Fazer o Secundário para aprender a escrever requerimentos

1087 Deslocacoes automovel proprioA Educação, em Portugal, continua a ser palco de lutas feudais, o que inviabiliza a existência de pactos, de consensos ou, no mínimo,  de um debate sério.

A instabilidade no sistema de ensino é crónica, sendo ainda pior no âmbito da disciplina de Português, continuamente sujeita a alterações curriculares, terminológicas e ortográficas a um ritmo tal que irmãos com pouca diferença de idade não podem, por exemplo, partilhar o mesmo manual. Mais absurdo ainda: muitos alunos aprenderam duas terminologias gramaticais e duas ortografias ao longo do seu percurso escolar.

Haverá muito para dizer sobre este e outros assuntos, até porque o actual ministro da Educação padece da mesma febre (para-)reformista dos seus antecessores.

Hoje, no Expresso, entre outras coisas, Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), alarma-se: “Os alunos até podem acabar o 12º ano a conhecer a literatura portuguesa do século XII ao século XX, mas não sabem escrever um texto mais prático, como um relatório ou requerimento, por exemplo.”

Já se sabe que a APP é defensora de uma concepção meramente utilitária do currículo, desvalorizando, na prática, o conhecimento dos principais monumentos literários e culturais da História. A APP, aliás, sempre manifestou uma preferência por um programa de Português que o professor Carlos Ceia qualificou como sendo de “Práticas de Secretariado”.

Tendo em conta a minha idade, tal como muitos outros antes e depois de mim, não aprendi, em Português, a escrever relatórios, actas, requerimentos ou outras produções do género. Curiosamente, e apesar de não ser propriamente um homem prático, nunca tive dificuldades em fazê-lo, sempre que a vida a isso me obrigou.

Não sei como é que a doutora Edviges Ferreira sabe que os alunos não sabem escrever textos mais práticos. Pergunto-me se a doutora Edviges Ferreira, por ter sido sujeita a um currículo tão cheio de literatura, precisou de muitos anos até conseguir elaborar o seu primeiro requerimento.

Comments

  1. Nightwish says:

    “inviabiliza a existência de pactos”
    E os patos, podem existir? 🙂

    Sinceramente, mesmo depois da faculdade não sabia muito bem escrever um relatório, só com a prática e leitura durante o trabalho é que percebi, mesmo sem praticar muito.
    O ensino serve acima de tudo para aprender perspectivas, porque com isso e com motivação qualquer pessoa aprende qualquer coisa. Querer trabalhadores formatados para uma empresa, como está em voga, é uma treta. Por exemplo, hoje na informática está-se à espera de pessoas que tenham conhecimentos nas ferramentas que usam, como se não houvessem dezenas que vão dar ao mesmo com um bocadinho de hábito, e depois contractam gente que só sabe uma coisa e ninguém repara que se fazem decisões completamente idiotas porque ninguém conhece outra coisa.

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