A Arca do Dilúvio e a Pipa Apocalíptica

It’s hard to focus on ordinary economic analysis amidst this political apocalypse.

Paul Krugman

Blessed is he that readeth, and they that hear the words of this prophecy, and keep those things which are written therein: for the time is at hand.

Ap 1, 3 (apud, KJV)

Deslargue-me.

— António Lobo Antunes (p. 270)

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Hoje de manhã, li este belíssimo texto do António Fernando Nabais. Depois, regressei ao meu trabalho académico e devidamente arbitrado — felizmente, não tenho a infelicidade de ser nem autor nem promotor do Acordo Ortográfico de 1990.

Lido o texto do nosso Nabais e tendo terminado a minha table of contents, dei por mim a pensar: “efectivamente, chegou”. Ou seja, chegou o Apocalipse Now, isto é, o apocalipse agora. Apocalipse, sobre o qual, aliás, já tive a oportunidade de tecer breves comentários (e de citar os sempiternos GNR).

Apocalipse significa descoberta. Apocalipse significa revelação. Por esse motivo, depois de João Roque Dias ter indicado esta pergunta [Read more…]

Fazer o Secundário para aprender a escrever requerimentos

1087 Deslocacoes automovel proprioA Educação, em Portugal, continua a ser palco de lutas feudais, o que inviabiliza a existência de pactos, de consensos ou, no mínimo,  de um debate sério.

A instabilidade no sistema de ensino é crónica, sendo ainda pior no âmbito da disciplina de Português, continuamente sujeita a alterações curriculares, terminológicas e ortográficas a um ritmo tal que irmãos com pouca diferença de idade não podem, por exemplo, partilhar o mesmo manual. Mais absurdo ainda: muitos alunos aprenderam duas terminologias gramaticais e duas ortografias ao longo do seu percurso escolar. [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 explicado pelo Expresso

Expresso, a dois meses de celebrar cinco anos de adopção assim-assim do Acordo Ortográfico de 1990, ilustra desta forma as “palavras que ficam ao gosto do freguês”:

Sector ou setor, característica ou caraterística, acumpunctura ou acumpuntura, caracteres ou carateres.

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Um jornal que chegou a “poupar letras” onde não devia, gasta letras onde não pode.

Em 17 de Junho de 2011, a presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, dizia: “a comunicação social já está quase toda a usar a nova ortografia”, o que “irá facilitar”.

Efectivamente, é muito simples.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

(página do Expresso, via Tradutores Contra o Acordo Ortográfico)

AO90 Expresso

 

A Associação de Professores de Português reconhece que há problemas com o AO90

Este ano, de acordo com informação do IAVE, a única grafia admitida nos exames nacionais será a que está conforme o acordo ortográfico de 1990 (AO90)

Entretanto, a sociedade portuguesa não conseguiu, não pôde ou não quis adoptar o referido acordo. As causas são variadas e começam nos vários erros de concepção do próprio AO90, com várias pessoas e instituições a fingir que não há problemas.

Os jovens que vão, este ano, fazer exames nacionais foram obrigados, ao longo do seu percurso escolar, a conviver com duas ortografias, sendo que a mais recente tem contribuído para o aumento de erros. Como é evidente, os estudantes, sentindo-se ortograficamente inseguros, desejam, no mínimo, que seja reposta a possibilidade de continuar a optar pelas duas ortografias – a de 1945 e a de 1990 –, tal como acontecia nos exames de 2014.

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), discorda dessa pretensão e julga ter explicado a razão, ao declarar que, “se todos os docentes tivessem feito o que deviam, preparando os alunos activamente durante os últimos três anos, para este momento, não haveria qualquer problema.” [Read more…]

Felizmente, há jornais que usam “a nova ortografia”

Há quase dois anos, Edviges Ferreira, deixou-nos descansados, pois «a comunicação social já está quase toda a usar a nova ortografia», o que «irá facilitar».

Sim, ainda bem. É a nossa sorte.

JN 852013

O Jogo e o Expresso abandonam o acordo ortográfico…

Expresso 652013

… e continuam a aplicá-lo: auto-regulação, *autorreguladora, sector, *setor, direcção, *direto, *extração, pára, *abril, *maio ―  enfim, o costume.

Falta muito pouco para celebrarmos, com pompa e circunstância (já agora, permitam-me), os três anos de adopção do AO90 no Expresso… Perdão, da tentativa de adopção do AO90 no Expresso… Peço desculpa, vou reformular: da não adopção do AO90 no Expresso… Não, não era isto. Outra vez, agora sim… Não. Já chega.

Pois é, falta O Jogo… Pois, não é fácil. Mas, isso, já sabemos.

Post scriptum: Não sei quem vai representar a Associação de Professores de Português, depois de amanhã, em audição na Assembleia da República. Se for a Dr.ª Edviges Ferreira, espero que os senhores deputados lhe perguntem: [Read more…]

Diz que há autores mais actuais do que Camilo

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português, entre alguns comentários acertados acerca das discrepâncias entre as metas curriculares e os programas de Português, comenta a possibilidade de Camilo Castelo Branco voltar a ser estudado na disciplina de língua materna: “Durante muitos anos esteve no Secundário, mas as pessoas acharam que tinha de sair. Não me chocaria que voltasse a aparecer nos currículos, embora eu ache que há escritores mais actuais.”

Em primeiro lugar, é necessário notar que “as pessoas” constitui uma expressão demasiado vaga. Seria mais rigoroso afirmar que isso foi da responsabilidade dos autores autores dos programas de Português, programas esses que, goste-se ou não, reduziram o peso da literatura portuguesa e, concomitantemente, da história da literatura portuguesa. [Read more…]

Acordo Ortográfico: a Associação de Professores de Português explica

A imagem acima reproduzida foi retirada da página da Associação de Professores de Português (APP). Neste momento, mantêm-se os erros assinalados, como se pode confirmar, porque escrever segundo diferentes acordos ortográficos só pode ser considerado erro.

Trata-se do anúncio de uma acção de formação da responsabilidade de Edviges Ferreira e Paulo Feytor Pinto, a actual e o antigo presidentes da APP e defensores do Acordo Ortográfico, naturalmente. Diante da indecisão ortográfica patente no facto de que as consoantes mudas ora caem ora nem por isso, e não sendo aceitável pensar que tal se deva à incompetência linguística de uma associação de professores de Português, só posso deduzir que este anúncio é material didáctico elaborado com a finalidade de levar os formandos a perceber algumas das novidades introduzidas pelo AO. Fico muito mais descansado.

Feytor Pinto, curiosamente, terá afirmado que o AO era algo que os professores poderiam aprender num ápice, logo após uma primeira leitura, mesmo em cima do joelho. Ainda assim, terá sido, certamente, a pensar nos mais duros de entendimento que o mesmo Feytor Pinto se sacrifica a ensinar o óbvio aos ignaros.

Professores apoiam declarações sobre acordo ortográfico

O título deste texto é tão enganoso como o do Diário de Notícias de hoje, em que se pode ler “Professores lamentam declarações sobre acordo ortográfico”. Na verdade, desconhecemos, o DN e eu, o que sentem os professores, de uma maneira geral, acerca das declarações de Francisco José Viegas, pelo que seria da mais elementar honestidade termos escolhidos ambos títulos diferentes. É claro que a minha escolha é provocatória; a do DN é, apenas, incompetente. O título escolhido pelo Paulo Guinote no comentário que faz a esta mesma notícia corresponde, afinal, à pergunta que deve ser feita.

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), representando-se a si própria e falando, eventualmente, em nome dos associados da dita associação, lamenta as declarações de FJV e considera que se anda a “a brincar com os professores, alunos, pais, e toda uma comunidade”. Devo dizer que, em grande parte, concordo com muito daquilo que afirma a minha ilustre colega e, desde há vários anos, que vejo a APP participar em muitas dessas brincadeiras, tendo em conta a facilidade acrítica com que tem cavalgado várias ondas, incluindo a cobertura dada ao empobrecimento dos programas de Português do Secundário, passando pela aprovação dada à nova terminologia gramatical e terminando na aceitação deslumbrada do Acordo Ortográfico.

O DN quis também ouvir o professor Carlos Reis, um estudioso rigorosíssimo de matérias como a obra literária de Eça de Queirós ou a Teoria da Literatura. Na defesa do Acordo Ortográfico, no entanto, Carlos Reis tem revelado um entusiasmo inimigo do rigor e uma pobreza de argumentos que repete aqui, ao deixar implícito que só pode haver “política da língua” se houver um acordo ortográfico, como se a primeira implicasse necessariamente o segundo. Ao admitir “ajustamentos pontuais” coloca-se, no entanto, numa posição que se pode confundir com a de Francisco José Viegas.

Finalmente, aproveito para deixar aqui uma palavra de pesar para a displicência com que a comunidade docente aceita muitas imposições: é especialmente grave que continue a não existir uma reflexão sobre o Acordo Ortográfico. Como tem acontecido em muitas outras ocasiões, os professores limitam-se a encolher os ombros e a dizer, com um desencanto sofrido: “Agora é para fazer assim…”