmeros edifícios de traça neoclássica. Centenas de prédios encontram-se devolutos e outros tantos foram ocupados por gerações de famílias. Depois de concluído o estaleiro de obras no parque habitacional da cidade, os prédios recuperados poderão voltar a fazer de Havana uma metrópole icónica, capaz de ombrear com a bela Paris ou a majestática Viena. A requalificação da cidade conta com a ajuda dos estados do Médio Oriente e de cadeias hoteleiras espanholas. Pôr de pé Havana, em particular a zona “vieja”, irá demorar tempo e serão necessários, com toda a certeza, milhões de pesos cubanos.

Dos meios de produção à sociedade de sistema piramidal

Os equipamentos e serviços básicos em geral são frágeis. A rede viária é ainda mais arcaica do que aquela que Portugal apresentava antes da conclusão da A1, entre Lisboa e Porto (a principal “autopista” liga Havana a Varadero, a “Meca” do turismo cubano). As telecomunicações são rudimentares. A Internet é ainda um “serviço escasso”, as zonas de “wif-fi” público são muito limitadas (durante o Verão passado foram inauguradas 35 pontos de acesso na capital). Para se aceder à rede digital, é preciso adquirir um cartão pré-pago fornecido pela Empresa de Telecomunicaciones de Cuba (Etecsa), cujo preço pode variar entre os 2 aos 4 euros (para um limite máximo de 2 horas e meia de navegação). Mesmo assim, formam-se filas para comprar a “tarjeta” que conecta os “cubanautas” ao mundo. Em redor e no exterior dos principais hotéis, como o Hotel Ambos Mundos, onde viveu Ernest Hemingway, juntam-se multidões de jovens, que tentam captar o sinal inconstante de “wi-fi”, para “hablar” com o mundo. Os jovens conhecem como ninguém as portas para o mundo (muitas vezes, dispõem de telemóveis topo de gama). Poder-se-á pensar que o sistema de telecomunicações cubano é profundamente antiquado, e é; pode dever-se às condições do embargo a que o país foi sujeito, como também podemos desconfiar que o “fraco sinal de ligação” pode ser uma escolha deliberada das autoridades políticas do país. O certo é que formulário oficial de entrada em Cuba, que se preenche ainda em pleno voo, determina que se informe as autoridades se o turista/visitante é portador de algum equipamento de comunicações à distância (“walkie talkie”). Podemos fazer uma comparação simples: a China apresenta uma presença no universo digital muito mais moderna e eficiente do que Cuba (mas em Cuba não há um “Index” de sítios Web interditos; na China não se consegue aceder ao Facebook, em Cuba, é possível). Como no quadro “La Palavra”, de Marcelo Pogolotti, exposto no convidativo Museo Nacional de Bellas Artes, as interpretações sobre o poder da palavra nos regimes comunistas podem ter graus de realização distintos.

O regime cubano continua a não largar mão dos princípios originários, mas registam-se sinais de alguma adaptação à realidade: é possível comprar um prédio Havana, desde que cumprindo determinadas condições. A terra, o trabalho e o capital prevalecem na generalidade concentrados no Estado, com ligeiras aberturas. Está em curso uma reforma no sistema de registos de propriedade (uma necessidade que aumentará as receitas fiscais, através da recolha impostos sobre as transacções e a posse da propriedade). Cuba mantém uma relação política muito intensa com a Rússia, China, Venezuela e Angola (Luanda é, aliás, o segundo maior fornecedor de petróleo, a seguir a Caracas).

Os governos existem para servir o povo e em Cuba o governo faz questão de exibir o sucesso em três áreas de actuação: saúde, educação e soberania militar (as estatísticas oficiais, do conhecimento geral, são raras). Cuba depara-se com desafios macroeconómicos muito expressivos, nomeadamente a circulação de duas moedas. A moeda oficial é o peso cubano ou CUP (é a divisa do dia-a-dia dos cubanos). Circulam ainda os pesos cubanos conversíveis (CUC), para os estrangeiros. Um euro vale aproximadamente 29 CUP.

O nível de vida dos cubanos é inferior aos padrões ocidentais. O salário médio de um funcionário público ronda os 40 euros. Um médico aufere cerca de 80 euros mensais. Apesar da fragilidade económica, há sectores de exibição do “orgulho cubano”: a biotecnologia é uma referência mundial na Pesquisa e Desenvolvimento (com incidência na medicina). Três sectores merecem uma atenção especial para eventuais investidores externos: a construção civil, as telecomunicações e a agricultura. Há um autêntico ovo de Colombo por explorar, e o melhor dos indícios é o interesse manifestado por países com pouca ligação histórica. O presidente francês François Hollande visitou Cuba em Maio do ano passado, bem antes de o secretário norte-americano, John Kerry o ter feito em Agosto. Hollande levou negócios na bagagem: para lá da imagem de um parque automóvel dominado por clássicos (Chevrolet, Plymouth, Moscovici e Lada), circulam pelo país viaturas de orgulho francês, coreano,…

Falando de pessoas, a sociedade cubana é tipicamente classista. A igualdade é elevada ao máximo expoente e as contradições são evidentes. Não se sente a fome de forma explícita, a miséria não é muito diferente da Europa quando se vêem pessoas a remexerem o interior dos caixotes do lixo. Os supermercados têm as prateleiras muito mais atestadas do que há dez anos. É possível encontrar de tudo o que se produz em Portugal: leite em pacote (um litro pode custar 1,40€), cerveja holandesa importada que rivaliza com a Bucanero, a mais afamada das cervejas, ou electrodomésticos muito procurados por causa das temperaturas extremas (ventoinhas e dissipadores de calor), num país que regista níveis de humidade de 90% e onde é normal atingir os 30.ºC à meia-noite. No plano social, a sociedade é de tipo piramidal: por detrás de um cozinheiro, um segurança de hotel ou motorista de autocarro pode estar um acérrimo militante do Partido Comunista de Cuba, e, portanto, um delator em potência. O menor ruído ou descontentamento pode rapidamente despertar a acção dos Comités de Defesa da Revolução (CDR). Em 1994, as manifestações em Havana foram prontamente abafadas pelo regime.

Comer, rezar e amar

A dieta cubana é muito rica. Na prática, há porém pormenores que o exterior desconhece. As carnes brancas (aves) constituem o principal alimento de origem animal. O abate de animais de raça bovina é proibido (essa é também uma prerrogativa do Estado). As frutas tropicais são genuinamente saborosas (a goiaba, a papaia e a banana têm um sabor mais apurado nestas paragens). O rum, a cerveja e os sumos de frutas naturais compõem o grupo dos “líquidos” mais apreciados na Ilha, tão apreciados com os bonés e gorros de Che Guevara, que os comerciantes vendem nas ruas. A produção de açúcar, o tabaco, o rum e a pesca são os sectores que mantêm a economia a funcionar.

A visita do Papa Francisco a Cuba acentuou a aproximação da Ilha à Igreja Católica, da pacificação entre o poder secular o poder espiritual. A Revolução praticou o distanciamento e a aversão à actividade religiosa, o ateísmo era a versão praticada pelo regime comunista. Hoje, menos de metade dos 12 milhões de cubanos confessa-se católica (predominam os rituais e credos de origem africana, como a Santeria). O papa argentino, com o seu estilo de informal e franciscano, levou as chaves de S. Pedro a Cuba, e talvez as portas da fé conheçam agora um tempo de maior tolerância religiosa.

A História absolvê-los-á… e condená-los-á também?

Há 58 anos que a ilha de Fidel Castro, agora governada pelo irmão Raúl, se reinventa diante das dificuldades. José Martí, o herói nacional da independência de Cuba e fundador do Partido Revolucionário Cubano, deixou um legado que ainda hoje paira na memória das pessoas. Martí considerava que um princípio justo é mais forte do que um exército. Mas os princípios podem ser justos, de um ponto de vista, e noutra perspectiva, estarem longe disso. A liberdade para o regime cubano não é claramente o conceito de liberdade para um europeu. Na mais recente biografia sobre o actual líder cubano (“Raúl Castro, Un Hombre en Revolución”, escrita originariamente em russo e traduzida para espanhol, Editorial Capitán San Luis, La Habana, 2015), Nikoali S. Leonov traça-nos um perfil do homem que conheceu em 1953, numa viagem de barco entre Génova e Veracruz, no México (nessa altura os funcionários enviados pela URSS para o exterior estavam proibidos de viajar de avião, apenas podendo fazê-lo por via terrestre ou de barco). Raúl Castro Ruz, o presidente do Consejo de Estado y de Ministros, é o líder que gere o regime com punho. A sociedade cubana evoluiu: 70% dos cubanos nasceram já depois o triunfo da Revolução. Quer isso dizer que a “Ilha da Liberdade” (qual liberdade?!) pode conhecer um período de diálogo com o mundo exterior e, em particular com os Estados Unidos nunca antes visto. Adverte no entanto o mais novo dos irmãos Castro: “Não se deve pretender que para melhorar as relações com os Estados Unidos, Cuba renuncie às ideias pelas quais lutou mais durante mais de um século, pelas quais o povo derramou muito sangue e conheceu os maiores riscos”.

Cento e sessenta e sete quilómetros (ou 90 milhas náuticas) separam la “Isla de la Libertad” dos Estados Unidos. A geografia ultrapassa a intervenção humana, mas o bem-estar, a pacificação com o poderoso vizinho dependerão essencialmente da vontade dos decisores políticos: primeiro das autoridades de Havana, depois do papel das administrações norte-americanas. Por ora, há esperança: de que o “oxigénio” dos dólares e a vontade dos decisores possam liderar os acontecimentos e gerar progressos históricos.

Comments


  1. A esperança em dias melhores é a última a morrer !!!

  2. Rui Silva says:

    50 anos é muito tempo. Quantas vidas não vividas por causa destes ditadores , só porque se nasceu no sitio errado na epoca errada.

    cumps

    Rui Silva

    • Nascimento says:

      Se vivesses 50 anos de embargo econômico,destruição de colheitas agrícolas, bombas em hotéis,invasões,etc.A isso não te referes tu nem o dono da bosta aqui exposta.Gosto muito de quem rabisca sem erros.Só tem um problema:nem precisa de espremer muito para ver o quer dizer e “abafar”…

      ps.queres ir a Cuba fazer uma operação às cataratas e que tal fisioterapias diversas e demais maleitas.Parece que Lá Não é Preciso Ter Seguro da Medis,e não se tem de esperar 1 Ano Por Uma Consulta!Sabias?

  3. A.Silva says:

    Sessenta e sete quilómetros separam a ilha da Liberdade, de um dos mais opressor, criminoso e injusto estado já criado.

    • Nascimento says:

      Mas a isso,o dono da bosta nada diz.Aliás,para o senhor, os barbudos tomaram o poder porque a ilha era muitíssimo bem governada sob as ordens daquele pais Paladino Da Liberdade!Mas,isso é História.Ora….