Elisabeth, Dallas, Geni


«Stagecoach" (1939)

«Stagecoach” (1939)

Certa mãe de um adolescente queixava-se a uma amiga que, para chegar à sua nova escola secundária, o filho tem agora de passar por uma rua onde há senhoras. “Daquelas. Sabes? Das de má vida.” E que as senhoras não se metem com o rapaz, mas dão mau aspecto à rua. Carregava muito na palavra “senhoras” e fazia um trejeito amargo com os lábios para que se percebesse que dizia “senhoras” para mostrar que ela o era, as outras é que não.

A amiga solidarizava-se com aquela angústia. Realmente. Nem devia ser permitido tão próximo de uma escola. Deviam estar lá num bairro delas, como na Holanda. Sabes que na Holanda é assim, explicava, elas estão proibidas de sair dali. Têm cada uma casinha, com uma lanterna à janela, podem ir para a montra, para se mostrarem, mas não podem sair dali. Era o que faltava andar a rondar as escolas, isso é que era bom. Ia logo tudo para o xilindró.

Assentiram as duas amigas, moralmente reconfortadas com a ideia de que há, pelo menos, países decentes, em que as prostitutas estão proibidas de sair da montra.

Talvez estas senhoras não o saibam mas são as herdeiras do comité de decência que expulsou a loura Dallas de Tonto, cidadezinha do Arizona. A Dallas, bela mulher por quem um John Wayne muito jovem se apaixona em “Stagecoach” e a quem pede em casamento sem nunca fazer perguntas sobre o seu passado. Talvez estas senhoras fossem capazes de obrigar uma mulher a arrumar as trouxas, levá-la até à carruagem e obrigá-la a sair da cidade, em nome da paz conjugal, da decência e dos bons costumes.

A Dallas, de John Ford, inspira-se assumidamente em Elisabeth Rousset, personagem de Guy de Maupassant, conhecida pela alcunha cruel de “Bola de Sebo”, por ser roliça e pequenina. E embora nunca tenha ouvido tal referência, creio que também a Geni, da poderosa canção “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, poderia inspirar-se na “Bola de Sebo”.

“Bola de Sebo” vive em Rouen, durante a guerra franco-prussiana. Geni, numa cidade dominada por bandidos, jogadores e proxenetas. Ambas vendem o corpo para sobreviver e por isso são desprezadas pela gente honrada. Quando poderosos inimigos impõem o medo na cidade, logo as descobrem e pedem uma noite com elas. Elas rejeitam, são incapazes de deitar-se com o opressor. Porque não haveria uma mulher que vende o corpo de ter direito à repugnância e à recusa?

Mas os inimigos são ardilosos e têm o seu orgulho, e não as ameaçam nem procuram tomá-las pela força. Antes, prometem poupar os demais se elas cederem. E é quanto basta para que a gente honrada lhes suplique que o façam, que se deitem com eles, que mais dá, que pode significar um homem mais? Não custaria afinal, tal sacrifício muito mais a uma mulher honesta, perguntam, porque nem na súplica são capazes de olhá-las como iguais.

Se Geni e Elisabeth Rousset cederam foi por terem sido persuadidas a sacrificar-se pelo bem do conjunto. E quando venceram o asco em nome desse bem comum, e se apresentaram timidamente perante aqueles a quem salvaram, logo receberam de volta os insultos, o desprezo, o nojo de que elas chegaram a acreditar poder livrar-se.

Quanto me apetece perguntar às duas amigas se alguma vez pensaram que sacrifício estariam dispostas a pedir às mulheres da rua se as circunstâncias a isso as conduzissem.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. Não conheço o filme, mas conheço esse belo conto de Maupassant. Para esta gente honrada é muito útil a existência de gente menos honrada que lhe permita preservar a sua honradez. No caso desta senhora, a presença daquelas outras senhoras até lhe vai servir de argumento para reivindicar a manutenção do filho no colégio privado, que fica numa rua honrada e isenta de devassidão.

  2. É a fotografia da sociedade que temos !!! Muito obrigado.

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