Passos Coelho e o «bode expiatório para lavar as mãos»


bode2Pedro Passos Coelho é um homem ocupado, já se sabe, e é, portanto, natural, que nem sempre tenha tempo para pensar naquilo que diz, até por falta de hábito. Nos últimos tempos, o ex-governante está demasiado “focado”, para usar um verbo que está na moda, em repetir a ideia de que as possíveis sanções por défice excessivo não se devem ao facto (repito: facto) de que o seu governo deixou um défice excessivo, mas sim à falta de competência do actual governo que ainda não pôde gerar défice excessivo. Passos Coelho é como as criancinhas que partem uma jarra e culpam outro menino que tinha acabado de entrar na sala.

A repetição de ladainhas embota ainda mais o cérebro de quem a reproduz e uma pessoa acaba por baralhar as referências. Há uns anos, Assunção Esteves pôs Beauvoir onde deveria estar Babeuf. Passos Coelho conseguiu misturar numa mesma frase o Antigo e o Novo Testamento e, ao querer acusar o actual executivo de atirar culpas para a burocracia eurocrata, declarou que o governo procura «um bode expiatório para lavar as mãos.»

Ora, o pobre bode expiatório é referido no Levítico, como até a Wikipédia sabe, e o acto de lavar as mãos como declaração de alijamento de responsabilidades foi praticado por Pilatos, muitos tempo depois.

Há sempre a possibilidade de Passos Coelho se ter lembrado de que Jesus também veio expiar os pecados da humanidade, mas a cristandade prefere simbolizar isso num cordeiro, animal igualmente sacrificial. É confusão habitual, no entanto: à distância, caprídeos e ovídeos são parecidos e, para mais, Coelho anda preocupado com a ideia de que as sanções são da responsabilidade de quem ainda não ultrapassou o défice, o que causa decerto défice de atenção.

Por outro lado, a frase pode ainda gerar o equívoco de que Passos Coelho estaria a tomar bode expiatório por sabonete, como outros teriam confundido Manuel Germano com género humano ou a feira de Beja com o olho do cu. Seria preocupante porque revelador de alguma perturbação mental, mas, infelizmente, não me espantaria, tendo em conta que o pobre homem anda um bocadinho confuso. Por mim, era mandá-lo para o deserto e lavar as mãos.

Comments

  1. omaudafita says:

    Então??? Já não fazem posts sobre refugiados? Logo agora que o tema está a bombar!

  2. Martinhopm says:

    Estamos num maré de inconseguimentos ou os ‘abranhos’ foram corridos do poleiro?! E não páram de choramingar, de fazer queixinhas. Não se tratará de um novo ‘mito urbano’ em gestação?

  3. Edgar Carneiro says:

    Rejeitar com firmeza qualquer discussão ou negociação sobre a aplicação de sanções a Portugal já não apenas uma questão de soberania mas também de dignidade!

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