Festival Eurovisão da Sanção


100589474-Jeroen-Dijsselbloem-dumbfounded-gettyp.1910x1000Não faltará quem diga que o título é um trocadilho engraçadinho e que o autor tem a mania que tem piada. É tudo verdade e outras coisas piores que queiram pensar.

Contudo, a realidade também tem alguma culpa nesta facilidade em descobrir frases que parecem apenas louras burras, mas que, no fundo, são relativamente inteligentes e algumas nem sequer são louras, como se sabe.

Na distante Bruxelas, capital de um Árctico sentimental, há um coro que canta “sanções” e, pelo mundo fora, outros existem que vão na cantiga. Passos Coelho é, além de barítono de créditos firmados, autor (in)voluntário de sanções que ficam no ouvido dos mais distraídos. Curiosamente, ao contrário de outros compositores, Passos Coelho recusa a autoria, mesmo quando se sabe que foi ele que esteve sentado quatro anos a compor, ao lado de Maria Luís, grande artista do pimba financeiro (Maria Luís tem, aliás, uma versão do sucesso de Emanuel, em que o refrão é “E se eles querem um salário ou um direito, nós pimba, nós pimba!”).

Neste contexto, Eurovisão significa, evidentemente, um olhar sobre o mundo em que o Euro é mais importante do que as pessoas. Nessa agreste Bruxelas, uma série de gente que ninguém elegeu só pensa em sanções, fingindo que o problema está no défice. O problema está na possibilidade, ínfima que seja, de um governo recusar uma austeridade que não é mais do que um programa de limitação ou de erradicação da democracia, com tudo o que isso implica de usufruto de direitos essenciais, coisas que atrapalham multinacionais desejosas de salários baixos e de gente amedrontada e disposta, portanto, a aceitar menos direitos e menos dinheiro.

Associa-se a Festival a ideia de vários artistas a actuar. Neste caso, até temos diferentes palcos. Para além dos eurocratas, os próprios jornais envergonham-se de um passado em que eram uma referência e entram no coro das sanções. A arte é feita de ficções, já se sabe, e não é, portanto, obrigada a respeitar a realidade e a realidade é que, se não estamos melhores, não estamos piores do que já estávamos. A verdade é que só isso já é perigoso, porque o pior que poderia acontecer era as coisas melhorarem.

Quando era miúdo, vivia na esperança de que Portugal ganhasse o Festival da Eurovisão, o que, como se sabe, nunca aconteceu. Já na altura, havia quem fizesse referência a conspirações dos países mais ricos que combinariam pontos a distribuir entre eles. Já na altura, imagine-se.

Comments

  1. Não há dúvida que ainda há gente lúcida e inteligente suficiente para ir denunciando este estado lastimoso em que nos encontramos a ser dirigidos por “burrocratas” mal preparados e sem qualquer espirito de lucidez para discernir o estado em que esta Europa se encontra , como não os podemos substituir ,temos que cultivar a paciência e ir esperando por dias melhores !!!

  2. Temos um ex-primeiro ministro com uma falta de verticalidade impressionante! Chama-se Passos Coelho (o mentiroso compulsivo

  3. democracia says:

    sanção zero? psd e cds já colocaram a bandeira a meia haste.

Trackbacks

  1. […] repetição de ladainhas embota ainda mais o cérebro de quem a reproduz e uma pessoa acaba por baralhar as referências. […]

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